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| Página 1 | 2 | 3 | Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento |
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| Falta ainda uma que por ser
histórica merece menção especial. Quem indo pela rua da Igreja para os lados do Arsenal
e tivesse passado os Pecados Mortais que tem hoje a placa de general Bento Martins [13], subindo
para o alto que já se chamou do Manuel Caetano, do Senhor dos Passos, da Conceição, e
hoje com a placa do general Osório, encontraria à direita uma meia dúzia de casas de
porta e janela, em uma das quais morava uma mulher que alguém me disse que se chamava
Felizarda, mas que só era conhecida por não sei que de Bronze, e que por
decência só era denominada Bronze. nome que foi dado àquele lugar
por ser ela a figura mais notável do bairro. Os empregados públicos Havia na Contadoria da fazenda o Juca Lere, O Pinguinho, o Menclete e o Cajado; na Alfândega o Juca Aleijo, o Papa-hóstias e o Dorme a cavalo, e na Secretaria do Governo o Manuel da espada, o Fidalgo pobre, e o Amor... em apuros[14]. Padres e funcionários de irmandades: Quando ainda era raríssimo o uso do piano o padre Antônio das Marimbas (padre Neves) já o ensinava a tocar; e em sentido contrário havia o padre Batalha (padre Malheiros) incitador dos Chimangos; e seguiam-se os padres Viracombota, Chiquinho e Mulatinho, cujas missas eram ajudadas pelos sacristas Mal acabado e padre Chiquinho ou Chico Sacristão. Na irmandade do Rosário era tesoureiro o incansável devoto Chico Cambuta (Francisco José Furtado) que acompanhou o templo desde os seus alicerces até ser elevado a paróquia; e era nela Andador o preto velho José Cabelos, que, nos dias festivos, calçado e mesmo preparado de calções, casaca e botas, não dispensava a sua touca. Na irmandade das Almas era um dos primeiros funcionários o Luiz da Ladeira, e andador o Caixa de Óculos [15], pago, oficial de alfaiate, porém único e exclusivo preparador e atacador dos fogos-de-vista nas festas do Divino. Na irmandade do Sacramento predominavam o Saca-rolhas e o Boca-negra [16]; e era Andador o Joaquim Parada ou Paradeiro, por ter sido condutor de malas ad hoc às pressas por falta de correios [17]. As escolas Além da escola do Amansa-burros ou simplesmente Amansa, tínhamos a do Tico-Tico ou escola do Paraíso (Antônio Paraíso Mariano), o Desejo de Ciência de que foi professor Tomaz Inácio da Silveira, e a escola dos Marimbondos, de José Maria da Silveira. Os jornalistas Tivemos o Constitucional do Carona, o Federal do Capororoca, o Inflexível do Mãos... grandes, o Comércio do Cara de cavalo, Idade de Ouro do Calchas, Idade de Pau, do Pedro Boticário [18] e no Rio Grande o Noticiador do Chico da Botica; e poderíamos também acrescentar o Barbeiro do Prosódia ou Galo-Piando, se tivéssemos certeza de quem era o chefe dessa firma social. Os advogados, solicitadores, escrivões e meirinhos Tínhamos como advogado na rua da Igreja o Rascada, pai do alferes ou tenente cantador de lundus a viola; na rua de Bragança o Chocolate das moças ou simplesmente Chocolate, irmão do boticário Titica; na rua da Ponte o Corvo Branco e o doutor Caiambola [19]. Entre os solicitadores contavam-se o Arara e o João de Gatinhas (João Antônio de Barros Silva) que por não ter nariz falava atrapalhadamente. Os escrivões eram conhecidos pelas alcunhas de Jangada (herança paterna), João Baiano e Luiz Alto, fazendo-lhes companhia o Guajuvira E também eram desse tempo os meirinhos Papai Lelê [20] e o Trinca Queijos. Os cirurgiões, curandeiros e boticários Havia o Cirurgião Torto, o doutor Cevadinha, o doutor Perdiz, o Caracará de que diziam que curava sarnas com sabugo de milho queimado, e a Luísa parteira que também mezinhava, indo muitas receitas a aviar na farmácia do Titica. Os poetas Havia dois muito conhecidos: O João dos Afetos e o Chico da Vovó[21]. Os negociantes e empregados no comércio Em geral os negociantes, com poucas exceções, moravam na rua da Praia; começarei pois por aí; mas antes de lá chegar, indo