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Agosto 2001
Ano III - nº 36

RIVALIDADES ENTRE VILAS E CIDADES

É antiga a rivalidade entre vilas e cidades vizinhas ou de uma mesma região. A própria semântica do termo rival no-lo indica. Sem necessidade de recorrer aos exemplos clássicos da antigüidade, podemos recordar que ainda hoje há intensa rivalidade entre as cidades do sul da Itália, bem como, na Inglaterra, júri para criminosos ingleses não pode ser composto de escoceses.

Os brasões populares (que mereceram estudo de Veríssimo de Melo) têm sua origem, segundo Gabriel Maria Vergara "na inimizade existente entre povos vizinhos; outros surgiram pelo prazer de ridicularizar os defeitos que se encontram entre os habitantes de tal ou qual lugar, e alguns devem a sua aparição ao propósito de distinguir os de uma localidade dos de outra, pela ocupação ou modo habitual de viver da maioria de seu habitantes" (citado por V. de Melo)

Sem esgotar o assunto vamos relacionar brasões populares de algumas cidade espírito-santenses, examinando, após, as rivalidades entre elas.

1. Alegre – "cidade jardim"

2. Anchieta (ex-Benevente) – "cidade relíquia"

3. Cachoeiro do Itapemirim – "A princesa do Sul"

4. Castelo – "cidade sorriso"

5. Colatina – "A princesa do Norte"

6. Conceição da Barra – "cidade mimosa"

7. Guarapari – "cidade saúde"

8. Guaçuí – "cidade menina"

9. Muqui – também é chamada "cidade menina"

10. Santa Teresa – "Petrópolis capixaba" e "Terra das violetas"

11. Vitória, a capital é "cidade presépio" e "pérola do Atlântico"

Citamos a seguir a cordial rivalidade existente entre vilas e cidades capixabas. (Disse cordial para que se não pense ser de brigas a vida das comunas do Espírito Santo. Há muita harmonia e vontade de progresso conjunto; todavia, a rivalidade existe aqui, como em toda a parte).

Cachoeiro do Itapemirim a mais industrial cidade do Estado rivaliza-se com Vitória, a capital, fazendo lembrar, na ficção, a disputa entre Zenith e a capital de seu Estado, criada por Sinclair Lewis em "Babbit".

Do norte para o sul observamos as seguintes brigas tradicionais entre municípios:

1ª) Conceição da Barra versus São Mateus – os mateenses são baratas descascadas para os barrenses, e estes paus de sebo para aqueles.

2ª) Colatina é rival de Cachoeiro do Itapemirim. As duas princesas lutam pela supremacia econômica pois são as edilidades de maior arrecadação no Estado.

3ª) Em Ibiraçu a rivalidade é entre o distrito sede (Ibiraçu) e o de João Neiva, a qual se estende, segundo meu informante, aos clubes de futebol.

4ª) A velha e tradicional cidade rival de Santa Teresa é Santa Leopoldina, (ex-Cachoeiro). Ambos os municípios serviram de cenário ao romance "Canaã" de Graça Aranha. Os terenses chamam a cidade do Santa Maria de cachoeiro moleque.

5ª) Em Domingos Martins há rivalidade entre Campinho e Santa Isabel.

6ª) A cidade do Espírito Santo (Vila Velha) teve ciúmes, conforme me disse um de seus moradores, quando começaram o calçamento, a paralelepípedos, do bairro de Paul, o que ainda não foi feito na sede.

7ª) Uma rivalidade que precisava acabar – a entre Guarapari e Anchieta. As duas cidade unidas formariam importante eixo de turismo. Guarapari como balneário e por causa de suas areias radioativas, a que se atribuem milagrosas curas. Benevente, como a cidade em que morreu o venerável Anchieta, e por suas tradições históricas.

O povo de Benevente (não me acostumo a chamar de Anchieta, pois foi sempre Benevente que em casa ouvi) chama Guarapari de terra do xáreu na rede, aludindo, em verdade, a um fato anedótico que se atribui ter ocorrido na vila de Mealpe. (O xaréu é um peixe que quando cai em redes as danificas; conta-se que, certo domingo, um padre estava proferindo seu sermão, quando, à porta da igreja, um verdadeiro "amigo da onça" gritou – "Tem xaréu na rede". Os que assistiam à pregação eram pescadores. Assim saíram todos para defesa de suas redes e não ficou vivalma para ouvir o sermão).

Conta-se também, que Guarapari para inaugurar seu cemitério teve de pedir emprestado um defunto a Benevente. E, até hoje não o pagou...

Disse-me, o desembargador Eurípedes Queiroz do Vale que a balsa de Guarapari só anda depressa quando se diz "Vocês estão lerdos que nem os remadores de Benevente..." E vice-versa.

8ª) Iconha é velha rival de Itapoama (ex-Rio Novo). Houve época em que os dois municípios resolveram unir-se. Os entendimentos não prosseguiram porque cada cidade queria ser a sede do novo município, formado com a fusão.

9ª) Alegre tem uma ponta de mágoa de Guaçuí, cidade que já pertenceu àquele município. As vilas de Rive e Vala do Sousa são antigas rivais, no município de Alegre.

10ª) E, para terminar, vamos verificar que Mimoso, nada obstante o nome, é uma cidade "de briga". Ao norte da florescente cidade sulina fica Muqui; ao sul a vila de São Pedro do Itabapoama. Pois Mimoso não "topa" nem a cidade do norte, nem a vila do sul. Os mimosenses são índios para os habitantes de Muqui, e estes lagartixas para aqueles. Quando se vai de trem para o Rio (aventura que hoje, era do avião, e de medo da Leopoldina desastrada, quase ninguém faz) e o comboio parte de Muqui demandando Mimoso é comum ouvir-se um muquiense chauvinista exclamar: - "Eles vão para a cozinha". A gracinha é paga com a mesma moeda, id-est com a mesma expressão, ao sair o trem de Mimoso para Muqui.

Mudança da comarca de São Pedro do Itabapoama para Mimoso desgostou seu habitantes que passaram a chamar a nova sede de "caldeira do inferno". A turma de Mimoso, sem se zangar, apelidou São Pedro de Morro das Corujas.

Eis aí, em resumo incompleto, as principais rivalidades entre cidades e vilas do Espírito Santo. Posso atestar, como conhecedor de minha gente, haver, nos apodos acima transcritos, menos ódio que amor...


(Pacheco, Renato José da Costa. Em Folclore, julho-dezembro de 1951)

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