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Agosto 2001
Ano III - nº 36

CERÂMICA POPULAR EM VITÓRIA

Comunicação de Renato José Costa Pacheco, da Comissão Espírito Santense de Folclore, ao II Congresso Brasileiro de Folclore.

Dentro do temário do 2º Congresso Brasileiro de Folclore queremos apresentar modesta comunicação sobre a cerâmica da capital do Estado do Espírito Santo.

Averiguamos, dentro do município de Vitória, a existência de três indústrias do barro: uma olaria de tijolos, em Barreiros, Estrada de Contorno a que não nos referiremos, no presente trabalho: uma indústria de moringas e vasos na Ilha de Santa Maria; e um processo afro-mesolítico de fabrico de vasilhame no distrito de Goiabeiras, que, desde, pelo menos, o século passado, vem dando sustento a dezenas de famílias.

A cerâmica da Ilha de Santa Maria

A técnica é tradicional, porém a fábrica já apresenta as características de estabelecimento industrial moderno. Edifício limpo, amplo, com os tornos na frente, depósitos de utensílios fabricados após, e ao fundo forno e local de mistura do barro o qual é adquirido em Maruípe (Vitória) e no vizinho município de Cariacica.

A proprietária do estabelecimento é a senhora Eurides de Souza Carvalho. Seu marido José, funcionário estadual aposentado, tendo aprendido o ofício, em Sergipe, na sua infância, trabalha nele, há 20 anos, no Espírito Santo.

Tem três tornos trabalhando, com operários que ali fizeram seu aprendizado. Na construção dos tornos usou-se sucupira porque é madeira pesada, que ajuda o trabalho o qual é feito apenas com uma cana (lâmina) de bambu, cuja finalidade é alisar o barro, enquanto se roda o torno com os pés.

A moda, espalhada em toda a cidade, de as senhoras terem plantas em vasos, à janela ou no quintal, a verdadeira competição entre elas à cata dos melhores espécimes e dos mais belos vasos tem obrigado esta fábrica a um esforço contínuo, na melhoria da forma do produto que se restringe agora quase que a vasos para flores, alguns ornamentados e, em sua maioria pintados com esmaltes modernos. O preço de cada vaso varia entre Cr$ 10,00 e Cr$ 15,00 na fábrica.

Não faz o estabelecimento esculturas tendo, todavia, forma para fazer galos, (brinquedo infantil) pouco usada pelo motivo já citado.

Pesquisa em Goiabeiras, terra da panela de barro

Goiabeiras é, por tradição, terra da panela de barro. Distrito da Capital, situado no continente, ao norte da Ilha de Vitória, adquiriu importância por causa de seu aeroporto, sendo, por isso, servido de água luz e estrada asfaltada. É, todavia, segundo dados do último Recenseamento Geral o quarto menos populoso Distrito do Espírito Santo, com 791 habitantes, seguido de Itaúnas, em Conceição da Barra (740), Irundi em Fundão (708) e Sagrada Família em Alfredo Chaves (337).

Falamos, no início em processo afro-mesolítico de trato do barro. Vamos defender esta tese.

É processo mesolítico, cremos, pela falta de torno, e, sobretudo, pela inexistência, quase absoluta de adornos (nem cordel!) dos objetos fabricados. Quando muito o processo seria neolítico, ligeiramente modificado pela civilização contemporânea.

É processo africano porque o único cerâmio indígena encontrado no Espírito Santo, até o presente momento, o foi no litoral norte do Estado, em Sapucaia, pelo doutor Aldemar Neves e tem, segundo dona Heloísa Alberto Torres, uma origem manifestamente tupi. Se a cerâmica do litoral central do Estado dele proviesse, sua ornamentação deveria ser, pelo menos em parte, aqui encontrada, porque uma técnica não se perde facilmente.

E mais; os tapuias aimorés é que habitavam, outrora, esta região. E estes “não conhecem a cerâmica”, é a afirmativa categórica de Artur Ramos, o pranteado mestre, em sua Introdução à antropologia brasileira. A mim me parece que a técnica não é portuguesa: muito primitiva, nem esculturas, nem prenúncio de arte.

Por isto é, ainda baseado no mesmo mestre, achamos angola-congolesa a técnica de trabalho hoje realizada por mulheres afro-brasileiras com uma ou outra amostra de aculturação como pudemos observar  no dia 22 de julho último.


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Vamos acompanhar agora, passo por passo o caminho seguido na fabricação de vasilhame de barro em Goiabeiras.

A indústria é essencialmente doméstica, feminina e manual; os utensílios de barro são secos à sombra e queimados em fogo descoberto.

