Agosto
2002
Ano IV - nº 48 |
|
TABUS E CERTOS PRECONCEITOS |
Talvez seja na parte
nordestina do país onde mais se encontre o predomínio dos tabus. E são de origem quase
inexplicável. E ainda a maioria de caráter original. Não são todos, mas um grande
número traz os sinais apontados. A abundância de tabus torna o folclore bastante rico
nesse recanto de tantos pitorescos. Não trataremos agora nem de sua originalidade nem
muito menos de explicar a sua procedência. Os tabus indicados nesta página apenas
conduzem à margem uma única preocupação: enumerá-los com propósito de fixação e
nada mais. Aliás, quase todos já se acham registrados em trabalhos esparsos e até em
livros. De qualquer maneira se trata de pequeno esforço no sentido de reunir cada vez
mais o que existe de conhecido não só nas publicações como na tradição oral do nosso
povo. E passemos ao apontamento desses tabus que tanto preocupam os cientistas.
Quem bebe água depois de chupar abacaxi incorre no perigo de criar barriga d'água (ou
seja hidropisia). Não se bebe leite quando se chupa manga ou banana ou laranja, ou ainda
abacaxi. Água depois de café quente, quem disse? Só se for doido varrido. Nem quando se
serve de leite, nem muito menos de pirão. Tudo isso faz mal, é tabu. E que espécie de
mal? Ninguém explica, porém ninguém aprecia transgredir a lei da tradição. O respeito
é geral. Não se dorme após as pesadas refeições porque vem congestão na certa. Nem
se toma banho (no entanto os chineses não fazem outra coisa depois do almoço e do
jantar). Melancia não se come, é fruta destinada aos porcos. E "dá febre",
assim não ocorrendo, todavia, com o seu primo, o melão.
Leite de jumenta só quem toma são os meninos que necessitam "ficar fortes".
Faz bem ao pulmão. Contrariamente acontece com os homens: sendo sadios, tornam-se
raquíticos, sendo magros, ainda mais ficam depauperados. Quem se atreverá a servir-se de
fruta quente no calor solar? Dor de barriga vem sem dúvida. E possivelmente febre
maligna. Cana cortada ao sol não se chupa logo, espera-se primeiro que esfrie, senão o
resultado é este: diarréia ou corrimento - Dizem que dá remela nos olhos. Água não se
toma depois de chá, doce de batata, farofas gordurosas, porque incha a barriga. Fica-se
de buxo por acolá. Ou como outros dizem: embolua o estômago. Batata quente não se come.
Também água não se bebe logo em seguida ao se comer jaca dura ou jaca mole.
Leite só se mistura com uma única fruta que é o abacate. Com o resto (banana e manga,
abacaxi e goiaba, etc.) faz mal de botar o cantante na cama. Ovo é preciso muito cuidado
com ele. Não se mistura com jaca, nem manga, nem leite, nem água. E, por falar em jaca,
esta não se come à noite como também a manga. Desde, porém, que se coma um pedaço de
sua casca, isto fará sem que não seja provocada complicação alguma. Assim se observa
tradicionalmente no litoral nordestino, mas há outros lugares, por exemplo, no brejo e
sertão, onde o costume é quebrado mediante beber-se água, em goles pausados, sendo que
admitem até o exato número deles: três e outros goles, até cinco, no máximo. Doce que
esteja quente não se bota na boca. Estraga os dentes. Quando se come a carne de sol, é
indispensável tomar café grosso na tinta para ajudar o coração. Carne de galinha faz
mal a feridas abertas. Gerimum, ou abóbora, como chamam no sul do país, em seus
luxos, não é lá muito democrata, não e daí precisar-se de algum cuidado com
ele. Verdura (eis o termo por que é mais conhecido, juntamente com tudo quanto é de
"folha" que se bota na panela) motiva certos efeitos violentos no caso de
comer-se quente e, após, bebendo-se água, pode estoporar. O mesmo acontece com a sempre
perigosa batata, que, desta vez, fria ou quente, nunca entra em boa combinação com o
leite.
Se é o vinho ou cachaça, álcool de qualquer modo, não se pode misturar com jaca, manga
e pinha. Ocasionará desgraça de morte, é o que se propala. Não se entendem vinho ou
cachaça com leite. O desaguisado pode considerar-se como certo. Vem desinteria de
chicote. Falam ainda em poucos entendimentos entre o álcool e o ovo. No entanto, a
cachaça é bem-vinda quando se faz almoço suculento com feijoada ou chambaril cozido em
que o pirão nada em gordura. Todos dizem que "corta" os efeitos maus ou
desvia" doenças súbitas que podem esperar-se na hipótese das grandes
extravagâncias. Porque uma peixada sem álcool é impossível conceber-se no Nordeste.
