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Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento

(Pereira Coruja)

1ª epígrafe Veritas parit odium. Isto é latim, que traduzido livremente quer dizer: Nem todas as verdades se dizem, senhora Torta.

2ª epígrafe em resposta à primeira Amicus Plato, sed magis arnica veritas. Isto também é latim, que traduzido livremente quer dizer: Verdade, verdade.

 

Prólogo


O que aqui vai escrito bem merece o nome de Tamanduá, não só pela extensão do artigo, com a multiplicidade de § § de que é composto, como porque fisicamente falando se assemelha ao quadrúpede deste nome que tem a cauda maior que o corpo: a cauda pois será a série de notas de que vai acompanhado o texto, que neste caso será o corpo: e vou começar a

Exposição


Quando estudante não aprendi história, pois no meu tempo se não ensinava uma cousa, a que nos liceus e colégios de hoje se dá esse nome; e por isso não posso dizer se o uso das alcunhas se perde nas trevas da antiguidade (chapa), ou se houve época em que começasse.

Sempre ouvi dizer e tenho lido que Adão se chamava Adão, que Noé somente Noé, e Abraão somente Abraão, sem mais nada; porém na antiga Roma já reinava outro planeta; pois aí lemos certos nomes que mais parecem alcunhas que sobrenomes; por exemplo: Caio Múcio teve o nome de Scaevola, que é o mesmo que dizer Canhoto ou Maneta; Lúcio Júnio se chamou Brutus que corresponde a Idiota; Quinto Horácio se chamou Flaccus que corresponde a Orelhudo, e outro Horácio se chamou Cocles que quer dizer Torto da vista; Lúcio Quíncio chamou-se Cincinnatus que significa Guedelhudo; Púbio Cipião teve o nome de Africano, tendo nascido em Roma; um outro Cipião foi conhecido por Nasica que é o mesmo que dizer Narigudo; Públio Ovídio foi chamado Naso que significa Narigão
[1]; Semprônio se chamou Longus que corresponde a Comprido; e houve um Strabo ou Strabão, de onde vem a palavra Estrabismo, que corresponde a Vesgo ou Zarolho, que outros também chamam nordeste, piloto, ou como melhor nome haja. Todos estes nomes seriam mesmo sobrenomes? Ou seriam alcunhas? Eu opto pela segunda fazendo partir daí (ao menos até onde posso chegar) o uso das alcunhas, salvo melhor juízo dos doutos.

Se é certo os santos do céu tiveram sobrenome, como São Felipe Néri e Santa Maria Madalena; também é certo que muitos dos reis da terra eram conhecidos pelas alcunhas, inclusive um que até foi alcunhado depois de morto, e foi dom Sebastião o Desejado ou Encantado.

Entre os portugueses e no Brasil as alcunhas eram ou são ainda uma praga. Na costa da África tivemos um Chacá que era o primeiro comissário e principal agente dos contrabandistas de carne humana; no Rio de Janeiro sabem todos que houve um Onça que governou a capitania; um Chalaça que passava por favorito de dom Pedro I; o cônego Pirão que passou a monsenhor com a mesma alcunha e o Piolho Viajante que já não vive, et ceteri et ceteri etc.

Para os lados do Cristal morava o bom velho Manuel das Canas (Manuel d’Ávila), primeiramente sogro do licenciado
[2] Manuel Antônio Dias, e depois do capitão Morais (o meu filho senhor Capitão).

Na estrada de Mato Grosso tinha seu sítio o Ressabiado, pai de muitas filhas, aonde os moços da cidade em alguns dias de festa iam dançar, mesmo de dia
[3]. Mais adiante morava o Velho Matraca, que pela Semana Santa tinha a devoção de vir a pé à cidade para fazer na igreja o uso do seu instrumento favorito.

No caminho do meio ou estrada do meio, junto ao Capão da Fumaça, morava o velho Fumaça (José Silveira Pereira) que diziam uns ter ele dado o nome ao Capão e outros que o Capão o dera a ele; e junto dele seu filho Chico Fumaça.

Nessa mesma estrada junto à cerca de pedra morava o Quarto de galinha, Serafim (ou Miguel) dos Anjos, cuja viúva dona Severina lhe sobreviveu muitos anos, morrendo já de idade avançada.

Outros ilhéus aí moravam entre os quais se contavam o Vicente Brabo (Vicente Silveira Gonçalves) e seu filho Miguel Brabo; o Inácio dos dentes grandes e o Chico Ilhéu (Francisco Silveira de Azevedo).

Entre esta estrada e a dos Moinhos morava o velho Bogango (José Silveira Fernandes) com seu filho o capitão José Mulher
[4].

