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Agosto 2001
Ano III - nº 36

SÃO BARTOLOMEU
Carta a Heitor Guimarães

Li tua última e brilhante Hebdomada em que me convocaste, por nímia generosidade, a dizer sobre a superstição que o povo tem com o dia 24 de agosto e extensivamente com São Bartolomeu.

Tal superstição, creio eu, como tu, deva ligar-se até certo ponto ao acontecimento do morticínio dos huguenotes, e, nesse sentido, conheço opiniões de alguns folcloristas.
[1]

Também em Portugal, como em outros países da Europa, o povo acredita que no dia de São Bartolomeu anda o diabo às soltas, como podemos ver disto de L. de Vasconcelos: "Dia 24 [de agosto], São Bartolomeu. Este dia é aziago, porque anda o diabo às soltas", contudo supõe-se geralmente que cada banho de mar tomado neste dia vale por sete banhos. Em Matosinhos, assisti em 1880 a estes folguedos populares. Na véspera à noite e no dia seguinte de manhã, chegaram bandos de gente do campo, tocando viola, dançando e cantando. Em seguida dirigiram-se ao mar a banharem-se.

Eis várias cantigas (a São Bartolomeu) que recolhi de diferentes partes:

O' vida da minha vida
Adeus, adeus, vou pra o mar
Eu venho muito suado
Agora vou refrescar

Senhor São Bartolomeu
Vós fizeste-la "chapada"
Caçaste – lá gente junta
Mandaste lá trovoada

Seguem-se outras quadrinhas.

"As crianças antes de terem sete anos, levam-nas a São Bartolomeu do Mar, onde há uma capela, - para depois não terem gota.

Lavam-nas no mar. Isto no dia do santo. Desde o dia de São Bartolomeu não se tornam a comer amoras de silvas, porque o diabo... nelas ficam moles."

"São Bartolomeu tem preso o diabo aos pés, mas, nesse dia, este solta-se, e é preciso ir visitar o santo sete vezes para a gente se livrar de certos males."

Teófilo Braga também publica no seu Cancioneiro popular outras quadrinhas do povo a São Bartolomeu.

Vemos daí que há um ciclo de trovas e cantares a este santo; ao qual ciclo deve pertencer a quadrinha que as crianças dizem em nosso país e que publicaste:

São Bartolomeu
Comeu com o judeu
Deixou um bocado
Que o gato lambeu

Confrontando o conceito desta quadra com a superstição lusitana de que Sâo Bartolomeu tem preso o diabo aos pés, vê-se logo por que aparece o santo comendo com o judeu, e por que se fala também no gato que é identificado com o demônio ou coisas diabólicas (haja vista o gato preto).

Mas, se no dia de São Bartolomeu anda o diabo às soltas, por outro lado o povo acredita que o santo é infesto a satanás, como diz Camilo nas Noites de Lamego, p. 162, : "Aos 24 de agosto, na povoação chamada Cavez, cuja ponte, sobre o Tâmega, extrema pelo norte as duas províncias do Minho e Trás-os-Montes, celebra-se a festa de São Bartolomeu, o santo gravemente infesto a satanás. Vêm aqui, de muitas léguas em volta, dezenas de criaturas obsessas. É para notar que raro homem ali vá incubado do demônio. As mulheres é que, por cima de muitas outras penas, sofrem o dissabor de serem visitadas pelos espíritos infernais, caso único, a meu ver, em que os sobreditos espíritos se mostram espirituosos."

De modo que São Bartolomeu, infesto ao diabo e que o tem preso aos pés, só no seu dia, 24 de agosto, é indulgente com ele, soltando-o.

Tudo isto, de acordo com o sentimento supersticioso do povo, é, perfeitamente, lógico.

É esse mesmo povo que faz com que São João, no seu dia, adormeça, para que o mundo não se arrase pelo fogo. O que parece exato, até averiguação mais aprofundada, é que primeiramente São Bartolomeu seria só contrário aos espíritos malignos.