A produção é permanente e utilitária: não se fabricam objetos religiosos ou esculturas.

O barro (tabatinga) é comprado na Estrada de Contorno à Ilha de Vitória, no local denominado Barreiros (ex-Boa Vista) próximo a Maruípe, arrabalde da Capital, ao senhor Zeco Nunes. Custa Cr$ 12,00 o bolo (aproximadamente 50 Kg) ou Cr$ 2,00 a bola. 8 bolas formam um bolo. O transporte de Barreiros à Goiabeiras (aproximadamente 6 quilômetros) é feito de caminhão (carro) e o bolo ao chegar ao local da fabricação está por Cr$ 40,00. Cada bolo dá para a fabricação de um cento de panelas.

Em Goiabeiras o barro é guardado ou dentro de casa, ou, para quem tem, no barraco, quatro esteios cobertos de sapé, ou trepadeira, que é o local apropriado para o trabalho. Às vezes o barro é misturado com areia, para dar liga, e revolvido com o grapuá (lâmina adaptada a um cabo que serve também para tirar sururus, nas pedras ou no mangue) e, em seguida, é cortado e amassado, formando pilhas.

Está pronto o material para sofrer o tratamento da mão humana. Praticamente todas as mulheres de Goiabeiras fazem panelas, nome que se dá a todos os objetos de barro enegrecido por elas fabricado. Anotamos o nome das Lucidatos, tradicionais paneleiras: Rita, apelidada Nenen, a mais velha, Orminda e Laurinda e Dilma Sales. Mais de 100 mulheres, das 210 que habitam o setor urbano da localidade, sabem trabalhar o barro aprendizado feito de mãe para filha. “Criei meus filhos com as panelas, disse-nos Nenem Lucidato. Algumas cantam ao trabalhar (músicas de congos ou de carnaval, segundo dona Laurinda) e outras fumam cachimbo.

É o seguinte o instrumental usado:

1) Água, em vasilha, para amolecer o barro.

2) Cuia, pedaço de coité, (que corresponde à cana na citada cerâmica de Santa Maria) cuja função é puxar isto é começar a fazer a panela.

3) Faca, de ferro ou madeira, para raspar.

4) Tábua regular e fixa (talha) para apoio do barro a ser trabalhado, e faz às vezes do torno

5) Pedra, do tamanho de uma noz, para alisar internamente a vasilha, e

6) Arco para raspar.

Acrescente-se o instrumento maravilhoso que é a mão, e teremos o necessário para o fabrico de cerca de 12 panelas por dia por operária.

São fabricados bules, caldeirões, frigideiras, panelas de pés, e sem eles, especialmente estas últimas. As panelas grandes são chamadas mães, as pequenas filhas. As filhas, na venda são acondicionadas no interior das mães, formando uma casada. Algumas panelas tem 2 ou 4 orelhas (pequenas asas).

Feitas as panelas, são secas na sombra, e, exceto em tempo de chuva, vão ao fogo descoberto onde são queimadas. Não são usados fornos. Após a queima as panelas são pintadas de preto com uma vassourinha, (A tinta usada é tirada da casca de mangue socada, aguada, que dá a todas as panelas originárias de Goiabeiras sua coloração negra).

As panelas são vendidas a Cr$ 200,00 o centos (50 casadas) e o maior mercado de vendo é o da Vila Rubim, em Vitória, onde são revendidas entre Cr$ 6,00 e Cr$ 20,00 por unidade.

Verificamos pelo que ficou dito, que operária fabricante livre de panelas de barro, pode ganhar, no máximo, entre Cr$ 15,00 e Cr$ 20,00 por dia de trabalho efetivo.

Observemos, por fim, que os três pratos tradicionais da cozinha capixaba, a feijoada, a moqueca e a torta. (Vide, desta última, receita em nota final) só terão sabor se feitos e servidos em panelas de barro. (Acrescento uma recordação de caráter pessoal: em minha infância vi, em nossa casa de Guarapari, um convidado de fora do Estado, recusar-se a comer gostosíssima “moqueca de papaterra” porque ela, segundo a tradição, viera para a mesa na panela preta de barro, certamente “made in Goiabeiras”, fervendo ainda que nem panela de Pedro Malasartes... Não sabe o que perdeu...).

Conclusão

Não temos em Vitória, Espírito Santo, cerâmica popular que se assemelhe, nem de longe, à de Estremoz, em Portugal, nem sequer à pré-colombiana do Marajó, ou mesmo de Sapucaia; nada que se acerque, no que concerne à escultura, da cerâmica cabocla ou sertaneja em Pernambuco, ou caipira de São Paulo.

