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Agosto 2001
Ano III - nº 36

A PIMENTA

O nome dessa planta provêm do latim pigmentum (de pingere, pintar), que no espanhol tomou a forma pimienta. O seu sentido originariamente era de "matéria corante", passando depois a ter o de "especiaria aromática", restringindo-se, por fim, a ser o designativo do fruto do Piper nigrum, nome científico da pimenta-preta, ou pimenta-da-índia, também conhecida entre nós por pimenta-do-reino, em virtude de, no tempo do Brasil colônia, a importarmos da antiga metrópole, o reino de Portugal [1].

De um dos nomes orientais da pimenta proveio o grego píperi ou péperi, de onde o latim piper, etimologia do italiano pepe, do inglês pepper e do francês poivre, encontrando-se no português, derivadas do latim piper, as cognatas piperáceas (família botânica a que pertence o Piper nigrum, piperácco (adj.), piperato, piperazina, pipérico (adj.), piperina, piperonal, piperonilato, piperonílico (adj.).

As especiarias - as pigmenta - que traficantes árabes e do Mediterrâneo, e depois os portugueses iam buscar na Índia para distribuírem pelos mercados europeus, eram o gengibre, o açafrão, a canela, o cominho, a noz-moscada, a cânfora, o cravo, o cinamomo e essas baguinhas de sabor picante, de tão grande procura que o seu valor excedia o de quaisquer outros produtos vegetais asiáticos. Daí, o termo genérico pigmentum passar a designar exclusivamente a preciosíssima baga, a pimenta preta, excitante do paladar dos povos ocidentais.

Na França, quando se queria exprimir o alto preço de um artigo, dizia-se - caro como pimenta. E, na Idade Média, à falta de metais preciosos, era a pimenta aceita como dinheiro, pagando-se com ela os impostos e os direitos feudais, o que deu origem à locução - pagar em espécie, que, com o tempo passou a ter a significação de pagar em dinheiro
[2].

De longa data, era a pimenta conhecida dos europeus, e a ela referiram-se Teofrasto, Dioscórides e Plínio. Conta-nos o conde de Ficalho, anotador dos Colóquios, de Garcia da Orta, que foram os árabes que a introduziram na Europa medieval. Traziam-na do Malabar, através do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico. Chegava o produto aos mercados ocidentais por um preço elevadíssimo pois "os caminhos eram demorados e, além de numerosas baldeações, as drogas estavam sujeitas a impostos pesados e repetidos"
[3], - O comércio era dominado pelos árabes, no Oriente, e pelos venezianos e genoveses no Mediterrâneo, excitando o tráfico da "especiaria por excelência" a cobiça dos portugueses que "tinham um vivo desejo de o chamar para si". Em 1456, em suas viagens ao longo da costa africana, encontraram eles uma espécie diferente de pimenta - a pimenta-de-rabo - que enviaram para a Flandres, onde, é de crer, não teve boa aceitação. Havendo porém, Vasco da Gama ultrapassado a costa oriental da África, chegou, em 1498, ao "verdadeiro país da verdadeira pimenta" e embarcou em Calicut "os primeiros sacos de pimenta, diretamente carregados na Índia em navios europeus". A essa viagem, seguiu-se a de Pedro Álvares Cabral, que depois de haver estado em Calicut, se dirigiu para Cochim, "a maior fonte de pimenta que há na Índia". Voltando Vasco da Gama, em 1502, àquelas paragens, mandou duas naus à costa de Coulão, onde, "em poucos dias", atestaram de pimenta a granel os seus porões. A despeito dos esforços dos portugueses em pretenderem monopolizar esse comércio, continuaram os "mouros" a contrabandear pelo Levante a droga para a Europa, adquirindo-a em Malaca, depois que aqueles os desalojaram do Malabar. Encontrava-se a ambicionada especiaria em Cananor e mais abundantemente em Calicut, Cochim e Coulão, e nas terras que iam findar no cabo Comorim. - O seu comércio, a princípio, com certas restrições, permitido aos particulares, passou pouco depois inteiramente para o estado, incorrendo em rigorosas penalidades quem, por conta própria, tentasse explorar o negócio. - Nem sempre os lucros compensavam os sacrifícios, bastando perder-se uma nau para acarretar grandes prejuízos, que não eram ressarcidos pelo preço elevado por que se viam forçados a vender a carga dos barcos que conseguiam chegar a salvo ao porto de Lisboa. Havia ocasiões, porém, em que os lucros eram compensadores. Contudo, levando-se em conta as despesas enormes com a administração na Índia, construção de navios, etc., "nós - arremata o conde de Ficalho - chegaremos de certo à conclusão do senhor Oliveira Martins em um de seus estudos, isto é... "que a pimenta foi um mau negócio para o tesouro de S. A." [4]

Demos no Brasil o nome de pimenta a diversas plantas pertencentes a diferentes famílias, isso, naturalmente, porque os seus frutos possuíam o sabor picante do Pipa nigrum. São solanáceas a pimenta-cumari, a pimenta-de-cheiro e a pimenta-malagueta; anonácea, a pimenta-da-costa ou pimenta-de-macaco, e poligonácea, a pimenta-d’água. Das piperáceas, a que pertence a pimenta-do-reino, vegetam no Brasil, entre várias espécies, a pariparoba, o jaborandi e o Piper geniculatum, que, com outras plantas tóxicas, entra na composição do curare, usado pelos índios do Amazonas para envenenar as pontas de suas flechas.