Como também uma feijoada completa para dia de domingo. Torna-se necessário
"cortar"
ou "desviar" os possíveis males decorrentes. Mesmo por que, no caso do peixe,
este pode ser "carregado" e, sendo assim, há perigo que precisa contrabalançar
com os poderes eficazes da cachaça. E há outros pratos desse feitio - "Pato é
considerado carregado", carne de porco e bacalhau, camarão e ostras, peixes de rio
tudo isso traz uma série enorme de complicações para a saúde, sendo
que o álcool poderá evitá-las, "cortando" em tempo, útil. Demais, a sua
função de "levantar as forças" é onímoda. Constipação não se agüenta com
ele, vai embora. Falam ainda em reumatismo, dor de lombo, ou dor de munheca, dor de
mocotó e, para isso tudo, dizem que ele é um santo remédio - Ia esquecendo: antes do
banho se torna indispensável para "resguardar o corpo" - E, quando a água é
dormida, põe-se cachaça dentro, para "afinar" as forças e
"feichar" a pele.
Quem toma uma coalhada não poderá beber água depois. Por igual com a umbuzada. E
álcool nem se fala. A proibição é absoluta. É que o leite não se liga com a
cachaça nem com certas frutas. Como já ficou registrado, a manga não quer história com
bebida alguma, ainda porque a desunião é total. Quais as conseqüências? Chegam a
assegurar que a mistura determinará a morte. O certo é que a manga, no Nordeste, tem
seus respeitos tradicionais, sendo que as parturientes observam "resguardo"
durante muito tempo e, nesse intervalo, que poderá ser de anos, não quer jamais saber da
existência das mangas rosa ou carlota e espada. Menos os manguitos, que são inocentes.
Talvez seja a manga a fruta considerada mais perigosa. E ao seu lado podem ser colocadas:
jaca, pinha e abacaxi. Outras muitas, as quais, como a indicada, não podem ser utilizadas
durante a noite, existem horas convenientes do dia para serem comidas ou chupadas. Aqueles
que transgredirem as ordens tradicionais encontrarão a morte pela frente. É que as dores
aparecem violentamente do lado direito, mexendo com o estômago e provocando diarréias e
vômitos parecendo até que a doença manifestada não é outra que apendicite
supurada - Teriam havido coincidências para que a repulsa seja assim tão formal na vida
nordestina.
A laranja goza de franco prestígio popular. A variedade de citrus vem sendo observada de
alguns anos a esta parte. E o consumo pode dizer-se que é notável. Entretanto, permanece
o preconceito de que se deve chupar laranja durante as horas do dia. Alguns gostam até de
misturá-la com farinha sob o pretexto de facilitar a digestão. Talvez haja aceitável
motivo para isso. Mas ninguém (estamos falando sobre certas camadas incultas da
sociedade) se atreve a servir-se de laranja em horas noturnas. A noite é um agente que
tem sua mais alta importância em determinadas alimentações, sobretudo quando se trata
de fruta, de certas frutas perigosas, tradicionalmente respeitadas. Tanto é assim (que se
diz muito: "De manhã laranja é ouro, de tarde é junta e de noite mata".
Também isto se aplica às bananas, principalmente as de qualidade "comprida",
"ouro" e "prata", por serem indigestas. Quando muito poderá a banana
"maçã" ser comida à noite. É considerada mais inocente. E quem cometer essa
façanha terá conseguido honras de corajoso (sem dúvida que todos esses costumes estão
sendo paulatinamente afugentados com a direção civilizadora que o progresso material vem
imprimindo um meio do povo) ou senão de sujeito "estourado" que "não
respeita nada". Saliente-se uma circunstância interessante: os caroços de frutas
ninguém come, não deixa escapulir nenhum pela garganta a dentro, pois faz mal,
"embaraça as tripas" e há quem diga poder até envenenar. No entanto os
caroços de pitomba são engolidos ao ponto de "entupir", fazendo-se aposta
entre os meninos para ver quem agüenta mais e, por outro lado, conseqüências, assoalham
os entendidos que são tremenda, na violência evacuadora. E, todavia, jamais se deixou de
comer pitomba engolindo o caroço. Se é o araticum, dizem que dá "tristeza".
Ou azar.
