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Agosto 2002
Ano IV - nº 48

DONA ANA DOS CABELOS DE OURO

Garret publica esta xácara no seu Cancioneiro com o título Bela infanta, que a seu juízo — tem por assunto um sucesso ligado com a guerra das cruzadas, — e por isso muito interessante; consigna depois uma variante, que lhe parece uma versão mais moderna do original antigo, e em seguida uns fragmentos da lição castelhana.

Essas versões, porém, são muito resumidas, em vista da nossa, que é completa, e vantajosamente se desenvolve em particularidades e incidentes novos. É também muito resumida uma versão do Rio de Janeiro, com o título de Dona Infanta recolhida por Sílvio Romero e publicada nos seus Cantos populares.


Estava a bela infanta
No seu jardim assentada,
De pente d’ouro na mão
Seus cabelos penteava.

Deitou os olhos ao mar,
E viu uma grande armada,
Capitão que nela vinha
A trazia bem guiada.

Nisto, a frota dando ferro
Deitou a gente na terra;
Cavaleiro disfarçado
Ao pé da princesa ferra.

— Diz-me lá, ó capitão,
Diz-me lá pela tu’alma,
Se o amor que Deus me deu
Em tua armada se acha?

"Não o vi, não o conheço,
Nem sei que sinais levava.
— Levava cavalo branco,
Bom cavalo que alvejava.

Na ponta de sua lança,
Uma flâmula encarnada,
No arção da sua sela,
A cruz de Cristo dourada.

"Pelos sinais que me dais,
Eu o vi morrer na guerra,
Levou tantas adagadas,
Até que rojou por terra.

— Ai! triste de mim, viúva!
Ai! triste de mim, coitada!
De três irmãos que nós somos,
Eu fui a mais desgraçada!

"Tinha cortada a cabeça,
Em sangue banhado eu vi;
Que daríeis, vós, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— Três filhas que Deus me deu
Todas as três eu dera a ti;
E seus dotes bem contados,
Primeiro vereis aí.

Uma para te vestir,
Outra para te calçar,
E a mais bonita delas
Para contigo casar.

"Não quero as vossas filhas,
Que não pertencem a mim;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— As telhas do meu telhado,
Que são de ouro e marfim,
O meu palácio de esmaltes
Com o seu florido jardim.

"Não quero as vossas telhas,
Nem o palácio e o jardim;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— De sete quintas que tenho,
Todas elas dera a ti,
Treze fontes prateadas
Com seus tanque de rubi.

"Não quero as vossas quintas,
Nem seus tanques de rubi;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— De três lezírias que tenho,
Todas três tirara a mim,
Dava mais, do pé direito,
O meu bordado chapim.

"Não quero vossas lezírias,
Nem também vosso chapim;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— De dois campos que possuo,
Ambos eles dera a ti,
Manadas de bravos touros,
Poldros criados ali.

"Não quero os vossos campos,
Nem o seu gado pra mim;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— O lago da herdade antiga,
Os peixes que tem em si;
Dou-te o frondente chorão,
Que de sombra serve ali.

"Não quero o vosso lago,
Nem os peixes que tem em si;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— Dois currais cheios de gado,
Ambos eles dera a ti,
Um tem dentro cordeirinhos
Vereis vacas noutro aí.

"Não quero esses currais,
Nem o gado que tem aí;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— Minhas jóias valiosas,
Só mais tenho que te dar;
E com elas juntamente,
Este meu melhor colar.

"Não quero as vossas jóias,
Que não pertencem a mim;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— Mandarei fazer na China
Para ti, um palanquim,
Todo estofado, com gosto,
Do mais lustroso cetim.

"Eu não quero uma tal cousa,
Que não tendes, nem eu vi;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— Queres ser nobre e fidalgo,
Ter do rei o valimento?
Tudo em breve alcançarei
Se é mister ao teu intento.

"Eu não quero ser fidalgo,
Que isto não cabe em mim;
Que daríeis, pois, senhora,
A quem o trouxesse aqui?

— Já não tenho mais que dar,
Nem vós que pedir a mim;
Vou dizer: toquem os sinos
E me vestir de lapim.

"Não deveis chorar tão cedo
Inda tendes que of’recer;
Conheceis o que é amar...
Pode muito aqui valer.

— Dize, pois ó capitão,
Quais são os intentos teus?
Dei-te filhas, bens e honras,
Queres mais agrados meus?

"Tudo quanto hás prometido
Não tem valor d’um ceitil;
Só quero de vós, senhora,
O vosso corpo gentil.

— Ai! pobre de mim, viúva,
Ai! pobre de mim, coitada!
Até aqui era senhora,
Agora sou insultada!

"Vede, pois, que pouco peço,
Um abraço, um doce beijo;
É com isso que se compra
Esse amor do teu desejo.

— Cavaleiro, que tal diz,
Merece a cabeça fora,
E primeiro lhe espicasse
O torpe corpo uma espora.

"Ai! triste de mim, viúva,
Ai! triste de mim, coitada!
Até aqui eram só sustos,
Mas vou ser mui bem vingada.

— Acudam, criados meus!
Venham todos acudir!
Prendam este cavalheiro
Sedutor, que vedes aqui.

"Ei-lo aí, servos, prendei-o,
Devendo no chão rojá-lo,
À roda do meu jardim,
À cauda do meu cavalo.

Não quiseram os criados
Nesse lance obedecer,
Instruídos eram já,
Fazendo não conhecer.

— Ai! triste de mim, viúva,
Ai! triste de mim, coitada!
Até aqui era senhora,
Agora sou desprezada.

"Vede, senhora, a constância,
Que vos mostro em meus amores;
Nada temo o que mandardes,
Escarneço esses rigores.

— Retirai-vos, cavaleiro,
Retirai-vos já daqui,
Que vêm meus irmãos da caça,
Não quero nos vejam aí.

"Não temo vossos irmãos
Pois cunhados são de mim;
Nada temo! e tenho provas,
Que todo pertenço a ti.

— Um anel de sete pedras,
Que contigo reparti,
Quando à guerra caminhei
Despedindo-me de ti;

"Mostra lá tua metade,
Pois a minha tenho aqui:
Diz, ó Ana, se me dás
Tudo quanto te pedi?

— Tua fé, tua constância,
Valem mais do que tesouros!
Vê também, como guardei
Teus lindos cabelos louros!

"Se tu eras meu marido,
Para que me atormentavas?
Não bastaram tantas provas
Quando zelos inventavas!

— Quis provar se o teu amor
Era só meu, coração;
Enganei-te, mas por isso,
A teus pés, peço perdão.

"Que fazes, ó vida minha!
Não sou eu tua mulher?
Praticando assim bem mostras
Que tu’alma inda me quer.

— Tuas experiências foram
Próprias só dos bons maridos;
Juremos, pois, de morrermos,
Um ao outro bem unidos.


(Costa, Pereira da. Folclore pernambucano, p.297-303)

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