Agosto
2001
Ano III - nº 36 |
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No seu trabalho sobre Maceió - Cem anos
de vida social - informa Manuel Diégues Júnior que a festa em honra a Bom Jesus dos
Martírios, velha de mais de cem anos, era anunciada, nos meados do século passado, numa
evidente profanação, por bandos mascarados. Reproduz uma notícia publicada no Diário
das Alagoas, de 24 de julho de 1861:
"No dia 4 de agosto próximo futuro haverá bandos de mascarados para anunciar a
festa do Glorioso Bom Jesus dos Martírios".
No aviso aludido informava-se ainda ao público que no pátio dos Martírios não se
permitiria o ingresso dos escravos, durante as solenidades... Os cativos não podiam, para
esquecer os seus sofrimentos, distrair-se um pouco com os fogos de vista, os cosmoramas, a
retreta, os anjinhos da procissão...
O coronel Levino Costa, escrivão do júri e das execuções criminais, relembrava, em
1918, pouco antes de morrer, certo delegado de polícia de Maceió, que, no fim do século
XIX, não consentia que os moleques se sentassem nos bancos das praças quando nelas havia
retreta. Os bancos - afirmava ele, convencido - "eram para os que pagavam
impostos", como se todas as pessoas, mesmo as mais pobres e mais modestas, não
contribuíssem, direta ou indiretamente, para os cofres públicos...
Última década do século XIX. Em princípios de julho, mal terminados os festejos
joaninos, a população de Maceió - de Maceió, não! de grande parte do Estado de
Alagoas - começava a falar na festa dos Martírios e a se preparar para ela. Os pobres
pais de família, os maridos sem grandes recursos, os senhores de engenho e proprietários
agrícolas no Pilar, São Luiz do Quitunde, Atalaia, Santa Luzia do Norte, Alagoas,
Murici, Viçosa e União, torciam as orelhas com os pedidos de dinheiro para vestidos,
chapéus e sapatos, pois somente deixava de comparecer à festa quem estava doente, de
luto ou na pindaíba...
Esses festejos foram relembrados num livro de versos futuristas do doutor Virgílio
Guedes, publicado em julho de 1930, com prefácio do saudoso poeta conterrâneo doutor
Jorge de Lima.
Naqueles tempos o largo dos Martírios vivia abandonado, cheio de jurubebas e mussambê,
com poças de lama aqui e ali. A Intendência. porém, nos começos de outubro mandava
limpá-lo cuidadosamente. Mal se iniciava o mês de novembro construíam-se dois coretos
para as bandas de música Minerva e Artistas.
A Sociedade Filarmônica Minerva, com sede à rua do Comércio, 111; mais ou menos onde
negociam hoje Carvalho & Pedrosa, era dirigida, em 1896, pela seguinte diretoria:
João Martins Ferreira, presidente; Serapião Camerino, vice; Adolfo Guimarães e Leopoldo
Macedo, secretários; Manoel Rodrigues de Oliveira Lima, tesoureiro; José Valente,
arquivista; Justino Figueredo e Macário Vieira, diretores. Regia a música o professor
Benedito Silva, Benedito Piston, como era conhecido.
A diretoria da Sociedade Recreio Filarmônico Artistas era a seguinte: Coronel Jacinto
Paes Pinto da Silva, presidente; Cândido de Almeida Botelho e Afonso Vasconcelos
Gonçalves, diretores. A sede, ao que me informaram, era na entrada da Cambona (rua
General Hermes). O mestre da banda de música era o professor Valério Pinheiro.
Ambas desapareceram com o século XIX.
Depois dos coretos iam surgindo os botequins para os caldos de cana do Antônio França
Morel e do Sabino; o cavalinho do Petronilo, com um realejo mais velho do que a Sé de
Braga, assassinando trechos do Barbeiro de Sevilha, do Guarani ou dA
Africana; a Casa Inglesa, onde se bebia esplêndida gengibirra; a mesa do leilão em
benefício da igreja de Bom Jesus. Certa noite apregoaram uma surpresa, afinal arrematada
depois de muitos lances. Era uma caixa de sapatos, enfeitada de papel dourado, na qual
encontrararn uma ninhada de oito ratos recém-nascidos...
A meninada corria ansiosa para o cosmorama do Pedro Vandeval, localizado no andar térreo
daquele velho sobrado junto ao Palácio do Governo, onde está hoje, mal instalada a
Prefeitura de Maceió. A entrada custava 100 réis. Exibiam-se vistas estrangeiras,
através de uma empanada de algodãozinho da fábrica de Fernão Velho.