Não esquecerei que por essas imediações moravam as Senhoras Eusébias, as primeiras Beijueiras
[5] dos nossos subúrbios.

Agora passarei ao centro da cidade, então vila de Porto Alegre. É aí que se achava destacado o quartel mestre general das alcunhas, se é que não havia tantos quartéis mestres generais quantas eram as povoações da capitania e do Brasil.

Tudo e todos tinham alcunha, desde a mais alta personagem até o sineiro ou aguadeiro.

Eram os governadores e presidentes, os batalhões e regimentos, as famílias, as senhoras, as mulheres, os empregados públicos, os padres, sacristas e funcionários de irmandades, as escolas, os jornalistas, os advogados, solicitadores do foro, escrivões e meirinhos, os cirurgiões e empregados no comércio, os sapateiros, os alfaiates, os taverneiros, os mascates, profissões diversas ou avulsas e também havia alcunhas em duplicata.

Governadores e presidentes Tivemos em 1803 como governador o Lentilha [6]; em 1809 como capitão-general o Verruga; em 1814 um marquês alcunhado por Diabo Coxo; em 1820 fez parte do triunvirato governativo interino o dom João Quinto; em 1824 um presidente Sinhá Rosa, e em 1826 outro presidente Cascudo.

Batalhões e regimentos Além dos Dragões e Voluntários (que nem todos o eram) tínhamos aquartelados na praça da Alfândega no edifício hoje denominado Casa queimada, a Legião dos Baetas, que assim se chamavam os soldados paulistas, onde era ajudante o tenente Galinha e também tinham praça o cadete Chulé, e o tenente Nenê.

(Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro, p.185-199)

Antônio Álvares Pereira Coruja nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a 31 de agosto de 1806, e faleceu no Rio de Janeiro em 4 de agosto de 1889. Professor primário em sua cidade natal, era deputado provincial em 1835, envolvendo-se na revolução farroupilha, sendo preso e solto no ano seguinte. Fixou-se na capital do império, fundando o Colégio Minerva, de grande reputação. Foi um dos grandes e venerados escritores didáticos do Brasil imperial, publicando gramáticas, aritméticas, resumos de História, além de críticas e estudos sobre sua Província. O velho Coruja morreu ignorando a existência do folclore mas fixou elementos preciosos de etnografia nos seus livros. Essa página deliciosa, sobre alcunhas na cidade de Porto Alegre do seu tempo, foi publicada no Rio de Janeiro em 1881.

O batalhão que passou depois a ser o 8º e para onde eram recrutados os filhos desobedientes e os malsinados, era denominado dos Chimangos, tendo tido em certo tempo por comandante o coronel José Maria Maneta. Os da legião portuguesa, do general Lecor, chamavam-se Talavetas. O contingente da artilharia da Corte tinha o nome de Morcegos. A infantaria de Santa Catarina (o regimento da Ilha era conhecido por Padres Eternos; os Milicianos de cavalaria da roça eram os Galos, de que foi sargento-mor José Joaquim Atoa; os da infantaria da cidade comandados pelo coronel Basaca eram Quetoqueros e os do Rio Pardo da mesma arma eram os Mandus, porque todos os seus oficiais eram Manuéis). O terço de Ordenanças, até certo tempo comandado pelo capitão-mor Conde da Cunha, tinha o nome de Ceroulas: e a eles pertenceram como sargento-mor o Só Naço [7], como capitães o João dos Afetos e Guilherme Pescocinho e cabo avisador o Luiz Sujo. A companhia dos pardos era conhecida pelo nome de Rapaduras, e era dela alferes o José Moleque [8]; e a companhia dos pretos era comandada pelo major Galo-piando.

Haviam além destes na campanha os Cobrados, que assim se chamavam os soldados do general Abreu por causa do fardamento encarnado; e os Belendengues que em ocasiões de guerra se arrebanhavam entre os gaúchos e vagabundos do campo para servirem de isca ao inimigo nas guerrilhas.

As Famílias Entre as famílias que serviram de ornamento à sociedade porto-alegrense contavam-se as estimáveis senhoras Pilotas que em sua graciosidade e delicadeza não deixavam passar camarão pela malha; as senhoras Araras que deram duas professoras para Pelotas: as senhoras Periquitas, cuja última representante foi a viúva do italiano Pança; as senhoras Cachoeiras a que pertencia a respeitável viúva de um conceituado negociante, que no seu tempo fora cavaleiro professo [9]; e as senhoras Maravilhas [10], onde casou Joaquim José Quadrado.

