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Agosto 2001
Ano III - nº 36

PEDRO MALASARTE
(Primeiro quadro)

Durante a cena que inicia o terceiro ato, quase um ano depois, o pano não sobe. Pedro Malasarte, Pascoal e Balduíno acham-se no próprio proscênio. Parecem vir de viagem, a considerar os surrões que trazem. Contudo Pedro Malasarte não vem de longe, mas das redondezas de Catolé, onde montou o seu quartel por alguns dias. Encontram-se eles em caminho e fizeram camaradagem. Agora descansam quase ao escurecer, para retomarem a viagem, de manhãzinha cedo. Sentados sobre os surrões, enrolam os cigarros, prontos para a parolagem. Pascoal é um magrela alegre e fanfarrão. Como alfaiate, diz que foi chamado pelos grandes do lugar: vai tentar a vida em Catolé. Balduíno, baixote e grosso, tem o mesmo destino, pois que vai tomar conta da padaria cujo dono há pouco morrera. É astuto e ladrão.

Pedro Malasarte:
- Digam vosmecês o que quiserem, mas o tempo bom já se foi. Não é que os malucos estejam se acabando; os ajuizados, sim, é que estão fingindo maluquice.

Balduíno:
- É uma vantagem. Ninguém engana os outros.

Pedro Malasarte:
- Eu posso contar porque já tenho corrido muita terra.

(Pascoal parece preocupado com alguma coisa muito sua e não ouve o que os companheiros estão conversando. Balduíno bate no seu pé).

Balduíno:
- A gente estava falando do tempo.

Pascoal, estendendo o braço:
- Quem disse que vai chover? Só mesmo chuva...

Pedro Malasarte:
- Os tempos fáceis... Ainda me lembro de um cavalo castanho-escuro que comprei pela metade do dinheiro estipulado. Aquilo é que era animal. Eu cheguei, reparei, reparei e botei preço. O dono emperrou nos vinte e quatro dobrões. - "Pois eu lhe dou agora doze - disse eu - e os outros doze fico devendo". Ele respondeu: - "‘Se gostou, leve o cavalo e leve com o cabresto..." Depois de anos, tornando ao lugar, quis pagar o restante, mas o quê? - Não houve jeito. - "Se vosmecê paga - explicou - quebra o contrato: não fica devendo os doze dobrões!"

Pascoal:
- Mas quem disse isso foi o homem ou foi o cavalo?

Pedro Malasarte:
- Assim era tudo o mais. Já comi em muito rancho, do bom e do melhor, só dizendo: - "Um almoço à altura do meu dinheiro". O dono trazia cozido, assado e frito; boi, porco e galinha, às vezes vinho. Na hora de pagar, a moeda de cobre que trouxesse, eu botava na mão dele. - "Esse almoço não se paga com vintém" - dizia. - "Meu senhor: pedi comida à altura de meu dinheiro!" E acabava tudo numa boa risada.

Balduíno:
- Na casa de meu pai, nem mesmo vintém eu pagava.

Pascoal:
- E era o pai de vosmecê, seu Balduíno?

Pedro Malasarte:
-
Hoje em dia, não há mais larguezas, não. Só se vê apego às coisas, o que se tem na mão e até no bestunto, mesmo que seja uma bobagem. E quem quiser mudar o mundo, cuidado com a cruz! Um dia em Chã Pelada, sentei-me na porta de um hotel, doido para comer o cozido que estava recendendo cá fora. Enquanto esperava, fiz uma boquinha comendo um taco de pão. Pois não é que o hoteleiro veio cobrar, dizendo que o cheiro era mais difícil de fazer do que o gosto? Também não tive dúvida, puxei uma prata e com ela bati no chão. - "Está aí, meu senhor, fica o tinido pelo cheirado!

Pascoal:
- Espero em Catolé cobrar até os alinhavos. Se me chamaram é porque podem pagar alfaiate. Também não é todo dia que se encomenda roupa nova. Tem de se aproveitar.

Balduíno:
- Como padeiro, o que posso fazer é cortar no peso. O finado que lá estava caiu na besteira de diminuir tanto no peso como no tamanho. E foi de praga que morreu.

Pascoal:
- Não é hora mais de conversa, minha gente. Vamos tratar de comer.