Durante a festa, o cruzeiro, em frente à igreja, era ornamentado diariamente com flores
naturais. À noite iluminavam-no com velas e lanternas de papel de seda. No largo enfiavam
ouricuris arrancados no Peperipedra, no Pau darco, no Reginaldo, na Chã de
Bebedouro, neles colocando lanternas e bandeiras de várias cores.
Organizavam-se as comissões encarregadas dos festejos de cada noite: dos solteiros, dos
casados, dos funcionários públicos, do comércio de Maceió, do de Jaraguá, das moças,
dos artistas. Pelo Correio Mercantil, de 17 de novembro de 1895, a comissão
encarregada da noite dos caixeiros - Júlio Lobo, Manuel Souto Fontan e José Maria de
Melo - apelava para os demais membros da classe afim de contribuírem para o maior
brilhantismo das solenidades.
Com a igreja repleta, às sete e meia da noite, iniciava-se a novena, com orquestra
dirigida pelo mestre capela José Barbosa de Araújo Pereira, residente à rua da
Floresta, nº 7. As músicas tocadas anualmente eram as mesmas, jamais foram mudadas. O
capelão era o padre Manuel Antônio da Silva Lessa, que morreu monsenhor. Servia como
sacristão "seu" Liberato, que tinha um parafuso de menos ou muito frouxo, e de
quem o comendador Firmo Lopes até pouco tempo narrava coisas incríveis.
Depois da novena saíam os devotos, com os filhos pequenos, para comprar sequilhos, broas
de goma, alfenim, manuês, cocada, roletes, pão-de-ló, queijadinha, amendoim cozido ou
torrado, pintinguirra nos tabuleiros das pretas vendedoras, iluminados com mexiriqueiros
de querosene, dos quais se desprendia terrível fumaça, enquanto os foguetes subiam aos
céus, com risco de furar a cabeça de quem se divertia, como aconteceu, certo ano, com
distinto moço de conhecida família.
No domingo celebrava-se missa cantada com grande solenidade e muitas girândolas de
foguetões, além de bombas em quantidade. Às 4 da tarde iam chegando as irmandades,
alertadas pelos sinos que batiam, que chamavam, desde às 3 horas.
Aparecia a do Livramento, vinda pela rua da Boa Vista, com opa azul-celeste: Sidrônio
Herculano de Santa Marta, Júlio Lopes Ferreira Pinto, Antônio Lopes Viana e outros.
Na de São Benedito, entrando no largo pela rua do Apoio, viam-se, entre outros, os
seguintes irmãos: Leonêncio Novais de Castro, Noberto Braga, João da Silva Antunes.
A de Nossa Senhora do Rosário, com opas amarelas, vinha lentamente pela rua do Sol:
Manuel Simões, único sirgueiro da cidade; mestre Félix Camões, ganhador de profissão,
que tinha uma vista perdida, o que justificava a alcunha; Olímpio Raposo, muito magro,
proprietário de um sebo afreguesado; Júlio Mesquita, ensaiador de pastoris, antecessor
do Severiano Cândido; Joaquim Francisco Moreno, carteiro dos Correios e diretor do jornal
O trocista.
Pela mesma artéria surgia depois a confraria do S. S. Sacramento: doutor Sócrates de
Morais Cabral; major Semeão, que residia no Jacutinga; doutor Manuel Lopes Ferreira
Pinto, recém-formado; Antônio Pinto; mestre Teodósio, sapateiro na rua do Comércio,
que fora rico e tudo perdera, sendo na época o fornecedor dos mais finos calçados à
parte rica da população; Braz Próspero Jeová da Silva Caroatá, sub-delegado do Farol,
que se encarregava de arranjar papéis para casamentos.
A dos Martírios estava formada na sacristia: Firmo da Cunha Lopes, futuro comendador pela
Santa Sé; doutor Francisco Pontes de Miranda; Joaquim Pereira da Silva; Francisco José
dos Passos, marceneiro, com oficina na rua do Sol, que seria substituído, na irmandade,
pelo filho, telegrafista Joaquim José dos Passos; Hemetério de Vasconcelos Bringuel;
José Augusto da Silva Cardoso.
Saía a procissão, ao repicar dos sinos, sendo acompanhada pelo governador do Estado,
secretários, intendente municipal, altos funcionários, além da guarda de honra do
Batalhão Policial, com banda de música, enviada pelo comandante, coronel Joaquim
Rodrigues Pereira, veterano do Paraguai; e muitos anjos, além de pessoas com os pés
descalços, em pagamento de promessas.