A estas podemos acrescentar as senhoras Baroas porque seu chefe se chamava José Vieira Barão de Matos; as senhoras Desidérias, pelo nome de seu irmão Desidério Antônio de Oliveira há poucos anos falecido na cidade do Rio Grande; e as senhoras Galvoas (cunhadas de Manuel Raimundo Galvão) que, da sua altura e graciosa altivez, sabiam corresponder com graciosas mesuras a quem na rua as cumprimentava.

As senhoras Devo aqui apresentar em primeiro lugar a senhora Brigadeira, a mais antiga e respeitável representante das famílias colonistas de Feijós e Azevedos [11]. Dona Josefa Eulália de Azevedo foi assim chamada e conhecida por ter sido casada com o brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, não perdendo este nome nem mesmo casando depois com o desembargador Luiz Correia Teixeira de Bragança, de quem enviuvou. Era sogra do coronel Vicente Ferrer da Silva Freire.

Feitos estes primeiros cortejos, passarei de leve pela senhora dona Maria Antônia Vicência, conhecida por dona Maria Popa Redonda [12], por ter sido seu marido comandante de um navio assim alcunhado; mencionarei a senhora dona Inácia Rebeca também por ter sido casada com outro capitão de navio deste nome; passarei de leve pelas senhoras donas Ana Gorda, Ana Bolena, e Iaiá Pombinha, para finalizar com a senhora dona Prosódia, pessoa de palavras escolhidas; dizia equinomia porque esta palavra da maneira que vinha nos dicionários era indecente; gostava muito das famílias que passavam uma vida mediôcra; e como era pessoa de algumas posses mandou um seu sobrinho estudar à corte com o fim de ser doutor formado em bacharel.

As mulheres Além das Potreiras e Tagarras que se tinham encurralado no beco do Fanha, moravam para os lados do Portão as duas ex-atrizes Angélica Lindeza e a Coxifã, a Cabra-roixa, e a cisplatina Fragata Imperatriz; para os lados dos Bagadus residiam a Antonica Talaverna, e a Botoa (filha de Felício Botão); e na rua da Varzinha, a Jacaroa.

Notas:

1. Não sei a propósito de que me lembrei agora do cirurgião Gaspar, da Cachoeira, que já Deus levou há muitos anos.

2. Naquele tempo dava-se o título Licenciado aos cirurgiões, e se dizia — Senhor Licenciado, como hoje se diz — Senhor Doutor.

3. Dizia-se que o nome de ressabiado era da herança paterna, e que seu pai tivera 30 filhos, 15 da primeira mulher e 15 da segunda. Chamava-se José Jacinto, e padecia de estrabismo excêntrico.

4. O leitor há de ter notado que todos estes ilhéus tinham — Silveira — no nome: assim também se encontram muitos Terras, Garcias, Rosas, Gulartes, Machados, Fanfas e Medeiros.

5. Beijueiras é nome que se não encontra nos dicionários; fique-se porém entendendo que aqui significa — fabricantes de beijus, aonde os moços da cidade nos dias santificados iam assistir à sua fabricação.

6. Os daquele tempo não o chamavam simplesmente Lentilha, davam-lhe mais um qualificativo menos decente, que diziam ter já trazido de Lisboa.

7. O sargento-mor Inácio José de Abreu, como Juiz de Paz do Rosário, foi um dos signatários das representações de 9 de dezembro de 1835, em que se pedia à assembléia provincial o adiamento da posse do presidente José de Araújo Ribeiro.

8. O alferes José Rodrigues do Vale, cômico gracioso, morreu no seu posto puxando uma guarda na praça do Palácio quando foi atacado de uma congestão cerebral.

9. A propósito de cavaleiro professo: A profissão era um ato eclesiástico solene a toque de órgão. Eu fui testemunha ocular da profissão do finado Manuel José de Freitas Travassos, que ajoelhado nos degraus do altar-mor da igreja matriz, recebeu do vigário geral Soledade o capacete, o manto e a espada, mediante certas orações apropriadas. Naquele tempo não era raro ler-se nos sobrescritos das cartas: Ao Ilmo. Sr. F. Cavaleiro professo na Ordem de XPT.º, abreviatura que serve hoje de gracejo para indicar uma coisa chic.

10. Os senhores Luiz e Guilherme Ferreira. de Abreu ainda se hão de lembrar que na sua Infância tiveram por vizinhas fronteiras na rua da Igreja umas senhoras muito moças e muito formosas.

11. No Instituto Histórico por ocasião de se ler um trecho sobre o ataque do ponto da brigadeira (10 de junho de 1836) houve alguém que se sorriu supondo sem dúvida ter este nome outra origem.

12. Parece que não era mesmo popa redonda, e sim um outro nome técnico com que os marítimos costumam chamar os navios de certa construção e de que agora me não posso recordar.

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