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Agosto 2001
Ano III - nº 36

FAZENDA DE CAFÉ

O Sr Q. nos levou a uma das mais bem dirigidas fazendas de café da província. A casa, baixa, está situada num vale onde os anjos adorariam morar. Mais de uma dúzia de vezes, hoje, mentalmente exclamei: "Mas que glorioso mundo, se fosse possível encará-lo através de outros meios que não fossem os dólares!" O proprietário tinha ido à cidade, mas a sua senhora nos recebeu polidamente. Ela estava acompanhada por dois papagaios que, de ciúme, um tratava de afastar o outro dela. Perfeitamente livres, excursionavam lá fora para gritar e tagarelar com outros pássaros sem dono.

Familiar com o lugar, o Sr. Q. levou-nos primeiramente a um longo estábulo com vários compartimentos. Diante de cada um, em vez de uma manjedoura, estava uma larga prancha sustentada por um cavalete. "O que é isto?" perguntei. "Camas de escravos." Se não me tivessem falado nada, eu não pensaria que isto aqui fosse outra coisa que não uma cocheira. No entanto, disseram-me que esta é geralmente superior às casas de escravos em geral. Aqui havia feixes de tochas, usadas pelos viajantes quando faz escuro, e vendidas nas vendas. São longas hastes de um cedro resinoso, e são feitas por escravos industriosos, aos domingos, e vendem-nas em seu próprio benefício. Fabricam ainda esteiras e chapéus grosseiros de palha, com o que ganham alguma coisa.

Aqui estavam confinadas duas cabras, as únicas fornecedoras de leite na propriedade; e aqui estavam galinhas domésticas, sem cauda, conhecidas como de raça Sura. Também um casal de cães enormes, pertencendo a uma raça sem apêndice caudal. Aqui estava popular moinho de mandioca (descrito num capítulo subseqüente).

Assistimos em seguida ao processo pelo qual o café é preparado para o mercado. Penso que já notei que o fruto maduro não é diferente de uma cereja quanto à forma e à cor. A pele, dura, inclui dois grãos. O velho processo, ainda o predominante, é este: quando os frutos adquirem uma cor vermelha-escura, são apanhados, atirados em montes e espalhados em lugares planos (terreiros para secar ao sol). Diante de uma chácara, perto de uma montanha a duzentos metros acima de nós, observei, quando prosseguimos, um terreno enorme, coberto deles. Quando as cascas ficam enrugadas, duras, e quase pretas, são pilados em almofarizes de madeira.O almofariz quebra a casca sem afetar os grãos duros. Com o uso de peneiras, os últimos são separados e novamente postos a secar, até que uma película envolvendo cada grão seja privada de umidade, quando um ventilador os põe em condições de serem entregues ao consumo.

Um método melhor consiste em secar os grãos em bandejas ou leitos de madeira com o que se evita um odor de terra, que adquire quando seco no chão; e na introdução de dois moinhos para remover os envoltórios internos e externos. A peça principal do primeiro moinho é um cilindro horizontal do cobre, cuja superfície é rugosa à feição de uma lima. Gira de encontro a uma prancha, e o espaço deixado pelos dentes permite que o grão passe mas não a casca. Os grãos caem na água, onde ficam de molho durante algumas horas, com o que se remove uma substância mucilaginosa, assim como é amolecida a película fina como um pergaminho que envolve cada grão. São então espalhados em bandejas para secar. Contei duzentas destas numa fila, cobrindo um espaço de 210 metros por 4,5 metros.

Quando completamente secos, os grãos são levados para um moinho semelhante aos usados para triturar cal, com a diferença de os dois discos verticais serem de madeira, com 1,80 metros de diâmetro e 13 centímetros de espessura. O seu peso é bastante para quebrar e desgastar as películas sem afetar os grãos. Depois de terem sido submetidos a um ventilador, são ensacados para a exportação. [1]


Nota:

[1]. Sobre o decocto do café, que só foi introduzido em Paris em 1667 e em Londres alguns anos depois, Henry Blount, em sua Viagem ao Levante, em 1634, afirma:

- Eles têm outra bebida chamada cauphe, feita de uma cereja do tamanho de um feijão grande, seca num forno e reduzida a pó, de cor fuliginosa, um pouco amarga de gosto, e que eles tomam tão quente quanto podem suportar; é boa a todas as horas do dia, mas especialmente de manhã e à tarde, quando para aquele propósito eles se entretêm duas ou três horas nos cafés, que por toda a Turquia são mais comuns do que as tavernas em nosso país. Pensa-se que esta bebida já tenha sido usada pelos lacedemonianos. Faz secar os maus humores no estômago, conforta o cérebro, não causa jamais embriaguez ou qualquer indigestão, é um divertimento inofensivo para a boa camaradagem.


(Ewbank. Thomas. A vida no Brasil...)

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