Registramos o que existe. Em conclusão, duas sugestões.

Em primeiro lugar a de inquérito nacional sobre cerâmica, que venha completar os trabalhos de Emanuel Djalma Vicenzi, Alexandre Lopes Bittencourt e Walter F. Piazza, apresentados ao I Congresso Brasileiro de Folclore, os de Alceu Araújo, de Cecília Meireles, e outros que não chegaram a meu conhecimento.

Dentro do magnífico esquema de Cecília Meireles em sua notável aula “Aspectos da Cerâmica Popular”, ministrada no Curso de Folclore patrocinado pelo Departamento de Cultura do Município de São Paulo, em agosto de 1952, este levantamento tão útil quão oportuno, poderia ter feito, observando-se, onde houvesse cerâmica:

1) o material empregado, sua seleção e preparo.
2) os processos de trabalho.
3) as formas internas e externas.
4) o instrumental usado.
5) as decorações.
6) a cozedura.
7) os objetos fabricados
8) a utilização dos mesmos.
9) os preços dos produtos e sua colocação.
10) capítulo especial sobre escultura popular de barro.

Este inqueríto, cada Comissão Estadual se comprometeria a fazê-lo em todo os municípios de seu Estado, e os resultados finais seriam divulgados pela Comissão Nacional de Folclore.

Seria interessante, também, aproveitando-se a experiência da ONU em Twante, na Birmânia recomendação aos Estados, no sentido de melhorar a produção da cerâmica popular, através, especialmente, de facilidade de venda de seus produtos, conforme já previsto no Convênio assinado entre a Comissão Nacional de Folclore do IBECC e diversos Estados, na letra E do item VIII: “O governo signatário se compromete ainda: c) a assegurar integral proteção ao artesanato e às indústrias domésticas, dando apoio a todas as iniciativas que visem a sua organização e desenvolvimento”.

Nota final

Receita da torta capixaba (tradicional durante a Semana Santa).

Preparam-se todos os marisco: siris, caranguejos, camarões, ostras, sururus do mangue ou mexilhões... bem como os palmitos. Depois de limpos, desfiados, cozidos e espremidos, faz-se o tempero com alho, coentro, azeite doce, limão, cebola, e, querendo, algumas pimentinhas, sem esquecer cravo socado, cominho e pimenta-do-reino. Cozinha-se bem o tempero com banha, caldo de toucinho (toucinho derretido e bastante azeite doce). Logo que estiver cozido numa frigideira de barro (essencial) misturam-se todos os mariscos e o tempero, tendo o cuidado de adicionar um pouco de peixe desfiado (peixe salgado) para enxugar e ligar a torta. (Alguns usam bacalhau).

Mexe-se muito e bem, deixando-se secar a água que “chora” dos mariscos. Depois de tudo bem enxuto a seco, botam-se azeitonas. Batem-se ovos (6, 12, 18... conforme o tamanho da torta), e com eles cobre-se esta. Cozinham-se, à parte, uns ovos e aplicam-se, cortados, juntamente com azeitonas e rodelas de cebola, para enfeite da torta. Vai ao forno, retirando-se quando estiver bem coradinha. A torta deve ficar bem enxuta e seca, pois é servida fria em fatias. (Os dados desta receita foram-nos gentilmente fornecidas pela veneranda senhora dona Otília Grijó cujas saborosas tortas têm fama, em Vitória, há perto de sessenta anos. Deixamos-lhe aqui a expressão muito cordial do nosso reconhecimento, ressaltando, porém que a receita acima ainda não foi revista pela informante.) (Transcrito de Folclore, boletim da Comissão Espírito-Santense de Folclore, Ano I, nº 5).


Este o trabalho, que, sem ser tese, desejávamos apresentar aos ilustres confrades folcloristas que compareceram ao II Congresso Brasileiro de Folclore.

Vitória, 25 de julho de 1953

Renato José Costa Pacheco
Da comissão Espírito-Santense de Folclore e do Centro Capixaba de Folclore.


(Pacheco. Renato da Costa. Em Folclore. Vitória, setembro/outubro de 1953)


Conheça o trabalho das Paneleiras de Goiabeiras.

http://www.acampe.com.br/panelas/

http://www.sintrasef.org.br/brasil03.htm

Associação das Paneleiras de Goiabeiras
Rua Leopoldo Gomes Salles, 94, Goiabeiras
Telefones: (0--27) 327-1366 - Galpão: (0--27) 327-0519.

Visite a festa anual das Paneleiras de Goiabeiras, de 9 a 12 de agosto de 2001.

Veja também:

-
Culinária capixaba.

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