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Agosto 2001
Ano III - nº 36

FIAPOS DE FOLCLORE

Não só a utilidade nos leva ao estudo do folclore, senão ainda certa deleitosa curiosidade em subir de pesquisa em pesquisa. remontando a origens, até alcançar as primitivas fontes, de uma simples expressão popular, de um brinquedo ou cantiga de roda. Já nos contentamos mesmo em acompanhar o curso montante dessas investigações, pelos encantos do estilo de um João Ribeiro, a encaminhar-nos através de séculos e civilizações até ao Oriente, remoto no espaço e no tempo.

Fazíamos essas considerações uma tarde em Alegre (31-12-46), depois de apelar para o hoteleiro, quando em vão tentamos abrir a porta do quarto com a velha e enorme chave que nos deram. Apareceu o homem, feliz por mostrar a habilidade, e ao torcer a chave, cochichou, quase encostando a cara na fechadura: - "Abre, Suzana". E depois de aberta a porta acrescentou satisfeito:

- Isso é mágica de uma história contada pelos antigos. Só eu é que tenho jeito de abrir logo esta porta. Mas quando viro a chave gosto de dizer esta palavra, de brincadeira. só para fingir que é uma coisa de segredo difícil.

Se nas fábulas, brinquedos e contos de hoje, descobrem-se tão, remotas origens, menos antiga não será a da espécie folclorista dos benzimentos. Em outra ocasião já consideramos algumas das rezas e ensalmos correntes ainda com muita freqüência no Espírito Santo.

Trazemos aqui agora uma reza contra mau olhado, registrada palavra por palavra, empregada por bondosa senhora, conhecida por dona Marieta, mas cujo verdadeiro nome era Luiza Pazzini. Viúva de antigo funcionário postal, era muito relacionada na sociedade vitoriense, onde as famílias lhe solicitavam benzimentos contra diversos males. Desapareceu há pouco e já septuagenária, neste mês de junho de 1950.

Em vez da folha ou do costumeiro raminho de arruda. Dona Marieta preferia rezar com uma faca de mesa recebida no momento. É a seguinte a sua reza contra mau olhado, exatamente reproduzida:

"F. (nome do paciente) benzo teu corpo, com nome de Deus, com louvor de Deus e do S. S. Sacramento.

F., que saia este mal do teu corpo a fora e vai o mal pra quem te botou. Que entre o bem. F., pelo teu corpo a dentro.

Santa Luzia tinha três filhas, uma rezava, outra benzia e uma cuspia.

Homem bom, mulher má, esteira velha e canto molhado. Que tira este mau olhado Santana mãe de Maria, Maria mãe de Jesus.

Jesus de Nazaré, vossas palavras são santas de verdade. Deus quer é santificar.

O mau olhado que traz F. no teu corpo, Deus quer tirar. Santana mãe de Maria, Maria mãe de Jesus, as vossas palavras são santas de verdade.

Deus que te tire este mal, que vá nas ondas do mar, pra nunca mais voltar.

São João, São Bento, cortai este mal no teu corpo, F.

F., eu botei minha mão. Deus bota a santa virtude e que te dê saúde.

Eu faço pelo sinal com dedo polegar, com as três arcas do mal. Deus que te dê saúde.

Botaram-te mau olhado F., em trabalhar pelas tuas costas, em olhar, em comer, dormir, em vestir, em andar, em calçar. Olhado de bem e de mal Deus quer tirar.

Santana mãe de Maria mãe de Jesus. Doce é o cravo, mais doce é a cruz, ainda mais doce o nome de Jesus. Que ele te acompanhe em todo lugar de que vá.

Eu botei minha mão, e Deus bota a santa virtude. Que ele te acompanhe em todo lugar que vá e que te livra de olhos malinados de quebranto, inveja, usura, atraso, olhos grossos.

Que Deus te acompanhe em todo lugar que vá: que te livre de tudo quanto é mal, F., que lhe entre o bem e a felicidade, calma pra muitos anos.

Assim seja. Amém Jesus."

Tentamos apenas pontuação aproximada nesta longa benzedura, onde se entrelaçam fragmentos de outras e até vestígios do folclore infantil facilmente reconhecíveis.

Terminada a reza, dona Marieta ia pressurosa lavar a faca na água corrente da torneira, "para que o malefício saísse e fosse desaparecer nas águas do mar".

Não temos observações pessoais dos efeitos de benzeduras em crianças pequeninas, mas são manifestos em adolescentes e adultos, pela sugestão, desde que por estes sejam recebidos com fé e confiança no rezador.

Não só em livros de psicoterapia, de quarenta a cinqüenta anos atrás, mas ainda em modernos tratados de medicina pisicossorriática, enctramos páginas de sério estudo sobre os efeitos de rezas e ensalmos.

A cura rápida das verrugas, por exemplo, pelo efeito da sugestão, permanece ainda hoje um dos fatos mais misteriosos da observação clínica.

[1950]


(Fraga, Cristiano. Em Folclore. Vitória, maio/junho de 1950)

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