Ao passar o cortejo em frente ao atual palácio do governo, então em construção, Lúcio
Suteriano, Voluntário da Pátria que fizera a campanha contra Solano Lopez, já muito
bêbedo, encostado a um poste da Companhia de Luz, gritava, repetindo o que dissera muitas
vezes sob a influência do álcool: "No Brasil não há soldados suficientes para
prender todos os ladrões. Sou Liberal! Viva o imperador!" Perto dele, também
alcoolizado, Elias Bacalhoada ridicularizava o "Pensamento", tipo popular que
tocava, na sua flauta recém-lavada na sarjeta, a última valsa do Benedito Piston.
À meia noite soltavam os fogos de artifício, fabricados por Agostinho da Costa Mendes,
na rua dos Fogueteiros, Ildefonso de Araújo Lima, José Correia de Araújo, Ricardo
Francisco da Silva, artistas mais conhecidos e mais afreguesados da capital, além dos
vindos de Alagoas e do Pilar, produtos das oficinas de Augusto José Amâncio, Ernesto
José da Costa, Matias Gomes do Nascimento e outros pirotécnicos. Primeiro punham fogo
nas rodas e nos bonecos, logo depois num navio que corria num arame, tudo isso no meio de
uma fumaceira infernal e da barulhada, assovios, gritos e vaias dos moleques, quando
enguiçava uma das peças. Terminava com um grande painel, no qual aparecia a efígie de
Bom Jesus, enquanto repicavam os sinos do templo fronteiro.
Em 1891, governando o Estado o coronel Pedro Paulino da Fonseca, era chefe de polícia o
dr. Francisco de Paula Leite e Oiticica. Não havia entusiasmo, havia loucura pelas duas
bandas de música, acima citadas. Cada qual tinha o seu grupo de admiradores, de
entusiastas, numa loucura coletiva. Pessoa alguma podia ser neutra: tinha de optar por uma
delas, se não queria ser apontado como inimigo das duas...
Na noite do domingo, depois da procissão e dos fogos, foi aumentando o entusiasmo, os
ânimos foram se exaltando. As músicas tocaram sem parar, sem repetir partitura, num
desafio sui-generis... De repente explodiu o barulho - correrias, pancadas, quedas,
gritos, o diabo! Um exaltado partidário da Minerva, que era a melhor das duas,
incontestavelmente, armado com a lança do estandarte, invadiu o coreto, onde a outra
tocava, tentando furar o bombo, no que foi impedido pelo senhor Manuel Boaventura, que
apanhou terrível sova, adoeceu dos pulmões, em conseqüência, e morreu meses depois. As
casas próximas, da rua do Sol, Boa Vista, Comércio e Apoio se encheram dos que fugiam
receosos, inclusive de músicos, procurando abrigo seguro. No outro dia debaixo da cama do
senhor Honório de Albuquerque, encontraram um trombone...
Às 10 da manhã da segunda-feira ainda tocavam as duas músicas e ninguém podia prever
como terminara a disputa. Interferiu sensatamente o chefe de Poificia e saíram ambas ao
mesmo tempo, tocando. Acabara-se o barulho...
Meio-dia, sol a pino. O senhor Manuel Gonçalves Martins, português estabelecido com uma
padaria na rua do Comércio, perto do largo, ouviu uma gritaria e distinguiu bem o seu
nome. Foi ver que era, saber quem o chamava em altos brados. Ao chegar ao meio do largo
soltou boa gargalhada: era o Giovanni Puzzi, engraxate italiano, filho legítimo do deus
Baco, que ainda curtia a carraspana. Acordara, com o sol batendo no rosto, e não
conseguira se orientar, andando sem direção, tropeçando aqui e ali. Gritava como um
desesperado:
- Martin! Me cuda, Martin me cuda que eu tá perdito!
Auxiliado por outras pessoas Martins levou o pau dágua para o seu estabelecimento
onde recolheu a caixa, as escovas, as latas de graxa, o pano de lustrar.
Alguns anos depois dessa barulhada, a festa foi perdendo a animação. Continuaram rezando
a novena, mas a parte externa perdeu o brilho. Nunca mais teve esplendor a festa dos
Martírios, ainda hoje lembrada com saudade...
(Lima Júnior, Félix. Em Boletim da Sub-Comissão Catarinense de Folclore. Ano
VI, nº 22, Florianópolis, janeiro de 1956) |
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