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Agosto 2002
Ano IV - nº 48

FESTAS TRADICIONAIS

É em agosto que, todos os anos, se realizam as imponentes e tradicionais festas consagradas a Bom Jesus de Pirapora, dos Perdões, de Monte Alegre, de Bonfim, de Tremembé e de Iguape.

Nos dias 4, 5 e 6 desse mês tem lugar as pomposas e concorridas festividades em honra do Senhor Bom Jesus dos Perdões e de Pirapora. São três dias de solenidades belas e animadas. Comparecem milhares e milhares de pessoas. Peregrinos e romeiros, de regiões longínquas, não só do estado de São Paulo como dos estados vizinhos, ali aportam anunciando sua chegada com ruidosos foguetes – a fim de cumprir as suas promessas, e ao mesmo tempo prestar um preito de homenagem, de fé e de apreço, de gratidão e de reconhecimento, aos santos mui venerados, gloriosos e milagrosos.

Pirapora e Perdões, que são minúsculas, mas pitorescas e encantadoras vilas, ficam, durante os dias dedicados aos seus padroeiros, transformadas em grandes cidades, tendo casa comerciais mui variadas, com inúmeros hotéis e restaurantes, havendo em tudo um movimento intenso, uma animação extraordinária.

Pelos campos, ao redor das vilas, armam-se centenas de barracas de pano grosso e esbranquiçado, onde assiste uma multidão de devotos.

E como é encantador, nas noites das festas, observarem-se aqueles abarracamentos, que nos fazem lembrar um enorme acampamento de soldados com as suas luzes de petróleo a tremeluzir frouxamente, e, fora, pequenas "tacuruvas" (fogões improvisados) onde são preparadas as refeições.

Que graça e que aspecto pitoresco oferecem aquelas casinholas de pano, simples e humildes, cada uma das quais se arma num momento e se desmancha num instante!

E esposos e filhos – naquelas modestíssimas habitações – alegres, com as almas a transbordar de fé e de esperança, exaltam e veneram o Senhor Bom Jesus de Pirapora e dos Perdões da Cana Verde, colocados em altar, olhar firme, fixo, com a cabeça coroada de espinhos, e com as mãos sobre o ventre atadas em cruz, a uma corda!

Às vezes, de uma daquelas numerosíssimas barracas, partem cantos, numa toada embaladora...

Percebe-se, pelo acento das vozes, que são romeiros vindos de Minas Gerais, a cantar versos, uns cheios de piedade e de unção religiosa, outros sentimentais e amorosos...

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Durante as festas ninguém dorme. O barulho é ensurdecedor: automóveis, buzinando percorrem as ruas, conduzindo caipiras que, mediante uma parca contribuição gozam as delícias de um pequeno passeio de auto; tróleis, com o chocalhar de campainhas e sinceros, vão e vem, transportando passageiros; por todos os lados, negociantes, em altas vozes, proclamam a excelência de seus produtos, convidando os fregueses a comprá-lo; aqui e ali, quitandeiras apregoam seus doces, cafés com bolinhos, pastéis quentes e o afamado "quentão" – fortíssima pinga, fervida com açúcar e gengibre.

E ninguém deixa de vender, com ótimos resultados, os seus produtos.

Os divertimentos profanos, nos dias de festas, são inúmeros; circo de cavalinhos, o "carroussel", os bailes públicos, o cinema, o cosmorama, os tiros ao alvo, etc., em cada um dos quais aglomera-se um sem número de espectadores.

Nas ruas, pelos campos e barracas, pelas três noites a fio, há risos e palmas, há cantos e danças. No meio das vias públicas, um grupo de sírios mercadores, num bambolear característico, dança aos sons de um esquisito instrumento; em frente das barracas, botequins e vendas, matutos de vários lugares arrastam os pés, estalam as mãos, num movimento cadenciado e forte, cantando quadras e "modas" engraçadas, aos toques chorosos dos pinhos temperados...

É tudo é ruído, tudo é alegria e entusiasmo transbordantes...

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No dia 6 as festas chegam ao auge, terminando na manhã seguinte.

A tarde sai a grandiosa procissão do Bom Jesus, com um acompanhamento colossal. Enquanto percorre o seu longo e habitual trajeto, vêem-se as mais singulares, difíceis e curiosas promessas: mulheres, homens e crianças, vestidos de mortalha e hábito, a carregar potes de água, pedras na cabeça, dinheiro amarrado em quaisquer partes do corpo, velas acesas, etc. E quantos desses já beijaram a imagem do santo, percorrendo de joelhos a rua principal ou toda a nave da grande igreja!

Ao recolher-se a procissão, queimam-se estrepitosos foguetes e baterias formidáveis, que são percebidos a léguas e léguas de distância.

Terminados todos o atos religiosos, ao amanhecer do dia 7, retiram-se os peregrinos, visitantes e devotos.

Ouvem-se às vezes cantigas saudosas, de despedida, como esta:

Adeus, adeus Pirapora,
Boa terra, sempre é;
Adeus que pro ano
Hei de voltar, se Deus quiser!

Salve meu Bom Jesus,
Santo bom e padroeiro,
Nós já vamos embora,
Sede nosso companheiro!

Viva o Bom Jesus,
Santo bom e verdadeiro!
Ele é a grande luz,
Que alumia os caminheiros!...

E Perdões e Pirapora retornam à sua solidão e quietude de sempre...


(Damante, Francisco. O bom povo; festas, costumes e lendas populares. p.65-69)

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