ao Caminho Novo, lá se encontraria o Salsa Parrilha, e em frente ao porto do Pelado o alto e bojudo Tragazana com o seu jaquetão e calça larga de ganga azul a vigiar o seu negócio de madeiras. Subindo pela rua do Rosário e entrando na rua da Praia, estavam as lojas do Fura-Pipas, e do Ferrabraz que alguns diziam Espalha brasas; seguiam-se o Bom de vela e Barriga me dói. Na esquina da rua de Bragança era o José Inácio do Arroio dos Ratos [22], seguindo o Dom João Quinto, o Chaves dos Óculos em frente a seu irmão o Chaves moço, o Estanque (do Chico do Estanque) o João Baiano antes de ser Escrivão. Havia cinco vizinhos contíguos: o Joaquim do Bilhar [23], o Pescoço duro, o Custódio Ferrugem, o Fadu, e o Coalhada, também conhecido por Afoga-Rosa. Em frente a estes era o Beco da Ópera que hoje é a rua do Comércio, onde moravam os dois íntimos amigos o Prosódia e o Juiz de Paz, o primeiro morto na véspera da revolução, e o segundo que veio morrer no Rio de Janeiro com a alcunha de Bacurau que lhe puseram na ponta do Caju onde morava. Seguiam-se na rua da Praia o Cara Linda, o Especulação, o Chico Inglês e o Abarrota que não largava a sua casaca cor de pitada com o competente hábito de Xpto [24]. Passadas as duas esquinas, da Garapa e do Matias Galego, fronteira uma a outra, e já na praça da Alfândega morava o Espada Preta [25], negociante aposentado, mas pai de outro em atividade que, se ainda hoje vivesse, teria o prazer de ver bons netos e bisnetos para os lados de Belém. Seguia-se a loja do Marquês dos Ananases, e a do Queima (Antônio Alves Guimarães), e mais adiante o Manuel Batuba e o Guilherme Pescocinho; e na esquina do Roberto André no beco do Fanha chegava-se à loja do João dos Afetos, que antes de qualquer negócio mostrava aos fregueses a caixa de esmolas para as obras de Nossa Senhora de Belém. Passada a esquina, via-se logo à esquerda o armazém de Antônio Magro [26] em frente à casa de negócio do Pagará, e mais adiante de um lado o Custódio Pancas e do outro o Antônio Guarda-mor e o Chico das Botas. Eram empregados no comércio como caixeiros ou em misteres a ele inerentes o Barbas de milho, o Carretão (antes de ensinar meninos), o Chicote da província, o João das caçambas, o Joaquim bonito, o Manuel dos Babados, o Pão de rala, o Pernambuco (Antônio Duarte Rodrigues), o Pax-vobis, o Ponilha, o Não tem perigo, o Sapeca, o Taborda, o Vinte sete contos, e outros muitos de quem não é possível fazer menção. Os sapateiros Contavam-se o Filipe mãozinha, o Chico calombo, o Venceslau grande e o Venceslau pequeno [27]. Os alfaiates Eram o cerca-velha, o Caiala, o Juca Pepé, e o Narigão [28]. Os taverneiros Moravam, na rua da Praia, o Grumatã, na Ladeira, o Angolista, na da Ponte o Zé das negras, na de Bragança o Manuel das Mulatas e João Marinheiros, na Várzea o Combra bicos, e no Riacho o Manuel Beribiri; estando já aposentado o Filipe Tatu. Os mascates Além de um, já classificado como negociante. tínhamos o Manuel da Fazenda, o Chega-chega [29] e Quimindu (depois negociante). Profissões diversas, ou avulsos Moravam na rua Clara, o Pisa-flores, sobrinho ou o quer que seja da respeitável anciã a senhora Montojos e o Mané-Silon, ou por outro nome Manuel dos Passarinhos por ser esse o seu negócio; e nessa mesma rua nasceu um, que mais tarde no Rio de Janeiro foi conhecido por Alabama, nome que se dá hoje aqui aos informantes das casas de negócio pelas casas particulares. Para os lados dos Bagadus morava o Pedro Mandinga e o Inácio Babão próximo à Igreja das Dores; mais adiante o Manuel de Jesus Melado, e tendo de um lado como vizinha contígua a Ana Tecedeira e do outro um pouco mais adiante a Pana jóia. No alto da Bronze junto à casa do Inácio Músico tinha o Luiz Nenhures (Luiz Antônio Batista) e sua cocheira de cavalos de aluguel. Na continuação dos Pecados Mortais para a rua do Arvoredo morava o Nabos a doze, pelo que chamavam a esse pedaço da rua a rua dos Nabos; e era mesmo aí que morava o Pedro Jacaré (Pedro Lourenço), pessoa reputada como séria e modesta em suas