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Comunicação
de Renato José Costa Pacheco, da Comissão Espírito Santense de
Folclore, ao II Congresso Brasileiro de Folclore.
Dentro do temário do 2º Congresso Brasileiro de Folclore queremos apresentar modesta comunicação sobre a cerâmica
da capital do Estado do Espírito Santo.
Averiguamos, dentro do município de Vitória, a existência de três
indústrias do barro: uma olaria de tijolos, em Barreiros, Estrada de
Contorno a que não nos referiremos, no presente trabalho: uma indústria
de moringas e vasos na Ilha de Santa Maria; e um processo afro-mesolítico
de fabrico de vasilhame no distrito de Goiabeiras, que, desde, pelo
menos, o século passado, vem dando sustento a dezenas de famílias.
A cerâmica da Ilha de Santa Maria
A técnica é tradicional,
porém a fábrica já apresenta as características de estabelecimento
industrial moderno. Edifício limpo, amplo, com os tornos na frente,
depósitos de utensílios fabricados após, e ao fundo forno e local
de mistura do barro o qual é adquirido em Maruípe (Vitória) e no
vizinho município de Cariacica.
A proprietária do estabelecimento é a senhora Eurides de Souza
Carvalho. Seu marido José, funcionário estadual aposentado, tendo
aprendido o ofício, em Sergipe, na sua infância, trabalha nele, há
20 anos, no Espírito Santo.
Tem três tornos trabalhando, com operários que ali fizeram seu
aprendizado. Na construção dos tornos usou-se sucupira porque é
madeira pesada, que ajuda o trabalho o qual é feito apenas com uma
cana (lâmina) de bambu, cuja finalidade é alisar o barro, enquanto
se roda o torno com os pés.
A moda, espalhada em toda a cidade, de as senhoras terem plantas em
vasos, à janela ou no quintal, a verdadeira competição entre elas
à cata dos melhores espécimes e dos mais belos vasos
tem obrigado esta fábrica a um esforço contínuo, na melhoria
da forma do produto que se restringe agora quase que a vasos para
flores, alguns ornamentados e, em sua maioria pintados com esmaltes
modernos. O preço de cada vaso varia entre Cr$ 10,00 e Cr$ 15,00 na fábrica.
Não faz o estabelecimento esculturas tendo, todavia, forma para fazer
galos, (brinquedo infantil) pouco usada pelo motivo já citado.
Pesquisa em Goiabeiras, terra da panela de barro
Goiabeiras é, por tradição, terra da panela de barro. Distrito da
Capital, situado no continente, ao norte da Ilha de Vitória, adquiriu
importância por causa de seu aeroporto, sendo, por isso, servido de
água luz e estrada asfaltada. É, todavia, segundo dados do último
Recenseamento Geral o quarto menos populoso Distrito do Espírito
Santo, com 791 habitantes, seguido de Itaúnas, em Conceição da
Barra (740), Irundi em Fundão (708) e Sagrada Família em Alfredo
Chaves (337).
Falamos, no início em processo afro-mesolítico de trato do barro.
Vamos defender esta tese.
É processo mesolítico, cremos, pela falta de torno, e, sobretudo,
pela inexistência, quase absoluta de adornos (nem cordel!) dos
objetos fabricados. Quando muito o processo seria neolítico,
ligeiramente modificado pela civilização contemporânea.
É processo africano porque o único cerâmio indígena encontrado no
Espírito Santo, até o presente momento, o foi no litoral norte do
Estado, em Sapucaia, pelo doutor Aldemar Neves e tem, segundo dona
Heloísa Alberto Torres, uma origem manifestamente tupi. Se a cerâmica
do litoral central do Estado dele proviesse, sua ornamentação
deveria ser, pelo menos em parte, aqui encontrada, porque uma técnica
não se perde facilmente.
E mais; os tapuias aimorés é que habitavam, outrora, esta região. E
estes “não conhecem a cerâmica”, é a afirmativa categórica de
Artur Ramos, o pranteado mestre, em sua Introdução à antropologia
brasileira. A mim me parece que a técnica não é portuguesa:
muito primitiva, nem esculturas, nem prenúncio de arte.
Por isto é, ainda baseado no mesmo mestre, achamos angola-congolesa a
técnica de trabalho hoje realizada por mulheres afro-brasileiras com
uma ou outra amostra de aculturação como pudemos observar
no dia 22 de julho último.
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Vamos acompanhar agora, passo por passo o caminho seguido na fabricação
de vasilhame de barro em Goiabeiras.
A indústria é essencialmente doméstica, feminina e manual; os utensílios
de barro são secos à sombra e queimados em fogo descoberto.
A produção é permanente e utilitária: não se fabricam objetos
religiosos ou esculturas.