Conhece-se à vista quando a mulher está "doente" porque não come fruta de
espécie alguma. Deixa primeiro passar o "período" para poder voltar aos velhos
hábitos. Se desrespeitar o estabelecido, haverá "suspensão" e aí o
serviço é feio. Havendo casos de lezeira, ficando a moça perdida para o casamento. Ou
mesmo quando já casada, aposentando-se. Vai servir de titia ou de inútil, sujeita a
perturbações séria, nas quadras com que a lua e cheia ou nova. Nessa situação não
há quem faça as filhas de Eva servirem-se pelo menos de laranja. Demais, laranja pode
determinar febre. Dá tosse e compromete a garganta, além dos males acima indicados:
agrava as feridas, reumatismo e cólicas no duodeno. Se é o coco, por sua vez, incorre na
mesma categoria da laranja, isto é, não se recomenda para quem está sofrendo de tosse,
ou tem complicações de fígado, estômago fraco. Caju vai em igual caminho com a manga,
a jaca e a pinha, tida como indigesta, venenosa e portadora de perigos iminente.
Entretanto, todas elas, laranja e manga, pinha ou jaca, podem ser utilizadas até
pelos enfermos se houver por parte destes a cautela de fazer acompanhar a digestão com
farinha, coisa assim que "faça volume", não deixando o suco das mencionadas frutas
"sozinho no buxo do freguês". A questão é haver lugar para outro. Dois ou
mais juntos perturbam os planos do mal, fazendo bem. E a água, por seu turno, resolve
bastante o caso, contribui para que a digestão seja facilitada - Mas a água é servida
aos goles, pausadamente e nada de sofreguidão, pois, nesta última hipótese,
poderá agravar as condições péssimas em que porventura possa encontrar-se o estômago.
A falta de verduras não se faz sentir - O povo não tem hábitos de servir-se senão de
gerimum, apesar de serem o maxixe e o quiabo bastante populares como ainda o tomate, a
alface e a couve — As demais verduras não são conhecidas ou consideradas. Algumas fazem
até mal. O que não falta em mesa nenhuma é a pimenta. Esta, sim, conta com um
prestígio extraordinário, torna-se indispensável, como acontece com o álcool, para
cortar possibilidades de "desarranjos", sendo ótima ainda a pimenta para
"limpar os olhos" — Dizem mais que "melhora a voz" e, outrossim,
"faz muito bem ao peito". Quem come pimenta sem conta ficará "forro de
hemorróidas. E açúcar? A importância dele é concreta. Rapadura, abusa-se e
usa-se em alta escala, embora seja considerada como indesejável para uns tantos casos:
às vezes é preciso evitar o açúcar por causa do estômago ou estar a pessoa
inexplicavelmente pálida, ou sofrendo das tripas. E, quanto as crianças, não se toleram
por demais os préstimos açucareiros, desde que fazem criar lombrigas em ruma.
Entretanto, serve o açúcar para os lambedores, para os xaropes, os chás de limão ou
alho e algumas vezes mesmo para o evacuamento de "vermes". Paradoxal, mas
é verdade.
Há, um ponto que necessita ser assinalado. Em torno da mesa de refeições, no momento em
que é servido o almoço, ou por ocasião do jantar, imprescindível se torna que todos
estejam participando da festa. Nada de ficar alguém sem se servir de coisa alguma. Isto
não é do gosto geral. E há motivo para tanto. Pois acontece que fica a pessoa espiando
os outros com os olhos muito longos, espiando os que estão se servindo com os pratos
cheios e os que se encontram almoçando ou jantando não apreciam esse isolamento -
Acham que a tal pessoa está "engolindo a sustença". Enquanto uns comem
valentemente com o intuito de alimentar-se, outros engolem o que denominam de
"sustença" ou seja o suco da comida, o mais importante da refeição e,
por isso, debalde será qualquer esforço no sentido de encher o estômago com as melhores
coisas que se achem na mesa para escolher. Portanto, faz-se indispensável que esse
alguém isolado, espiando e engolindo saliva, ou se ausente do meio, ou então se
determine a tomar parte ativa na refeição. Continuar na atitude condenada é que não se
permite — Aliás, o costume de "não se engolir a sustença" dos outros depende
da educação. Muita gente prefere ficar fora da sala de jantar, se já almoçou ou comeu
qualquer coisa que serviu para "forrar o estômago; a fim de que não incorra
na pecha antipática, por todos detestada. O jeito que há, ficando presente, é comer e
tomar parte em todas as "solenidades do ato".
Sabe-se que existe ainda o costume de esconder-se alguém para comer. Ou beber.
Principalmente para comer — Em certos lugares do interior da Paraíba (recordo que, na
companhia dos doutores João Suassuna e J. de Avila Lins, me hospedei na residência do
coronel
Sérgio Dantas, no Teixeira, e, durante as refeições, nós apenas figurávamos à mesa
porque o elemento feminino, ou todas as mulheres de casa, estavam na cozinha ou escondidas
nas camarinhas se servindo de vastos pratos suculentos) ainda poderá ser surpreendido o
antigo hábito mouro, acontecendo que o exemplo apontado, entre parêntesis, data de maio
de 1926. Não se tratava somente de "vergonha", trata-se de evitar os olhos de
quem não está se servindo bem e, talvez, faz-se conveniente frustrar
os
modos de "engolir sustança" alheia.