palavras e notícias, mas que apenas tinha o pequeno defeito de pôr-se à janela de mangas arregaçadas a contar aos transeuntes os defeitos da vida alheia; o que ele fazia com todas as cautelas concluindo no fim de tudo com as seguintes palavras: Isto é o que contam por aí os maldizentes, porque quanto a mim... (e apertava os beiços com os dedos polegar e índice). Na praia do Riacho era a residência do Mil Onças, o maior cacetista de todos os tempos presentes, pretéritos e futuros: não caceteava só por palavras e sim também por escrito; eu cheguei a ter em minhas mãos uma carta escrita dos quatro lados de uma folha de papel de peso, desculpando-se de não poder ir ao convite de um batizado. As insônias da senhora, os gritos da criança, os cuidados da ama e outras minúcias não só enchiam as quatro páginas, como ainda as margens laterais. Se bem me recordo, existe na colônia do Alto-Uruguai pessoa em cujas mãos esteve também essa carta. Na praça do Palácio tinha seu quartel o alferes depois tenente Dunga, que era filho ou enteado do Calhamaço. Nessa mesma praça, mas já na rua da Ponte, eram as casas do Grazina, pai da Iaiá Pombinha; mais adiante morava dona Ana Gorda; e junto dela o Siô Francisco [30]; mais adiante o entrevado Luiz Gato quase em frente ao Conde da Cunha, e ainda mais para diante era o armazém do Torna-largura. Na rua da Igreja, via-se quase sempre à janela o Cometa do Despotismo, e mais adiante era a moradia de Joaquim Pintor, a quem também chamavam Pinta-ratos [31]. Na travessa do Poço, além do Barbudo Robalo também conhecido por Pedro Penacheiro (fabricante de penachos) morava por aí algures um pardo baixinho, quase anão, de nome Valentim, cabeleiro, conhecido por Carapatu; pelo que chamavam a mulher e as filhas Carapatus. Na rua de Bragança morava um negociante a quem chamavam Corre com o saco; em frente a este morava a família a que pertencia o Chulinga; mais abaixo na esquina da rua do Poço o Nariz de Papelão, que ia sempre à missa todo de preto e com sapatinhos de mulher que então os usavam sem salto, e ainda mais abaixo nesta mesma rua o velho Miséria, que ainda era dos tempos da casaca alvadia de gola em pé e dos calções, meias e sapatos com fivelas de charneira. |
Igual em tudo a este, tanto na
casaca como nos calções, morava na praça do Paraíso, o Faz tudo. Chamava-se
Manuel José de Oliveira Guimarães, pai de João Caetano de Oliveira Guimarães muito
conhecido no foro do Rio de Janeiro como Partidos de Órfãos. Na rua Nova, na casa em que muitos anos morou depois o advogado A. J. S. Maia, morava o capitão Domingos Martins Pereira que todos conheciam por Sota de Ouros. Fora o antigo Escrivão da antiga Câmara de Viamão. Criara e educara paternalmente como filhos a dona Dina e a seu marido Domingos Martins Pereira de Sousa, que fora administrador da Santa Casa, ou do seu hospital. E não esqueçamos o Barbosa Mineiro (Antônio Martins Barbosa) que deu o nome ao beco hoje denominado Rua da Aurora. Alcunhas em duplicata: Na rua da Igreja esquina do beco do Jaques, na casa em que morou o capitão José Cesário de Abreu, quando era tenente, e onde depois morou por muitos anos o tabelião Campos, tinha morado um Pão de Rala que aí foi assassinado em uma noite. Eis surge logo um outro Pão de rala empregado no comércio. Na praia do Arsenal quase onde é hoje a Detenção, morou um Manuel Tamanca, sogro de um boticário que fez brilharetur nos tempos da Independência com a leitura dos decretos das Cortes gerais extraordinárias e constituintes da Nação Portuguesa, e avô de outro que também fez brilharetur na guerra do Paraguai; e ao mesmo tempo no largo da Forca morava o Chico Tamanca, que também fazia brilharetur (sem grifo) no Pau da paciência com os seus amigos à passagem, enterrando vivos e desenterrando mortos nas noites de luar e de verão. Havia, como é sabido, o Fanha (Francisco José de Azevedo) que deu o nome ao beco assim chamado; e havia ao mesmo tempo na rua Nova entre a da ladeira e o beco do Leite o botequim do Pinto Fanha, na casa imediata ao bilhar do Bexiga