O barro (tabatinga) é comprado na Estrada de Contorno à Ilha de Vitória,
no local denominado Barreiros (ex-Boa Vista) próximo a Maruípe,
arrabalde da Capital, ao senhor Zeco Nunes. Custa Cr$ 12,00 o bolo (aproximadamente 50 Kg) ou Cr$ 2,00 a bola. 8 bolas formam um bolo.
O transporte de Barreiros à Goiabeiras (aproximadamente 6
quilômetros) é feito de caminhão (carro) e o bolo
ao chegar ao local da fabricação está por Cr$ 40,00. Cada bolo
dá para a fabricação de um cento de panelas.
Em Goiabeiras o barro é guardado ou dentro de casa, ou, para quem tem,
no barraco, quatro esteios cobertos de sapé, ou trepadeira, que é o
local apropriado para o trabalho. Às vezes o barro é misturado com
areia, para dar liga, e revolvido com o grapuá
(lâmina adaptada a um cabo que serve também para tirar sururus, nas
pedras ou no mangue) e, em seguida, é cortado e amassado, formando pilhas.
Está pronto o material para sofrer o tratamento da mão humana.
Praticamente todas as mulheres de Goiabeiras fazem panelas,
nome que se dá a todos os objetos de barro enegrecido por elas
fabricado. Anotamos o nome das Lucidatos, tradicionais paneleiras:
Rita, apelidada Nenen, a mais velha, Orminda e Laurinda e Dilma Sales.
Mais de 100 mulheres, das 210 que habitam o setor urbano da
localidade, sabem trabalhar o barro aprendizado feito de mãe para
filha. “Criei meus filhos com as panelas, disse-nos Nenem Lucidato.
Algumas cantam ao trabalhar (músicas de congos ou de carnaval,
segundo dona Laurinda) e outras fumam cachimbo.
É o seguinte o instrumental usado:
1) Água, em vasilha, para amolecer o barro.
2) Cuia, pedaço de coité, (que corresponde à cana na citada cerâmica
de Santa Maria) cuja função é puxar isto é começar a fazer a
panela.
3) Faca, de ferro ou madeira, para raspar.
4) Tábua regular e fixa (talha) para apoio do barro a ser trabalhado,
e faz às vezes do torno
5) Pedra, do tamanho de uma noz, para alisar internamente a vasilha, e
6) Arco para raspar.
Acrescente-se o instrumento maravilhoso que é a mão, e teremos o
necessário para o fabrico de cerca de 12 panelas por dia por operária.
São fabricados bules, caldeirões, frigideiras, panelas de pés, e
sem eles, especialmente estas últimas. As panelas grandes são
chamadas mães, as pequenas filhas. As filhas, na
venda são acondicionadas no interior das mães,
formando uma casada. Algumas
panelas tem 2 ou 4 orelhas (pequenas asas).
Feitas as panelas, são secas na sombra, e, exceto em tempo de chuva,
vão ao fogo descoberto onde são queimadas. Não são usados fornos.
Após a queima as panelas são pintadas de preto com uma vassourinha,
(A tinta usada é tirada da casca de mangue socada, aguada, que dá a
todas as panelas originárias de Goiabeiras sua coloração negra).
As panelas são vendidas a Cr$ 200,00 o centos (50 casadas) e o maior
mercado de vendo é o da Vila Rubim, em Vitória, onde são revendidas
entre Cr$ 6,00 e Cr$ 20,00 por unidade.
Verificamos pelo que ficou dito, que operária fabricante livre de
panelas de barro, pode ganhar, no máximo, entre Cr$ 15,00 e Cr$ 20,00
por dia de trabalho efetivo.
Observemos, por fim, que os três pratos tradicionais da cozinha
capixaba, a feijoada, a moqueca
e a torta. (Vide, desta última,
receita em nota final) só terão sabor se feitos e servidos em
panelas de barro. (Acrescento uma recordação de caráter pessoal: em
minha infância vi, em nossa casa de Guarapari, um convidado de fora
do Estado, recusar-se a comer gostosíssima “moqueca de papaterra”
porque ela, segundo a tradição, viera para a mesa na panela preta de
barro, certamente “made in Goiabeiras”, fervendo ainda que
nem panela de Pedro Malasartes... Não sabe o que perdeu...).
Conclusão
Não temos em Vitória, Espírito Santo, cerâmica popular que se
assemelhe, nem de longe, à de Estremoz, em Portugal, nem sequer à pré-colombiana
do Marajó, ou mesmo de Sapucaia; nada que se acerque, no que concerne
à escultura, da cerâmica cabocla ou sertaneja em Pernambuco, ou
caipira de São Paulo.