É também generalizado o gosto de não deixar ao relento restos de pratos: ou se
come tudo, ou servem para alimento dos porcos e galinhas, pois que existe o preconceito
dominante desses restos prestarem para "orientar feitiço" contra este ou aquele
indivíduo, marido fiel, amores contrariados. Como se sabe, o catimbó tem prestígio,
sendo fonte de paixão e ódio, prestando-se aos serviços secretos dos que têm queixas
ou esperanças de conseguir objetivos e compensações. Unir ou separar. Fazer rua ou
fazer bem - Votos de vida longa e feliz ou desejos de morte. Em assuntos de amor há
cantorias e ditos relacionados a comidas e bebidas - Nessas "feitiçarias
desenfreadas" corre no Nordeste a letra variadíssima de uns versos mais ou menos
assim:
No pilão de Salomão
Te piso e repiso e
Te reduzo a pó de granizo.
As sete estrelas que
Lhe dê força de luar
Para abrandar o seu
Frio e duro coração.
Se ele beber isto
Ou se comer isto
Há-de amar até morrer.
É conhecida ainda aquela arcaica maneira de agir no momento em que o dente mole sai
definitivamente do seu lugar -Acontece isto com mais freqüência entre as crianças que
estão "mudando" - Ficam banguelas. Logo que se tem um dente fora da boca, o
mesmo é sacudido no telhado pelo dono ou dona da casa e, então, para que seja
substituído por outro bonito, sadio e definitivo (o dente que caiu é denominado
"dente de leite", ou melhor: dente fraco, provisório, e que dará lugar a
outro, assim o menino entre em idade mais avançada) se pronunciam estas palavras rituais
de que não se conhece variações até agora
Mourão, mourão,
Toma o teu dente podre
E dê-cá meu são.
Mais ou menos se verifica igual confiança de estilo quando alguém vai servir-se de
certas frutas. A fim de que elas isentem de qualquer mal, é preciso dizer algumas
expressões mágicas de puro sentido feiticeiro. Se há fruta da qual se tem medo pânico
sem dúvida nenhuma que o melão e, sobretudo, a melancia, se acham em situação
especial. A pinha também. No mesmo caso podem ser incluídas: jaca, certas espécies de
manga e banana (aliás, quando tivemos de tratar do assunto, mais acima, frisamos as
qualidades frutíferas sobre as quais as reservas todos procuram justificar), abacaxi e,
ainda, duas que parecem inocentes a goiaba e o araçá mas que despertam
prevenções, mormente quando pegadas para comer estando ainda quentes do sol. Porém a
desgraça que essas -frutas possam ocasionar se evapora desde que sejam ditas as palavras
seguintes com voz de ritual religioso.
Quando o sal nascer
E Cristo morrer
- Sezões quero ter.
O tabu na vida pecuária tem importância que merece destaque - Existem várias
"medidas" consideradas infalíveis na aplicação a que se destinam - Por
exemplo: a "bicheira" do gado pode ser curada pelo rastro. Assim é que, a rés
doente, primeiramente fica identificada, na sua ausência, examinando-se as coincidências
do casco com as depressões constatadas na areia. Então o vaqueiro que entende do riscado
analisa o terreno pisado, verifica o fato e, traçando uma cruz, com acentuado e
pachorrento cuidado, retira a terra de quatro pontos correspondentes às quatro pernas
daquele símbolo cristão. Depois coloca a terra colhida numa xícara de água e é
quando começa a operação: jogando a água e a terra para as costas, reza as palavras
que se seguem:
Assim como esta xícara se esvaziou
A bicheira da rés (e diz o nome pelo qual ela é batizada) ficará
curada, ficará curada.
A crença inabalável é de que realmente o bicho ficará bom, por completo fechada a
ferida, sem os tapurus enormes e as sangrias dolorosas sem as moscas pousando e, cada vez
mais, agravando o estado da bicheira. A não ser remédios outros de caráter drástico,
como sejam criolina e vinagre, álcool ou iodo, esvaziamento escavacado de toda a
podridão que a ferida contém, o mais indicado pelos crentes ou sentimentais, apiedados
do sofrimento selvagem que determina o trato por forma indicada, é mesmo a "cura
pelo rastro" por ser mais humano e mais adequado ao meio rústico. Gado não morre,
pois, de bicheira, desde que tratado por este arcaico processo nordestino. Tabu que
permanece íntegro.
(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros.
p.183-190) |
|