que se suicidou. Na rua da Ladeira ou do Ouvidor [32] havia ao mesmo tempo o Domingos da Ladeira e o Luiz da Ladeira [33]. Ao mesmo tempo que havia um Secretário do Governo com a alcunha de Manuel Espada, o senado da câmara que depois se chamou câmara municipal tinha por porteiro um mulato velho fanhoso geralmente conhecido por Manuel da Espada. Se um era Freire, o outro Ferreira. Havia um coronel José Jacinto [34] que era autor conhecido de muitos gracejos, entre os quais o de usar de baeta preta sobre a mesa e ensopá-la de tinta para tingir as mangas dos cacetistas: era por isso denominado José Moleque; ao mesmo tempo que no teatro representava como ator gracioso José Rodrigues do Vale, a quem ninguém conhecia senão por José Moleque. Eu disse acima - que as alcunhas não só subiam a altura das grandes personagens, como desciam aos sineiros e aguadeiros. Eis pois o que vou mostrar. Em havendo qualquer reunião pública, como procissão, bando ou arrumamento, etc., finalizava sempre com um Moleque qui qué, dirigido pelo Farofa que era um mulato bem penteado, de fraque, calção, sem meias e sapato achinelado, que conduzia a molecagem até o armazém da garapa pertencente a seu senhor ou ex-senhor. Nas ruas era raro não encontrar o cego Vaca-braba a gritar em altas vozes descompondo a quem lhe não dava esmola, e atirando bordoada de cego aos moleques que lhe davam vaia. O Trabuco e a Vareta, pedintes em duplicata, também grunhiam quando os vaiavam, mas não com as insolênciaS do Vaca-braba. O preto Miguel, ex-escravo do Vigário velho, era o sineiro da matriz, e conhecido por X-a-Xá; e o preto aguadeiro Pauachio era conhecido por este nome, porque ao chegar a alguma esquina fazia-se anunciar cantando com voz forte o seguinte: Dindim, dindim, dindm Outras vezes finalizava com o seguinte: No dia do mar feio E vou finalizar esta série de artigos ou parágrafos com a epigrafe de um jornalito
denominado Barbeiro que se publicava em 1834 e 1835 sob as vistas do
Prosódia e do Galo-piando, e é a seguinte: Notas: 13. Eu escrevi placa, porque do nome é só o que existe: por mais que a municipalidade queira, os Pecados Mortais serão sempre Pecados Mortais e assim o Alto da bronze sempre será Alto da bronze. 14. Parece que não era mesmo... em apuros. Quem conheceu o oficial-maior Manuel Joaquim Pires de Carvalho, todo empertigado, gravata alta, calças justas, botas rangedeiras, o rosto estudado ao espelho, talvez se lembre que qualidade de Amor era esse, que tanto o distinguia. 15. Chamava-se José Teixeira Lopes: era pai (natural) do mulato José Caixa, cujo entusiasmo pirotécnico o fez ir a pé de Rio Pardo a São Gabriel ou Alegrete para ter o prazer de atacar o fogo de uma festividade. 16. Joaquim Pereira do Couto deixava cair pela testa abaixo uns cabelos enroscados artificialmente; e o sargento-mor Antônio de Azevedo Barbosa (Boca-negra) era irmão do João dos Cachorros, major reformado dos Chimangos. 17. Naquele tempo eram muito usadas as Paradas, isto é, comunicações oficiais trazidas à pressa por um próprio. 18. O Inflexível chamava ao redator da Idade de Pau Mágico de sete signos. Perguntando-se-lhe pelos signos respondia começando por Calvo, Torto e Baixo... e acabando por Boticário e Pedro. Não me recordo agora dos dois que faltam. 19. Quem escrevia os Provarás do doutor Caiambola era um estudante daquele tempo apelidado por Coruja, que cada vez que lá ia escrever recebia um selo em prata. O selo era uma moeda de 600 réis tendo por meio um grande J com uma coroa por cima, de que ainda conservo um exemplar cunhado em 1754. Também as havia de 300 e 150 réis, todas com o J coroado. 20. Papai Lelê era um crioulo alto, magro e direito, de quem se dizia que gostava de fazer citações a quem não era do seu sexo nem da sua cor, de cujas citações havia algumas ilustrações em miniatura. No antigo teatro representou de África em uma cena das Quatro Partes do Mundo. 