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Agosto 2001
Ano III - nº 36

AMBULANTES RURAIS

O vaqueiro

O vaqueiro sempre de aspecto gaúcho, montado em animal esperto, de cor zaino ou tordilho, crina e cauda longa; chapéu de abas largas, lenço grande no pescoço, camisa caqui como os militares, calça justa às pernas pelas perneiras de couro, botinas com esporas em roseta, presas pelo cabrestilhos; traz à mão direita seguro ao pulso o rebenque, com que chicoteia o animal. Este é arreado com certo capricho; o lombilho é a parte principal do encilhamento, sobre o mesmo o pelego presos pela cincha, que aperta os arreios, composta de travessão, barrigueira, quatro argolas, latego e sobre-latego. Na cincha, está preso o cinchador, peça de ferro ou de couro, ao qual se prende uma das extremidades do laço que termina com uma argola que forma o laço propriamente dito; os peitorais e rabicho completam essa parte do arreiamento. Usam cabeçadas, peças de couro presas às argolas superiores do freio, segura à boca do animal, passando por trás das orelhas; as rédeas ou guias são de couro ou de fibras.

Os arreios quase sempre são cheios de rosetas de metal, bem limpos, reluzentes, quer das cabeçadas, peitorais, rabicho e mesmo os estribos, que se tornam faiscantes.

Nesse aparato passam os vaqueiros na zona rural, à procura do gado tresmalhado, que, ao desembarcar em Santa Cruz ou Oswaldo Cruz, arriba para as matas ou campos, sendo laçado em plena estrada e ruas, tornando-se de um momento para outro a via pública verdadeiro mangueirão, espetáculo bem sertanejo.


O capinzeiro


O capinzeiro é um tipo bem da zona retirada, vai todos os dias buscar o capim para os animais pertencentes aos patrões; às vezes, bem longe, vai buscar a forragem e traz sobre o burro em enormes feixes; quando passa na estrada não se vê o animal e sim o grande molhe de capim que se movimenta. Há capinzeiros que vivem fazendo esse negócio como outro qualquer, pois vendem a fregueses certos, que não possuem em suas terras essa forragem essencial.


O carreiro

O carreiro de areia é o condutor de carro de areia lavada, isto é, de rio, de água doce, muito comum na zona rural. O carro representa um metro cúbico, o qual é vendido pelo preço de dezenove a vinte mil réis à porta.

O mais interessante é que a proprietária nada recebe pela simples razão de ser a Prefeitura. É uso comum em Jacarepaguá apanharem nas próprias ruas, estradas e rios, depois das enxurradas, a areia que fica depositada, prejudicando a conservação das mesmas, mas quase sempre são estrangeiros que assim procedem, recolhendo-a em carros puxados a bois por carroceiros sem escrúpulos, vendendo-a a particulares, o que a postura municipal proíbe terminantemente.

Certa manhã, um carreiro português (conhecido por Zé Ilhéo), ao passar pela rua Pinto Teles, atolou seu carro em um buraco, fazendo tudo para sair, o que não conseguiu; desesperado, avançou para a junta de bois, dizendo: "Bocês podem ter mais inteligência, mais força é que não tem", e mordeu o focinho de um dos bois, sangrando-o e só não continuou por causa do protesto dos transeuntes.


O estrumeiro

O resto das cocheiras, isto é, o esterco dos animais cavalares e posto em estrumeiras para curtir e depois vendido a particulares, para adubo de seus pomares, hortas e jardins, sendo a Limpeza Pública uma concorrente desleal, mas só na zona suburbana, porque na rural não existe; fornece estrume com mais vantagem do que as cocheiras particulares, mas mesmo assim todo que aparece é vendido à razão de 25$000 a carroça.

Na zona rural, o fornecimento é feito por carro de bois ou de novilhos, pequenos em relação aos da Limpeza Pública, mas fazem, mesmo assim, negócio. O estrumeiro é sempre um homem ou rapazola que guia o carro, carrega e descarrega.


Os aguadeiros

Infelizmente a nossa gente da zona rural, tão laboriosa, é sempre sacrificada, pois lhe falta o principal alimento mineral: a água.

No largo da Taquara existe uma bica pública, poste cilindríco com uma torneira, onde, pela manhã, crianças, mulheres e homens vão buscar o precioso líquido, em latas de querosene, potes, barriletes, barril em carro puxado por carneiros, carroças com pipas puxadas por bois e mesmo barricas transformadas em rodo ou rolo, conduzidas por um só boi. As crianças, mulheres e os homens transportam a vasilha na cabeça e muitas vezes aos ombros, ou por meio de um pau, tendo em cada extremidade uma lata; no entanto, os canos adutores passam por toda essa região.