(A essa voz, todos se levantaram e abrem os surrões, à cata de alguma coisa de comer).

Pascoal:
- Está o que resta da viagem: uma quarta de carne. E seca que nem sola. (tira a carne)

Balduíno:
- Eu só tenho farinha. E um punhado grande. (Tira a sacola de farinha)

Pedro Malasarte:
- Com a franqueza que vosmecês conhecem: não vejo mais nada. Também uma noite só não chega para matar.

Pascoal:
- Dá para todos: o pão de um sempre é comido por dois...

Pedro Malasarte:
-
Somos três.

Balduíno:
- Temos ainda a farinha. E para não haver queixa, faz-se um acordo. Nós dois, eu e seu Pascoal, damos a bóia, e seu Pedro prepara. Assim ninguém come de caridade.

Pedro Malasarte:
- Está direito, seu Balduíno. Vosmecê é um cristão.

(Pedro Malasarte começa a procurar as três pedras da trempe. Arma-se. Depois vai por longe, à cata de gravetos. Sai da cena, ficando sós os outros companheiros de viagem)

Balduíno, baixando a voz:
- Escute, seu Pascoal: essa bóia chega muito mal para dois. Para três, contando esse maldito do Pedro, ficamos a nenhum.

Pascoal:
- Eu tinha visto, seu Balduíno. Mas o homem estava aqui e fazendo cruz...

Balduíno:
- Deixe por minha conta que eu embrulho esse sujeito.

(Pedro Malasarte volta trazendo os gravetos que são arrumados na trempe. Logo mais o fogo é ateado fazendo chama. Espera um tempo que se vejam brasas. Enquanto isso, Balduíno faz uma proposta).

Balduíno:
- Seu Pedro: Eu estava pensando que o melhor é assar a carne e guardá-la para amanhã. Já imaginou vosmecê cada um comendo agora um taquinho de nada e caindo no caminho de manhãzinha com a barriga vazia? Vamos dormir o nosso sono primeiro. Vosmecê está de acordo?

(Pedro Malasarte toma de Pascoal a carne, mete-a num espeto de pau e começa a assar. Faz que não ouve a Balduíno)

Pascoal:
- Seu Balduíno está falando, seu Pedro!

Balduíno:
- Indago se está de acordo com a idéia que disse a vosmecê.

Pedro Malasarte:
- É mesmo: amanhã é melhor. A gente come com mais vontade.

Balduíno:
- Mas tem isso, seu Pedro: só come da carne quem sonhar o sonho mais bonito. Cada um que durma bem e sonhe melhor. Está direito?

Pedro Malasarte:
- Idéia grande, seu Balduíno.

(Ainda Pedro Malasarte continua a assar, enquanto os companheiros se preparam para dormir, fazendo dos surrões os próprios travesseiros. Acabado o trabalho, Pedro Malasarte cobre a carne com uma coité. Depois vai, por sua vez, deitar-se. Escurece. Durante um tempo há um grande silêncio. Logo ouvem-se roncos de quem dorme. Então Pedro Malasarte levanta a cabeça, apura o ouvido. Não há dúvida: Pascoal e Balduíno estão ferrados no sono. Com cautela Pedro Malasarte senta-se e ali mesmo estende o braço até alcançar a carne que ele come regaladamente com farinha. Ainda bebe uns goles d’água do cantil. Feito isso, com toda a tranqüilidade vira-se para o outro lado e dorme. Ouvem-se agora não dois e sim três, roncando. Um novo silêncio. É de se supor que já é de madrugadinha pela claridade que faz no proscênio. Pascoal e Balduíno põem-se de pé ao mesmo tempo. Vêem Pedro Malasarte dormindo e riem gostosamente)

Balduíno:
- De qualquer jeito nós dois repartimos a carne. Não garanto que o sonho de vosmecê seja mais bonito.

(Pedro Malasarte acorda e senta-se disposto a escutar os sonhos dos companheiros).

Balduíno:
- Vá, seu Pascoal: conte o sonho.

Pascoal:
- Custei a sonhar, seu Balduíno. Agorinha de manhã é que meu anjo da guarda veio e disse que o Santo Pai estava esperando por mim. Então o Anjo abriu as asas e me levou para o céu...

