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Agosto 2002
Ano IV - nº 48

ALIMENTAÇÃO DOS BRASILEIROS

O alimento mais comum entre os brasileiros é a farinha de mandioca a que chamam de (vi) e da qual já nos ocupamos largamente. Além disso alimentam-se de diversos animais e aves selvagens, caranguejos, frutos e ervas. Cozinham em panelas de barro, por eles mesmos fabricadas, às quais dão o nome de kamu. Para assar carne, procedem da seguinte maneira: cavam um buraco no chão, forram-no com folhas sobre as quais colocam a carne que vão preparar; cobrem-na com folhas da mesma espécie e depositam sobre uma de terra ou areia. Sobre essa arrumação acendem uma fogueira, que deixam arder até que presumam estar a carne suficientemente assada. Se acertam o ponto, a carne fica excelente, melhor que a preparada por qualquer outro processo. A esse sistema de prepara chamam biaribi. O peixe, quer seja assado ou cozido, comem-no com inquitaia, uma mistura de sal e pimenta. Cozem-no porém sem sal. Os peixes pequenos são enrolados em folhas e postos a assar na cinza. Apanham a farinha de mandioca com três dedos da mão direita e atiram-na para dentro da boca. O mesmo fazem com feijão e outros alimentos semelhantes. Alimentam-se freqüentemente, tanto de dia como à noite, pois não há horário para as refeições. Raramente usam colheres; comem com a mão ou servem-se de conchas ou outro utensílio qualquer. A carne de certos animais selvagens, como por exemplo vários porcos do mato, é muito apreciada pelos naturais. Esse animal tem um calombo nas costas, qual o do camelo, e cuja vianda é verdadeiramente saborosa.

A melhor bebida e a mais generalizada entre os nativos é a água de fonte ou de rio que, pela sua frescura, constitui valioso refrigério para quem está cansado. Isto pode dizer-se especialmente com relação à água de fonte que, mesmo ingerida em grande quantidade, jamais produz cólicas intestinais ou qualquer outra perturbação. Ao contrário, abre o apetite e é facilmente expelida pela transpiração.

As águas dos rios Paray Paratybi são consideradas excelentes remédios contra cálculos e gota. Isso explica porque muitas pessoas que só bebem dessas águas, passam às vezes dos cem anos sem qualquer moléstia ou distúrbio. As pessoas de idade distinguem tão bem o paladar dessas águas como os europeus o de seus vinhos e consideram inábeis os que usam qualquer água indiscriminadamente. Nascendo a maioria das fontes, de que se servem os naturais, nas elevadas montanhas orientais, não sofrem elas nem a influência do degelo nem de substâncias metálicas, e, constantemente purificadas pelos raios solares, suas águas são muito límpidas e agradáveis. Entretanto, é preciso que se diga que durante os meses do inverno, algumas águas não são tão leves e frescas como durante o verão, devido às chuvas. Os negros fazem às vezes, uma mistura detestável de açúcar preto e água, sem a mínima fermentação, à qual dão o nome de garapa. Bebida barata, os negros usam-na em suas festas que chegam a durar 24 horas entre danças, cantos e beberagem. Só brigam, nessas ocasiões, por ciúmes. Às vezes adicionam à garapa, folhas de cajueiro que, dada a sua natureza quente, torna a bebida mais forte. Os portugueses e holandeses preparam um refresco com água, açúcar e limão. Às vezes põem de infusão de certas ervas, outras vezes usam apenas água com limão. Além disso, os naturais preparam bebidas com diversas raízes e frutas, que servem em suas ruidosas festas. Dentre as frutas usadas para esse fim contam-se principalmente pacovas, ananás, mangaba, jenipapo, caraguatá, etc., pois, conquanto a videira produza, no Brasil, três safras por ano, a quantidade não é suficiente para o fabrico do vinho. Do fruto do caju, os naturais preparam uma bebida a que dão o nome de cauim. Para fabricá-la trituram a fruta num pilão de madeira e espremem-na com as mãos para tirar-lhe o suco, que é coado depois de decantado. O caldo, a princípio, parece leite, mas, dentro de poucos dias descora. Depois de algum tempo azeda e torna-se um bom vinagre. O vinho ou licor a que os brasileiros denominam aipy é fabricado por dois processos diferentes. O primeiro consiste em cortar em fatias a raiz do aipim macacheira (uma variedade da mandioca). Essas fatias são mastigadas pelas velhas até ficarem reduzidas a uma papa a que chamam de karaçu. Nesse estado, o material é colocado numa vasilha e fervido com certa quantidade de água, sendo continuamente agitado até atingir o ponto de ser espremido. Feito isto temos o que denominam kavikaraku e que se serve morno. O segundo sistema de fabricar essa bebida, consiste em tomar a raiz da mandioca descascada e cortada em fatias, que a seguir é triturada e fervida em água, como ficou dito acima, produzindo uma bebida esbranquiçada que lembra o soro de leite. Também esta é servida quente e tem paladar bastante agradável. Chamam-na Kacimacaxera, conquanto ambas as bebidas sejam abrangidas pela designação comum de aipy. A bebida denominada pakoby é preparada com o fruto da árvore pakobete ou pakobuçu. O que os portugueses chamam vinho de milho, é uma bebida feita de cevada ou trigo turco, que os índios chamam maiz. O licor nanâi também deriva seu nome da excelente fruta denominada nana ou ananás e constitui a bebida mais forte dos nativos. Há outra espécie de bebida chamada pelos portugueses vinho de batatas porque é preparado com batatas.

Os nativos chamam-no jetici. As bebidas chamadas beeutingui e tipiaci são ambas de farinha de mandioca, ou seja do beju e da tepioja.

Os brasileiros são também grandes apreciadores do conhaque francês ou do Reno, que chamam kacitata, bebem-no com grande avidez quando consegue obtê-lo. Apreciam também o tabaco, cuja planta chamam petima, e petimoada às folhas. Estas, depois de secas ao vento, são expostas ao calor do fogo para ficarem melhor de cortar. Os naturais fumam em cachimbos feitos de casca das castanhas chamadas pindoba ou urukuruiba ou joçara, ou aque, etc. Para isso fazem orifício na extremidade da castanha, retiram a polpa, e, depois de polir a casca, adaptam ao furo de um canudo de madeira ou pedaço de caniço. Os tapuias usam cachimbos enormes, feitos de pedra, de madeira ou de barro, e sua cavidade é tão grande a ponto de conter uma mancheia de tabaco. Às vezes os brasileiros fazem uso dos nossos cachimbos europeus a que chamam amrupetuntuada; os portugueses chamam katunbada quebrada a esses cachimbos, e os holandeses katgebouw. Quando os tapuias (principalmente os que moram nas aldeias e descendem dos tapuias chamados cariris) preparam seus licores akavi e aipii fazem-no simultaneamente. Depois combinam uma reunião geral. Nesse dia reúnem-se pela manhã, na primeira cabana da taba, bebem quase todo o licor e divertem-se dançando. Feito isto passam para a cabana seguinte e assim sucessivamente até que não haja mais o que beber ou eles não possam ingerir mais nada. Quando estão fartos de bebida, vomitam e põem-se a beber novamente, de maneira que aquele que consegue lançar e beber mais é considerado o campeão.


(Nieuhof, Joan. Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil. p.302–306)

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