Os homens abastecem os lares, antes de partir para o trabalho; as crianças, antes ou depois de ir à escola. Vivem assim os moradores da redondeza da bica, que relativamente estão bem, mas os que moram na Pavuna? Fazem três a quatro quilometros para a obter. É assim quase toda a zona rural. O mais irritante é o que sucede em Camorim, onde está situado o rio, o açude, a represa e a caixa d’água, que abastece a zona suburbana, enviando as águas para o reservatório da Reunião, no Tanque; a população local apanha água nos alagados, nos poços e o turista, se quiser, que beba água mineral, pois o líquido precioso não é encanado, passando, no entanto, os canos a duzentos e cinqüenta metros da localidade.


O padeiro

Logo abaixo de Piabas, está situada uma padaria, a trinta e cinco quilômetros de Cascadura, que fornece pão aos habitantes deste recanto, desde Camorim aos Bandeirantes e todas as estradas e caminhos que irradiam das estradas de Guaratiba e Pontal. O transporte do pão é bem pitoresco, feito por meio de burros, da seguinte maneira: sobre uma cangalha especial, estão presas duas barricas, uma de cada lado, abertas na parte superior e cobertas por uma lona que abrange as duas, a qual é presa por uma corda, que faz a amarração das mesmas, em todo o conjunto. O pobre padeiro percorre a pé, a freguesia, sendo o preço do pão o mesmo das outras zonas. Esse transporte do pão também é usado em Guaratiba, Campo Grande e Santissímo.


Os açougueiros

São, por assim dizer rurais, saem da Taquara e Tanque, indo até o Pontal de Sernambetiba ou Barra da Tijuca, em suas carrocinhas de duas rodas, de varal com dois animais, a vender carne, todos os dias.

São dois os açougueiros mais conhecidos e populares apesar de existirem outros: o Catita e Marangá; o primeiro, mais moço, tem sua carroça, sem toldo na boléia, puxada por dois burros pretos e, com seu avental branco, característico dos açougueiros, vai servindo sua freguesia, à beira da estrada; o segundo, mais velho, filho de Jacarepaguá, conhecedor de todos os cantos e histórias locais, pessoa tratável, morador à estrada da Tindiiba, na Taquara, tem sua carroça igual à primeira, atrelada por burros brancos, coberta de toldo de lona, na boléia. A parte da carrocinha que leva a carne é coberta por alvo pano; estas carrocinhas levam balanças e faca para retalhar a carne, que vendem ao mesmo preço dos açougues.


O prestação

Sírio simpático, insinuante, vai, todos os dias percorrer a zona do Camorim à Currupira, com mala de roupa e o respectivo metro para, em plena estrada, transformada em salão de alfaiate, tirar as medidas aos fregueses, ao vender calças, paletós, camisas, ceroulas, cintos e meias; é uma verdadeira alfaiataria ambulante.

A venda é, a prestação, quando o freguês tem terras, mora em sítios, ou é empregado com residência certa; e, a dinheiro, quando vê que não é negócio fiar; o fato é que tem muitos fregueses e todos satisfeitos com ele.


O correio

Carteiro rural percorre seu distrito pela manhã, das 7 às 11 horas, isto é, quando está mais próximo da população, mas retirado com Vargem Grande ou Pinheiro, termina muito mais tarde a entrega da correspondência aos seus destinatários.

O serviço é feito obrigatoriamente, a cavalo, sendo o animal comprado pelo carteiro, assim como o arreamento. Somente o alforje, saco de lona marrom, fechado em ambas as extremidades, com abertura ao centro, de modo a adaptar-se ao selim, formando dois sacos ou compartimentos, um de cada lado, a fim de igualar o peso da correspondência, equilibrando-os, é fornecido pela Repartição Geral dos Correios, por intermédio das agências; tem na parte externa o nome da zona; Correio de Marangá ou Jacarepaguá. O sustento do animal é pago pela Repartição, isto é, cada carteiro recebe dois mil e quinhentos réis por dia, o que acham pouco. A ração diária é milho, duas vezes por dia; ferraduras, seiscentos e sessenta e seis réis por dia perfazendo por mês: um saco de milho, vinte e quatro mil réis; corte de capim, trinta e cinco mil réis; ferraduras, vinte mil réis; concertos de arreios, cinco mil réis, numa despesa de oitenta e quatro mil réis. Portanto, a despesa é de 84$000 e ganham 75$000... isso, quando trabalham todo o mês, pois o dia que não trabalham é descontada a ração; nesse dia o cavalo não come...

Um carteiro disse-me que está resolvido a fazer o cavalo alimentar-se pela garrafa, isto é, alimentação de convalescente.


(CORRÊA, Magalhães. O sertão carioca.)

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