Registramos o que existe. Em conclusão, duas sugestões.
Em primeiro lugar a de inquérito nacional sobre cerâmica, que venha
completar os trabalhos de Emanuel Djalma Vicenzi, Alexandre Lopes
Bittencourt e Walter F. Piazza, apresentados ao I Congresso Brasileiro
de Folclore, os de Alceu Araújo, de Cecília Meireles, e outros que não
chegaram a meu conhecimento.
Dentro do magnífico esquema de Cecília Meireles em sua notável aula
“Aspectos da Cerâmica Popular”, ministrada no Curso de Folclore
patrocinado pelo Departamento de Cultura do Município de São Paulo,
em agosto de 1952, este levantamento tão útil quão oportuno,
poderia ter feito, observando-se, onde houvesse cerâmica:
1) o material empregado, sua seleção e preparo.
2) os processos de trabalho.
3) as formas internas e externas.
4) o instrumental usado.
5) as decorações.
6) a cozedura.
7) os objetos fabricados
8) a utilização dos mesmos.
9) os preços dos produtos e sua colocação.
10) capítulo especial sobre escultura popular de barro.
Este inqueríto, cada Comissão Estadual se comprometeria a fazê-lo
em todo os municípios de seu Estado, e os resultados finais seriam
divulgados pela Comissão Nacional de Folclore.
Seria interessante, também, aproveitando-se a experiência da ONU em
Twante, na Birmânia recomendação aos Estados, no sentido de
melhorar a produção da cerâmica popular, através, especialmente,
de facilidade de venda de seus produtos, conforme já previsto no Convênio
assinado entre a Comissão Nacional de Folclore do IBECC e diversos
Estados, na letra E do item VIII: “O governo signatário se
compromete ainda: c) a assegurar integral proteção ao artesanato e
às indústrias domésticas, dando apoio a todas as iniciativas que
visem a sua organização e desenvolvimento”.
Nota final
Receita da torta capixaba (tradicional durante a Semana Santa).
Preparam-se todos os marisco: siris, caranguejos, camarões, ostras,
sururus do mangue ou mexilhões... bem como os palmitos. Depois de
limpos, desfiados, cozidos e espremidos, faz-se o tempero com alho, coentro,
azeite doce, limão, cebola, e, querendo, algumas pimentinhas, sem
esquecer cravo socado, cominho e pimenta-do-reino. Cozinha-se bem o
tempero com banha, caldo de toucinho (toucinho derretido e bastante
azeite doce). Logo que estiver cozido numa frigideira
de barro (essencial) misturam-se todos os mariscos e o tempero,
tendo o cuidado de adicionar um pouco de peixe desfiado (peixe
salgado) para enxugar e ligar a torta. (Alguns usam bacalhau).
Mexe-se muito e bem, deixando-se secar a água que “chora” dos
mariscos. Depois de tudo bem enxuto a seco, botam-se azeitonas.
Batem-se ovos (6, 12, 18... conforme o tamanho da torta), e com eles
cobre-se esta. Cozinham-se, à parte, uns ovos e aplicam-se, cortados,
juntamente com azeitonas e rodelas de cebola, para enfeite da torta.
Vai ao forno, retirando-se quando estiver bem coradinha. A torta deve
ficar bem enxuta e seca, pois é servida fria em fatias. (Os dados
desta receita foram-nos gentilmente fornecidas pela veneranda senhora
dona Otília Grijó cujas saborosas tortas têm fama, em Vitória, há
perto de sessenta anos. Deixamos-lhe aqui a expressão muito cordial
do nosso reconhecimento, ressaltando, porém que a receita acima ainda
não foi revista pela informante.) (Transcrito de Folclore,
boletim da Comissão Espírito-Santense de Folclore, Ano I, nº 5).
Este o trabalho, que, sem ser tese, desejávamos apresentar aos
ilustres confrades folcloristas que compareceram ao II Congresso
Brasileiro de Folclore.
Vitória, 25 de julho de 1953
Renato José Costa Pacheco
Da comissão Espírito-Santense de Folclore e do Centro Capixaba de
Folclore.
(Pacheco. Renato da Costa. Em Folclore.
Vitória, setembro/outubro de 1953)
Conheça o trabalho das
Paneleiras de Goiabeiras.
http://www.acampe.com.br/panelas/
http://www.sintrasef.org.br/brasil03.htm
Associação das Paneleiras
de Goiabeiras
Rua Leopoldo Gomes Salles, 94, Goiabeiras
Telefones: (0--27) 327-1366 - Galpão: (0--27) 327-0519.
Visite
a festa anual das Paneleiras de Goiabeiras, de 9 a 12 de agosto de
2001.
Veja
também:
- Culinária
capixaba. |