Dado o massacre dos huguenotes, o povo teria entendido que nesse dia o santo soltou o demônio, dando-se a hecatombe?

Quando o fenômeno meteorológico das ventanias, tenho a dizer que isto se prende à crença popular de que o diabo anda em companhia dos ventos, dos vendavais, dos redemoinhos. Pura influenciação.

Isto também na Europa, como diz L. de Vasconcelos, acontece em Portugal, e sabemos que, de igual modo, no Brasil:

"Cuida-se que no "balborinho" do vento ["borborinho"] vão, não tanto o diabo, as almas penadas, que não entraram no céu por não fazerem certas restituições aos vivos".

E em outro passo diz:

"Quando se produz o redemoinho de vento a que o povo na Beira Alta chama "borborinho", acredita-se que então anda no ar o diabo ou as bruxas ou qualquer coisa má."

"Quando faz muito vento diz-se que morreu algum judeu ou algum escrivão".

Já vemos, portanto, que andando o diabo às soltas no dia de São Bartolomeu, há de vir em companhia do vento. No Brasil coincidentemente o tempo é de ventanias, como sabemos.

Em França, há o seguinte provérbio: "Pluie de la Saint-Barthélemy, chacun et fait fi".

Vemos aí o nome do santo ligado a um fenômeno meteorológico. E na Espanha diz-se "Para que la otoñada sea buena por San Bartolomé las aguas primeras".

Já vimos, como em Portugal, que as águas do mar beneficiam contra males, no dia do santo.

Se o dia de São Bartolomeu é aziago, não o é menos na Alemanha a noite de Santa Valburga como informa Castilho, em nota da sua tradução do Fausto.

A véspera ou vigília de Santa Valburga (Walburg era alemão) era grande festança popular em Heidenheim. Por isso talvez é que o poeta se lembrou de chamar a esta balbúrdia de feiticeiras, duendes e trasgos – Noite de Santa Valburga, sendo que a bem-aventurada nada tinha com bruxas nem demônios. Na noite de 30 de abril para o 1º de maio (a festa da santa é a 1º de maio) os camponeses no pressuposto de que as feiticeiras andam por essas horas fazendo as suas correrias, giram com archotes e aos tiros por toda a parte, a ver se as afugentam. Por isso Goethe, em seu poema, se refere à noite de Santa Valburga, ou simplesmente de Valburga.

O povo, em geral, inventa santos que nunca existiram: São Nunca, São Serejo, São crescente, São Levedo, etc.

Benzendo a massa do pão para que ela cresça, chamam as mulheres portuguesas por São Crescente e também por São Levedo (mitos verbais, tendo em vista as palavras "crescer" e "levedar").

E ainda os Reis Magos foram elevados à categoria de santos, só porque o seu dia é santificado. O povo sempre diz os "santos Reis".

Nada mais posso, tão de momento, dizer-te sobre o assunto que demanda tempo e averiguações.


Agosto - 1919


Notas

[1]. Mas o mesmo não creio hoje, pois sei que essa tradição é anterior ao morticínio dos huguenotes, tanto assim que na Chrestomatia Arcaica, de J. J. Nunes (2ª edição, p. 154), encontra-se um extrato do Livro da Noa de Santa Cruz de Coimbra, em Sousa (século XV), que diz assim:

"Era de MCCC e noventa e quatro anos, vinte e quatro de agosto, em féria quarta, em dia de São Bartolomeu, tremeu a terra e por tal guiza que as campas se tangião nos campanarios de seu e muytas cazas cayron otras se abriron e ficaron para cahir; por todas las partes do mundo foi este tremor e omêes que estavão em fortes cazas fugião dellas com medo que avião e esto foi ante que se posesse o sol, durou por espaço dua quarta d'ora do dia..."

A antigüidade de tão pavoroso acontecimento indica claramente a da tradição que gerou no espírito popular a crendice de que o diabo anda às soltas no dia de São Bartolomeu.


(Gomes, Lindolfo. Nihil novi...)

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