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| (Pereira Coruja) 1ª epígrafe Veritas parit odium. Isto é latim, que traduzido
livremente quer dizer: Nem todas as verdades se dizem, senhora Torta.
Prólogo
Se é certo os santos do céu tiveram sobrenome, como São Felipe Néri e Santa Maria Madalena; também é certo que muitos dos reis da terra eram conhecidos pelas alcunhas, inclusive um que até foi alcunhado depois de morto, e foi dom Sebastião o Desejado ou Encantado. Entre os portugueses e no Brasil as alcunhas eram ou são ainda uma praga. Na costa da África tivemos um Chacá que era o primeiro comissário e principal agente dos contrabandistas de carne humana; no Rio de Janeiro sabem todos que houve um Onça que governou a capitania; um Chalaça que passava por favorito de dom Pedro I; o cônego Pirão que passou a monsenhor com a mesma alcunha e o Piolho Viajante que já não vive, et ceteri et ceteri etc. Para os lados do Cristal morava o bom velho Manuel das Canas (Manuel dÁvila), primeiramente sogro do licenciado [2] Manuel Antônio Dias, e depois do capitão Morais (o meu filho senhor Capitão). Na estrada de Mato Grosso tinha seu sítio o Ressabiado, pai de muitas filhas, aonde os moços da cidade em alguns dias de festa iam dançar, mesmo de dia [3]. Mais adiante morava o Velho Matraca, que pela Semana Santa tinha a devoção de vir a pé à cidade para fazer na igreja o uso do seu instrumento favorito. No caminho do meio ou estrada do meio, junto ao Capão da Fumaça, morava o velho Fumaça (José Silveira Pereira) que diziam uns ter ele dado o nome ao Capão e outros que o Capão o dera a ele; e junto dele seu filho Chico Fumaça. Nessa mesma estrada junto à cerca de pedra morava o Quarto de galinha, Serafim (ou Miguel) dos Anjos, cuja viúva dona Severina lhe sobreviveu muitos anos, morrendo já de idade avançada. Outros ilhéus aí moravam entre os quais se contavam o Vicente Brabo (Vicente Silveira Gonçalves) e seu filho Miguel Brabo; o Inácio dos dentes grandes e o Chico Ilhéu (Francisco Silveira de Azevedo). Entre esta estrada e a dos Moinhos morava o velho Bogango (José Silveira Fernandes) com seu filho o capitão José Mulher [4]. Não esquecerei que por essas imediações moravam as Senhoras Eusébias, as primeiras Beijueiras[5] dos nossos subúrbios. Agora passarei ao centro da cidade, então vila de Porto Alegre. É aí que se achava destacado o quartel mestre general das alcunhas, se é que não havia tantos quartéis mestres generais quantas eram as povoações da capitania e do Brasil. Tudo e todos tinham alcunha, desde a mais alta personagem até o sineiro ou aguadeiro. Eram os governadores e presidentes, os batalhões e regimentos, as famílias, as senhoras, as mulheres, os empregados públicos, os padres, sacristas e funcionários de irmandades, as escolas, os jornalistas, os advogados, solicitadores do foro, escrivões e meirinhos, os cirurgiões e empregados no comércio, os sapateiros, os alfaiates, os taverneiros, os mascates, profissões diversas ou avulsas e também havia alcunhas em duplicata. Governadores e presidentes Tivemos em 1803 como governador o Lentilha [6]; em 1809 como capitão-general o Verruga; em 1814 um marquês alcunhado por Diabo Coxo; em 1820 fez parte do triunvirato governativo interino o dom João Quinto; em 1824 um presidente Sinhá Rosa, e em 1826 outro presidente Cascudo. Batalhões e regimentos Além dos Dragões e Voluntários (que nem todos o eram) tínhamos aquartelados na praça da Alfândega no edifício hoje denominado Casa queimada, a Legião dos Baetas, que assim se chamavam os soldados paulistas, onde era ajudante o tenente Galinha e também tinham praça o cadete Chulé, e o tenente Nenê. (Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro, p.185-199) |