Pedro Malasarte:
-
E vosmecê não ficou com uma peninha da asa do anjo?

Balduíno:
- Que foi bonito, foi, sendo sonho de zeladora das almas. O meu não foi assim. Sonhei que o chifrudo chegava e dizia: - "Balduíno, meu negro, está na hora; vamos que a corte do inferno está em festa para receber mais um condenado..." Sem nenhum medo peguei-me pelo rabo dele e lá fui.

Pedro Malasarte:
- Sonho bem sonhado para padeiro. Costume da fornalha acesa...

Balduíno:
- Agora o de vosmecê.

Pedro Malasarte, levantando-se:
- Pelo que ouvi já me acho sem a carne. Mas sonhei, e é bom que eu conte também o sonho que tive. Mas o meu abarcou o céu, a terra e o inferno e por isso fiquei tão assombrado que ainda as pernas me tremem. Pois foi assim: sonhei que tinha perdido os amigos e estava sozinho neste mundo de Cristo. Seu Pascoal tinha ido para o céu, mas não foi o anjo da guarda que o carregou para as alturas. Foi mesmo o Padre Eterno que se lembrou dele e chamou Jacó. - "Vem cá, Jacó, vai buscar aquela tua escada e desce para procurar Pascoal" Jacó mais que depressa botou a escada de nuvem abaixo até chegar neste cantinho onde Pascoal estava dormindo. Aí é que os anjos vieram e arrebataram Pascoal que mal pisava nos degraus daquela escada de floco de neve... Lá do topo, estava esperando o Padre Eterno, que abriu os braços e recebeu Pascoal: - "Chega, Pascoal, teu lugar é aqui. Para teus filhos e netos eu dou a terra onde tu dormias". E então seu Pascoal ficou no céu.

Balduíno:
- Até no céu há proteção. Seu Pascoal merece lá tudo isso?

Pascoal:
- Vosmecê está mas é com inveja.

Pedro Malasarte:
- Ninguém pode mandar na vontade de Deus Nosso Senhor, seu Balduíno. Já com vosmecê (Aponta para Balduíno) foi diferente. O chifrudo veio, não a pé, mas no carro de fogo que uma vez serviu a Elias. Não sei como Belzebu achou esse carro tão antigo, juntamente com as parelhas dos animais. Mas achou e levou nele seu Balduíno, que estava um pouco espantado com aquele calorão. Então o chifrudo disse: - "Balduíno, você não parece padeiro! Esse foguinho não é nada comparando com o das caldeiras". Nas profundezas, seu Balduíno encontrou o pai e a mãe e foi como se estivesse mesmo em casa. Se Eliseu ficou com a capa de Elias, seu Balduíno recebeu de presente um espeto de três pontas para espetar o próprio traseiro. Assim, perdi os dois. E agora, meu São Serafim, o que vai ser de mim?

Pascoal:
- Está aí seu Balduíno com um espeto bem empregado. Cada um pena por onde peca...

Balduíno:
- Sai daí, safado!

Pedro Malasarte:
- Foi então que me lembrei da carne. Não havera de comer sozinho. Gritei para cima: - "E a carne, seu Pascoal?" - "Carne coisa nenhuma, seu Pedro. Quem tem um pedaço do céu tem tudo"’. Depois virei-me para as profundas: "Seu Balduíno, que destino dou à carne?" - "Não estás besta, não, seu Pedro? O maná aqui dá para empanzinar". Então não tive outro jeito: peguei da carne e fui comendo. Comendo e chorando por ter ficado sozinho...

Pascoal:
- Foi no sonho?

Pedro Malasarte, levantando a coité:
- No sonho mesmo!

Balduíno:
- E a gente vê que os tempos, como lá diz seu Pedro, estão mesmo ruins.

Pedro Malasarte:
- Muito ruins, O povo se acostuma com os possuídos, seja um caroço chupado, seja um bicho de pé. O melhor é não se ter nada de seu.

(Os viajantes retomam o caminho e desaparecem do proscênio. Com a saída deles, o pano levanta imediatamente e continua o terceiro ato, em cenário convenientemente ajustado às novas cenas).


(Rabelo, Sílvio. "Pedro Malasarte". Recife, 1961, p. 95-103. Em Dantas, Paulo (org.) Estórias e lendas do norte e nordeste)

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