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Agosto 2002
Ano IV - nº 48

FESTA DA GLÓRIA

Numa outra ocasião, o discurso foi na festa anual de Nossa Senhora da Glória e foi todo uma apologia do caráter da santa. Haviam procurado um dos mais populares pregadores da época, e ele parecia estar inteiramente convencido de ter um tema capaz de lhe proporcionar ilimitados recursos. Não saiu dos superlativos: "As glórias da Sacratíssima Virgem não são para ser comparadas com as dos homens, mas tão somente com as do Criador." "Ela fez tudo o que Cristo fez, menos morrer como ele." "Jesus Cristo era independente do Pai, mas não de sua Mãe." Tais sentimentos, entoados em conjunto, não deixavam oportunidade para se penitenciar diante de Deus ou para a expressão da fé para com o Senhor Jesus Cristo em toda a duração do sermão.

Em 1852, por ocasião de uma festividade soleníssima em honra de Nossa Senhora, um dos padres mais eloqüentes do Rio foi convidado para pronunciar o sermão na igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo, que fica ao lado da capela imperial. Na noite dessa mesma data, um cavaleiro católico me fez um resumo do sermão, que eu transcrevo para uso do leitor: "Os magos de Leste e os reis do Oriente fizeram penosas caminhadas de terras distantes, e, prostrando-se aos pés de Nossa Senhora, ofereceram-lhe suas coroas em troca da sua mão; mas ela rejeitou a todos, e deu-a ao obscuro, ao humilde mas piedoso São José."

Por ocasião das festas de igreja, os fiéis (e também os outros, nesse particular) podem obter o número que desejem de objetos piedosos, sob a forma de medidas e bentinhos, – pinturas, imagens, medalhas de santos e do papa, etc., etc.. São "trocadas" – nunca vendidas – na igreja, e produzem bons preços. Uma "medida" é uma fita cortada da altura exata da Nossa Senhora ou do santo padroeiro do lugar. Quando usadas de encontro à pele, curam toda espécie de doenças e realizam os diferentes desejos de seu feliz possuidor. Há certas e determinadas cores que se julgam próprias de cada Nossa Senhora; uma vez contaram-me o importante fato que, quando um fluminense piedoso faz um voto a Nossa Senhora, deve tomar muito cuidado para evitar que seja empregada uma cor errada. Uma senhora da minha família, desejando fazer um pequeno presente a uma de suas amigas – uma jovem mãe católica – enviou um lindo vestido cor de rosa para o filho; mas o embrulho voltou, com muito pezar porque o presente não podia ser recebido, uma vez que a mãe fizera uma promessa que se relacionava particularmente com o filho. Tinha prometido a Nossa Senhora (cujas cores favoritas eram às da neve caindo e a do céu nas alturas) que se seu filho ficasse curado só se vestiria de azul e branco até completar seis meses! No fim desse prazo, acrescentou a resposta, o presente poderia ser aceito.

Os "bentinhos" são duas almofadinhas com as imagens pintadas de Nossa Senhora ou de um dos santos padroeiros. São também usados sobre a pele, aos pares, amarrados por uma fita, um no peito e outro nas costas. São os mais eficazes para proteger a quem os usa contra os inimigos externos, pela frente e pelas costas.

Visitei a igreja da Glória num desses dias de festa, e a "troca" de imagens e medias foi imensa. O preço nem sempre, porém, é pago em dinheiro. Verifiquei que velas de cera, oferecidas à Virgem, valiam tanto como moedas de prata e de cobre. O calor e o aperto da multidão na frente da igreja eram tais que procurei um refúgio na esplanada em frente; e o contraste do ar fresco da noite e os doces aromas que se desprendiam dos jardins em baixo era o mais agradável e reconfortante.

A multidão, como logo me certifiquei, não se confinava na igreja. Formavam-se grupos em volta da fonte, e milhares de pessoas se achavam na estrada denominada a Ladeira da Glória, ou empregavam o tempo comendo doces, fumando e conversando no largo. Estavam aguardando os fogos de artifício que encerrariam a festa. Os brasileiros apreciam enormemente a pirotécnica, e todas as festas principiam e terminam com a queima de foguetes e rodinhas. O fogo final excede a tudo o que no gênero jamais presenciei na América do Norte; e duvido que haja qualquer outro país no mundo, exceto a China, onde a pirotécnica seja tão variada e esplêndida como no Brasil. Não são apenas as rodinhas, cones, sóis, luas, estrelas, triângulos, polígonos, vasos, cestas, arcos com letras e os arranjos comuns conhecidos entre nós, mas alteados em grandes postes, são figuras humanas do tamanho natural, representando serradores de madeira, dançarinos em corda, amoladores de facas, bailarinas e todas as profissões que exijam movimentação característica. Por um engenhoso mecanismo, essas efígies movem suas diferentes partes com admirável presteza, imitando os movimentos naturais. Nada de gauche. As figuras são bem vestidas, até mesmo com luvas quando representam senhoras. O lenhador faz saltar centelhas, e o amolador de facas faz girar uma roda que expele uma verdadeira auréola de cintilações.