O batalhão que passou depois a ser o 8º e para onde
eram recrutados os filhos desobedientes e os malsinados, era denominado dos Chimangos,
tendo tido em certo tempo por comandante o coronel José Maria Maneta. Os da
legião portuguesa, do general Lecor, chamavam-se Talavetas. O contingente da
artilharia da Corte tinha o nome de Morcegos. A infantaria de Santa Catarina (o
regimento da Ilha era conhecido por Padres Eternos; os Milicianos de cavalaria da
roça eram os Galos, de que foi sargento-mor José Joaquim Atoa; os da
infantaria da cidade comandados pelo coronel Basaca eram Quetoqueros e os do Rio Pardo da
mesma arma eram os Mandus, porque todos os seus oficiais eram Manuéis). O terço
de Ordenanças, até certo tempo comandado pelo capitão-mor Conde da Cunha, tinha
o nome de Ceroulas: e a eles pertenceram como sargento-mor o Só Naço [7], como capitães o João dos Afetos e
Guilherme Pescocinho e cabo avisador o Luiz Sujo. A companhia dos pardos era
conhecida pelo nome de Rapaduras, e era dela alferes o José Moleque [8]; e a companhia dos pretos era comandada
pelo major Galo-piando. 1. Não sei a propósito de que me lembrei agora do cirurgião Gaspar, da Cachoeira, que já Deus levou há muitos anos. 2. Naquele tempo dava-se o título Licenciado aos cirurgiões, e se dizia Senhor Licenciado, como hoje se diz Senhor Doutor. 3. Dizia-se que o nome de ressabiado era da herança paterna, e que seu pai tivera 30 filhos, 15 da primeira mulher e 15 da segunda. Chamava-se José Jacinto, e padecia de estrabismo excêntrico. 4. O leitor há de ter notado que todos estes ilhéus tinham Silveira no nome: assim também se encontram muitos Terras, Garcias, Rosas, Gulartes, Machados, Fanfas e Medeiros. 5. Beijueiras é nome que se não encontra nos dicionários; fique-se porém entendendo que aqui significa fabricantes de beijus, aonde os moços da cidade nos dias santificados iam assistir à sua fabricação. 6. Os daquele tempo não o chamavam simplesmente Lentilha, davam-lhe mais um qualificativo menos decente, que diziam ter já trazido de Lisboa. 7. O sargento-mor Inácio José de Abreu, como Juiz de Paz do Rosário, foi um dos signatários das representações de 9 de dezembro de 1835, em que se pedia à assembléia provincial o adiamento da posse do presidente José de Araújo Ribeiro. 8. O alferes José Rodrigues do Vale, cômico gracioso, morreu no seu posto puxando uma guarda na praça do Palácio quando foi atacado de uma congestão cerebral. 9. A propósito de cavaleiro professo: A profissão era um ato eclesiástico solene a toque de órgão. Eu fui testemunha ocular da profissão do finado Manuel José de Freitas Travassos, que ajoelhado nos degraus do altar-mor da igreja matriz, recebeu do vigário geral Soledade o capacete, o manto e a espada, mediante certas orações apropriadas. Naquele tempo não era raro ler-se nos sobrescritos das cartas: Ao Ilmo. Sr. F. Cavaleiro professo na Ordem de XPT.º, abreviatura que serve hoje de gracejo para indicar uma coisa chic. 10. Os senhores Luiz e Guilherme Ferreira. de Abreu ainda se hão de lembrar que na sua Infância tiveram por vizinhas fronteiras na rua da Igreja umas senhoras muito moças e muito formosas. 11. No Instituto Histórico por ocasião de se ler um trecho sobre o ataque do ponto da brigadeira (10 de junho de 1836) houve alguém que se sorriu supondo sem dúvida ter este nome outra origem. 12. Parece que não era mesmo popa redonda, e sim um outro nome técnico com que os marítimos costumam chamar os navios de certa construção e de que agora me não posso recordar. |
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