21. Os versos de João dos Afetos, como poeta de água doce, são por demais conhecidos para as horas de melancolia; quanto a Francisco Pinto da Fontoura, teria 18 anos quando foi preso pela reação de 15 de junho de 1836. Alguém dentre seus companheiros de prisão pediu-lhe que descrevesse em verso aquela situação; o que ele fez em um soneto de que extraíram muitas cópias, mas de que só me ficaram na memória as seguintes linhas. Nesta prisão existem aferrolhados 22. A casa da esquina com frente ao norte e nascente, pertencente ao tenente-coronel José Inácio da Silveira foi o mais antigo e por muitos anos o único sobrado de dois andares de Porto-Alegre. 23. Avô paterno do cônego Procópio. 24. Vai esta abreviatura de Xpt.º para não esquecer o tempo em que também se escrevia Lx.ª Lisboa. 25. O bom velho Correia (Espada-preta) saía habitualmente .todos os dias com a espada preta debaixo do capote a procurar parceiros para o jogo da mesma. 26. Contava-se que na casa denominada do Contrato havia dois caixeiros, ambos com o nome de Antônio José da Silva Guimarães, um gordo e outro magro, e que os patrões, para os diferençarem, os distinguiam por Antônio Gordo e Antônio Magro. O gordo chegou a engordar até na bolsa e na família; o magro foi magro em tudo. 27. O Venceslau grande chamava-se Venceslau Antônio da Silva; e o pequeno Venceslau José Machado, primeiro marido da senhora com quem depois casou Firmino Maria de Vasconcelos, irmão de Manuel Vaz Ferreira. 28. A respeito deste contava-se ter ele tido uns dares e tomares de língua com um preto boçal vendedor de origones, porque, ao passar-lhe pela porta, apregoara: Vai Narigão; Vai Narigão. 29. O Manuel da fazenda; e o Chega-chega (Antônio da Mota) casou com uma filha de Lauriano José Dias, antigo chaveiro do histórico Portão por ele trancado aos vereadores de Viamão para assistirem às ladainhas de maio por ordem do governador José Marcelino, que também os prendia na casa da Câmara, e que para alguns passa por ser o fundador de uma cidade que, desde 15 a 20 anos antes dele cá vir, já tinham moradores, enfermaria, capela e cemitério. 30. O Siô-Francisco era tatibitatibi e giboso em um dos lombos; tinha a mania de ser querido de todas as moças, pois dizia, eu não sei porque é, todas as moça me quele. Devia ter por sobrenome Faria e Costa, pois era filho ou sobrinho de dona Florinda com este cognome. 31. Joaquim Pintor ou Pinta-ratos não perdia missa todos os dias com o seu capote azul preso ao pescoço por um colchete ou encaixe. Tinha um pequeno livro com certas estampas, entre as quais mostrava ele uma que estava um pai castigando o filho com um azorrague, tendo por baixo o dístico: Castigatur ne perdatur; ele mostrando, dizia: "Aqui está: Castigar e não perdoar". Dizendo-lhe um menino estudante que aquilo significa: Castiga-se para que se não perca, disse ele logo: Não há tal, você não sabe mais do que eu! 32. Não sei se este nome de rua do Ouvidor provém de ter aí morado o ouvidor Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa, pai de José Borges Ribeiro da Costa, do Rio Grande ou Pelotas. 33. O primeiro deste era o capitão-mor Domingos José de Araújo Bastos, que no tempo da reação (15 de junho de 1836) era juiz Municipal; o outro era Luiz Inácio Pereira de Abreu, que como Juiz de Paz suplente do distrito da Madre-de-Deus também fora um dos signatários da representação de 9 de dezembro de 1835 para se adiar a posse do presidente Araújo Ribeiro. Tendo sido nos priscos tempos juiz ordinário, de tal maneira se houve, que em um doido conhecido por Luiz Doido, e que mansamente percorria as ruas da cidade, puseram-lhe nas costas um grande cartaz que dizia: Eu também sou Luiz 34. Não era o tenente-coronel José Jacinto que casou com a viúva do tal Pão de rala assassinado, e que era sogro do coronel Tenente Coelho: era um outro José Jacinto. Coronel Tenente Coelho não é erro tipográfico nem de redação: era o tenente Coelho de 1ª linha, que, elevado ao posto de coronel da guarda nacional, nem mesmo assim perdera para o vulgo o posto de tenente. (Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro, p.185-199) |
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