Agosto
2002
Ano IV - nº 48 |
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Era sério o problema de passar
o domingo, num tempo em que quase não havia jogo em família ou entre amigos.
Visitavam-se os parentes. Mas as crianças se aborreciam, ou faziam peraltices que
aborreciam os parentes.
As matinês de teatros eram raras, e nem sempre os espetáculos eram adequados às
crianças. As de "cinema" vieram regularmente mais tarde.
Havia, entretanto, as idas à chácara. Como, na chácara, não fosse possível cozinhar,
preparava-se farnel, com comidas frias e frutas, e levava-se roupa sobressalente, para as
crianças trocarem na hora da volta.
Elas gostavam porque podiam correr, subir nas árvores, sujar-se, embora ouvissem ralhos:
Desça daí, que horror! Olha que imundície, se isto é jeito! Onde é que rasgou
a roupa? Pare um pouco, com esse afogueamento, você estará com febre à noite!
Os cestos que levaram comida, voltavam com abóboras, mandiocas, batatas, verduras e
frutas. As maletas com a roupa limpa voltavam com roupa suja e rasgada. E ainda havia
grandes ramos de flores.
Tomava-se o trem na estaçãozinha do subúrbio, até a estação do Norte. Aí vinha-se
para a cidade pelo bonde do Brás. Então, outro, da cidade para casa.
E havia sempre lugar no trem e nos bondes.
Em outras ocasiões faziam-se piqueniques no parque da Cantareira ou no Bosque da Saúde.
Combinavam-se três ou quatro famílias, e se distribuíam os encargos da comida: eu levo
um pernil; eu levo dois frangos com farofa; eu levo pão, sardinhas e presunto para
sanduíches.
Preguiçosa, você leva tudo preparado. Não se dá ao trabalho de fazer nada?
Mas vocês já escolheram o que tinha de ser preparado!
Não, ainda falta a salada de batatas.
Ah! Eu levo a salada de batatas.
E também se distribuíam as sobremesas entre umas e outras: bolos, goiabada, marmelada,
queijo, laranjas, bananas.
Se se ia ao Bosque da Saúde era preciso levar água mineral. As águas das fontes não
inspiravam confiança. Mas se se ia ao Parque da Cantareira, confiava-se na pureza dos
veiozinhos do abastecimento da cidade.
Para o Bosque da Saúde tomava-se o trenzinho de São Paulo a Santo Amaro, na rua da
Liberdade, esquina da rua São Joaquim. Seguia pela direção da atual rua Domingos de
Morais, depois ia volteando, volteando, deixava os passageiros do Bosque, prosseguia
volteando, volteando, por Jabaquara, Volta Redonda, volteando, volteando até Santo Amaro.
Para ir à Cantareira, tomava-se o trem ali em baixo da ladeira General Carneiro, a 150
metros do centro da cidade.
Em ambos os casos, os vagões eram iguais, abertos como hondes urbanos.
Ao chegar ao destino dispersavam-se os vários grupos pelo parque, à cata dos ranchos
rústicos de sapê, com mesas compridas e bancos de tábuas.
Distribuíam-se pratinhos e copos de papelão, guardanapos e talheres. O pernil era
cortado com faca de campanha; os frangos, em parte cortados e em parte quebrados pelas
juntas, se já não vinham partidos de casa e envolvidos em farofa. Lá se ia comendo e
caçoando e rindo. O rapaz que trouxesse violão ou a moça que cantasse modinhas, seriam
mal vistos. Mas, cantarolavam árias de óperas, ou a canção de Malborough ("Malborough
sen va-t-en guerre, miranton, miranton, mirontaine..."); ou a canção Ausente,
de Carlos Gomes (Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento?) ou a Valse
Brune (Cest la valse brune des chevaliers de la lune) ou o Ideal
de Tosti, ou uma barcarola italiana.
Enquanto isso, os homens estendiam jornais pela relva, deitavam e ressonavam.
As senhoras bocejavam mas não ficava bem deitarem-se na relva. Conversavam sobre
amamentação, criadas e receitas de cozinha.
(Americano, Jorge. São Paulo naquele tempo, p.212-214) |
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