Afrânio Peixoto, em Breviário da Bahia, dedicou uma de suas "breves orações" à "comida baiana", fazendo ali o elogio da pimenta, abundantemente empregada na culinária de sua terra. Deve-se, porém, observar que essa pimenta é das espécies do gênero capsicum, da família das solanáceas, principalmente a cumari, que, segundo o mesmo autor, significa em tupi - "alegria do gosto", ou, na interpretação de Teodoro Sampaio - "o que excita a língua".

O vocábulo pimenta contribuiu para o léxico com os seguintes derivados: apimentar, apimentado, pimental, pimentão (aumentativo e nome de uma solanácea), pimenteira, pimenteiro, pimentinha (diminutivo e sinônimo de pimenta-cumari), pimento (planta das solanáceas). - Pimenta, Pimental, Pimentas, Pimenteira e Pimentel são topónimos de vários lugares e acidentes geográficos de diversos Estados do Brasil. - Pimenteira foi também o nome de uma tribo de indígenas do Piauí. - Pimenta e Pimentel são sobrenomes de origem geográfica
[5].

Tem ainda o termo pimenta o sentido figurado de "malícia" e "erotismo", bem como os seus derivados apimentar (verbo) e apimentado (adj.), o de "tornar malicioso" e "malicioso" - "apimentar uma frase", "anedota apimentada".

Como a mistura de sal com pimenta moída tem a coloração acinzentada, emprega-se a expressão sal e pimenta no sentido de grisalho, como se diz do cabelo preto mesclado de fios brancos. Dá-se também a denominação de pimenta-do-reino ao cabelo encarapinhado.

E, finalmente, encontra-se em nossa paremiologia o provérbio - "pimenta nos olhos dos outros não arde", de fácil sentido na sua aplicação.

Recolheu José Maria de Melo
[6] a seguinte adivinha, cuja resposta é - pimenta-do-reino:

Sou velha, preta, engelhada;
Na sala ninguém me quer,
Mas na cozinha sou chamada.

E a variante:

Eu vim de longe terra,
Negrinha, preta, engelhada;
Na cozinha sou querida,
Na sala sou desprezada.

Por isso mesmo, porque a pimenta preta fosse mais desejável na cozinha que na sala, saíram portugueses e espanhóis à sua procura e descobriram novas terras e o caminho da Índia, e realizaram a primeira viagem de circunavegação.


Notas:

[1]. Segundo autores citados pelo conde de Ficalho, nas anotações aos Colóquios dos simples e drogas da Índia, por Garcia da Orta, ed. da Academia Real das Ciências de Lisboa, Lisboa, 1895, v. II, p. 251. - "as palavras (pimenta e pimienta) portuguesa e espanhola... derivam-se de pignmentum, que na baixa latinidade designou um vinho aromatizado e carregado em cor, pigumentatum, com diversas especiarias, depois passou a designar as especiarias, e depois a principal delas".

[2]. Larousse, Grand Dict. Univ. du XIXe Siécle. - Espécie, anteriormente espécie, de onde especiaria, significava substância e era também o nome de uns confeitos. Conforme Littré (Dict. de la Langue Française), outrora na França o litigante que obtinha ganho de causa, presenteava o juiz ou o relator do processo com certa quantidade dessa gulodice. Depois, o presente passou a ser efetuado em dinheiro, e, ato voluntário, tornou-se mais tarde, taxa obrigatória. - Há quem julgue tenha sido daí que o termo espécie, na expressão acima citada, tomou o sentido de dinheiro, na linguagem bancária.

[3]. Nas primeiras páginas de Fernão de Magalhães, de Stefan Zweig, encontra-se uma síntese histórica do trajeto das especiarias - notadamente da pimenta - em busca dos mercados europeus.

[4]. Além da pimenta preta, existia no Oriente a pimenta longa, esta muitíssimo mais cara que a outra, pois "vinha de Bengala, e de regiões para além dos Ganges, isto é, dos lados de Quedá". O conde de Ficalho, em sua Flora dos Lusíadas, Lisboa, 1880. p. 89, examinando as passagens dos cantos IX, 14, e X, 123, diz que o poeta aludia, na primeira, à pimenta preta, e, na segunda, à pimenta longa.

[5]. Com relação a Pimentel, diz Antenor Nascentes (Dic. Etim. da língua portuguesa, t. II (Nomes próprios), Rio, 1952: "Trata-se evidentemente de um diminutivo de Pimenta, velho na língua". Acrescenta que Leite de Vasconcelos achava ser de provável origem italiana, uma vez existir Pimentel na Itália como nome de lugar. Ao parecer de dona Carolina Michaelis, trata-se de uma alcunha aplicada a quem tinha "rosto vermelho" ou "nariz de pimentão". Cita ainda A. Nascentes a informação de Sanches de Baena, de que Pimentel "foi alcunha posta por Dom Afonso III a seu moço fidalgo Vasco Martins, de Novais, por sua esperteza e alacridade de ânimo". - Cf. Rosário Farani Mansur Guérios, Dic. Etim. de Nomes e Sobrenomes, Curitiba, 1949.

[6]. Enigmas populares, Rio de Janeiro, 1950, p. 88-89.


(Pereira, Carlos da Costa. Em Boletim da SubComissão Catarinense de Folclore. Ano VI, nº 22, Florianópolis, janeiro de 1956)

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