Não há festa, durante todo o ano, que seja mais apreciada pelos fluminenses amantes de diversão do que essa de Nossa Senhora da Glória. Na véspera, é queimada certa quantidade de rodinhas, – provavelmente para despertar a atenção da Virgem para a homenagem que lhe será tributada no dia seguinte, a fim de que ela, na multiplicidade de suas preocupações, não se esqueça da aproximação do seu aniversário; pois deve ter uma assombrosa memória para se poder lembrar de cada data festiva em que a sua companhia é implorada, dado que a quarta parte das igrejas do Rio é dedicada a uma Nossa Senhora.

No dia da festa, desde manhã cedo, as proximidades da branca igrejinha estão apinhadas de devotos em suas alegres vestimentas; nada nessa festividade exige as roupas escuras comuns; as próprias borboletas e os colibris de peito dourado, que voam por sobre os entreabertos jasmins e rosas em torno, não se mostram mais vistosos em suas cores que as senhoras e senhoritas de todas as idades que passam e repassam pela estrada da Glória, vestidas com todas as cores do arco-íris, e com suas longas tranças cuidadosamente penteadas e adornadas de flores naturais, entre as quais sobressaem cravos. Entram na igreja para ouvir missa; e feliz do que tem suficientes forças, pulmões e nervos, para conseguir abrir caminho até o altar através da multidão que a natureza vestiu de luto perpétuo. Uma vez chegados ao desejado lugar, ajoelham-se no chão, e, depois de dizer suas orações e ouvir a missa, divertem-se conversando no círculo das belas, que, em tais ocasiões, estão sempre na ansiosa espera do formoso objeto de sua adoração. Note-se que, como na França, a maioria dos devotos é de mulheres; e provavelmente por isso, todo homem fica ansioso para angariar o afeto de algumas belas devotas, que lhe suprirão a falta de fervor.

Depois que elas pacientemente exibiram seus encantos e seus brilhantes, durante algumas horas, um frêmito de animação repassa pela multidão, e salvas de artilharia anunciam a chegada da comitiva imperial, que, quando o tempo o permite, deixam as suas carruagens no começo da ladeira e lentamente a sobem até o alto da igreja. A ladeira foi previamente coberta de flores e de folhas de canela silvestre.

Em certas ocasiões, bandos de crianças, vestidas de branco, dos diferentes pensionatos, estão esperando, no alto do morro, para beijar as mãos de suas majestades. É o mais lindo número do espetáculo – o imperador, com sua estatura majestosa, e a imperatriz, com seu sorriso amável, passando lentamente pelas fileiras de meninas que, com os olhinho sbrilhando, não deixam de fazer idéia da parte importante que estão representando.

Após a cerimônia na igreja, a comitiva imperial desce até a casa do senhor Bahia, rico banqueiro que mora nas imediações do local, onde foi preparada uma esplêndida colação, e a tarde termina por um baile e fogos de artifício. As exibições pirotécnicas são feitas na estrada do lado oposto da casa; desgraçado daquele que se arriscar a conduzir um cavalo fogoso ali. Não há outro caminho para ir de Botafogo ao centro da cidade; de formas que tem que tomar a filosófica resolução de ficar apreciando, o melhor que possa, as rodinhas de Catarina e as ardentes dançarinas piruetando no meio das chispas de fogo.

Um aspecto que distingue esses ajuntamentos no Rio é que, entre milhares de pessoas presentes, não se dá nenhuma cena de brutalidade nem nenhuma briga. Reina uma perfeita calma; e, se, no aperto inevitável, alguém sai pisado ou empurrado, um pronto pedido de desculpas imediatamente se ouve, com o inseparável tirar do chapéu. Como só se bebe água, nada há que inflame as baixas paixões da multidão. Os escravos não só se mostram respeitosos em suas maneiras, como também demonstram um alegre sentimento de liberdade, para aquela ocasião; e procuram ambiciosamente os melhores lugares para ver, lugares que os seus senhores menos ativos procuram conseguir em vão.

À meia-noite está tudo terminado, e as quietas estrelas derramam seu brilho sobre a Glória coroada pela igreja e coberta de vegetação.


(Kidder, Daniel Parish; Fletcher, James Cooley. O Brasil e os brasileiros, p.110-116

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