Agosto
2001
Ano III - nº 36 |
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O jogo é, sem dúvida, um vasto campo para
pesquisas folclóricas. Seja praticado como recreio ou como vício, por malandros ou
grã-finos, encontraremos nele uma vasta linguagem particular. Seja praticado em ricos
clubes de salões feericamente iluminados por lâmpadas de neônio e sobre o atraente
pano-verde, onde se espalham fichas de valor; seja praticado em escusas cafuas, iluminadas
pela luz frouxa de fifós fumegantes, e sobre esteiras de tábuas, onde tilintam as
geobas, e os tentos de fava e feijão se confundem; em qualquer desses ambientes impera a
crendice, a superstição e a gíria comum dos jogadores.
Dentre os jogos conhecidos e praticados em Sergipe, desde tempos remotos, destaca-se o
víspora - loto, pela sua interessante bagagem de expressões que, às vezes, lembram
feitos épicos ou situações ridículas.
Talvez pelo hábito de jogar às escondidas, porque o víspora é um jogo tipicamente de
azar (vez que o ganho e a perda dependem, principalmente, da sorte), os viciados, corridos
da polícia, criaram essa nomenclatura especial e completa para as pedras numeradas.
O cantor, isto é, o parceiro encarregado de apregoar, catar, chamar ou gritar, à
proporção que vai tirando as pedras da sacola ou buzina, usa uma linguagem curiosa,
somente compreendida pelos iniciados.
Cada uma das noventa pedras tem o seu número e cada número o seu apelido. Um ou mais
apelidos, ou uma ou mais expressões designativas.
Não nos foi possível registrar tudo quanto ouvimos nas partidas.
Decoramos, apenas, as que se seguem.
Número Um: Antes só do que mal-acompanhado; também chamado o ronco do porco
Dois: Com quantos paus se faz uma cruz
Três: Ternura de um peito amante; ou pé-de-peru
Quatro: Janela de pobre (porque feita de quatro tábuas)
Cinco: Mão de gente
Seis: Pingo no fundo (os números 6 e 9 se distinguem por um ponto a que chamam
pingo)
Sete: A conta do mentiroso
Oito: Violão sem braço
Nove: Pingo no pé, nove é
Dez: Negro nu na maré (?)
Onze: Zonzo se veja o diabo
Doze: O bombardeio da Bahia (1912)
Treze: A ceia do Senhor (treze apóstolos)
Quatorze: As guerras da Alemanha
Quinze: Quinzilou, perdeu!
Dezessete: As guerras de Pernambuco
Dezoito: O armistício (1918)
Dezenove: Está na cadeia (alusivo ao facínora sergipano Zé Dezenove)
Vinte: Avistei a Bahia(?)
Vinte e um: Homem feito (a idade da emancipação)
Vinte e dois: Os patinhos de Belém
Vinte e três: O amigo urso
Vinte e quatro: Natal
Vinte e cinco: Foi prá lenha!
Vinte e seis: O batalhão corredor (Guerra de Canudos)
Vinte e oito: O batalhão revoltoso
Vinte e nove: Honra e Glória (Uma peça de teatro)
Trinta: Os óculos do diabo
Trinta e um: O joguinho da meia-noite
Trinta e dois: A seca do beiço branco
Trinta e três: A idade de Cristo
Trinta e nove: O bode préto (?)
Quarenta e quatro: O calibre do rifle, ou a justiça do Amazonas
Quarenta e cinco: O meio do caminho (metade das pedras)
Cinqüenta e um: Remédio de rapaz solteiro
Cinqüenta e cinco: Dois gringos cagando numa sulipa
Sessenta: A fome grande
Sessenta e seis: Duas freiras encapuzadas
Sessenta e sete: A marca do gás (As caixas de querosene Devois traziam o
número 67 estampado a fogo)
Sessenta e nove: Tanto faz como tanto fez (Há uma série de safadezas com este
número)
Setenta e um: O martelo e o prego
Setenta e sete: Dois machados de aço
Oitenta: O buraco da bala (?)
Oitenta e um: O gordo e o magro (Antes de serem conhecidos os dois famosos cômicos
do cinema, já existia esta denoniinação para o "oitenta e um")
Oitenta e oito: Os dois barris de pólvora
Noventa: O pai do saco
Alguns números são designados por duas ou mais expressões ou apelidos, de acordo com o
cantor e, também, com o ambiente. Às vezes descambam para as safadezas que não
comportam neste registro, embora chistosas e de certo modo divulgadas.
(Carvalho, Deda. Brefaias e burundangas do folclore sergipano) |
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