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Agosto 2001
Ano III - nº 36

O RABICHO DA GERALDA

I

Eu fui o liso Rabicho,
Boi de fama conhecido
Nunca houve neste mundo
Outro boi tão destemido.

Minha fama era tão grande
Que enchia todo o sertão
Vinham de longe vaqueiros
Para me botarem no chão.

Ainda eu era bezerro
Quando fugi do curral
E ganhei o mundo grande
Correndo no bamburral.

Onze anos eu andei
Pelas caatingas fugido;
Minha senhora Geralda
Já me tinha por perdido.

Morava em cima da serra
Onde ninguém me avistava,
Só sabiam que era vivo
Pelo rasto que eu deixava.

II

Saí um dia a pastar
Pela malhada do Xisto,
Onde por minha desgraça
Dum caboclinho fui visto.

Partiu ele de carreira
E foi por ali aos topes
Dar novas de me ter visto
Ao vaqueiro José Lopes.

José Lopes que isso ouviu
Foi gritando ao filho João:
- "Vai me ver o Barbadinho
E o cavalo Tropelão.

"Dá um pulo no compadre
Que venha com seu ferrão,
Para irmos ao Rabicho
Que há de ser um carreirão".

Foi montando o José Lopes
E deu linha ao Barbadinho;
Tirando inculcas de mim
Pela gente do caminho.

Encontrou Tomé da Silva
Que era velho topador;
- "Dá-me novas do Rabicho
Da Geralda, meu senhor?"

"- Homem, eu não o vi:
Se o visse do mesmo jeito
Ia andando meu caminho
Que era lida sem proveito".

"- Pois então saiba o senhor,
A coisa foi conversada,
A minha ama já me disse
Que desse boi não quer nada.

"Uma banda e mais o couro
Ficará para o montório,
A outra será pras missas
Às almas do purgatório".

Despediu-se o José Lopes
E meteu-se num carrasco;
Dando num rasto de boi
Conheceu logo o meu casco.

Todos três muito contentes
Trataram de me seguir,
Consumiram todo o dia
E à noite foram dormir.

No fim de uma semana
Voltaram mortos de fome,
Dizendo: "O bicho, senhores,
Não é boi; é lobisome".

III

Outro dia eu malhei
Perto duma ribanceira,
Ao longe vi o Xerém
Com seu amigo Moreira.

Arranquei logo daí
Em procura dum fechado,
Juntou atrás o Moreira
Correndo como um danado.

Mas logo adiante esbarrei
Escutando um zoadão;
Moreira se despencou
No fundo de um barrocão.

"Corre, corre, boi malvado,
Não quero saber de ti,
Já me basta minha faca
E a espora que perdi".

Alevantou-se o Moreira
Juntando todo o seu trem,
E gritou que lhe acudisse
Ao seu amigo Xerém.

Correu a ele o Xerém
Com muita resolução;
"- Não se zangue, sô Moreira,
Que o Rabicho é tormentão".

"- Ora deixe-me Xerém
Vou mais quente que uma brasa"
Seguiram pela vereda
E lá foram ter à casa.

IV

Resolveram-me a chamar
De Pajeú um vaqueiro;
Dentre todos que lá tinha
Era o maior catingueiro.

Chamava-se Inácio Gomes,
Era um cabra coriboca,
De nariz achamurrado,
Tinha cara de pipoca.

Antes que de lá saísse
Amolou o seu ferrão;
"- Onde encontrar o Rabicho
Dum tope o boto no chão".

Quando esse cabra chegou
Na fazenda da Quixaba,
Foi todo o mundo dizendo:
Agora o Rabicho se acaba.

"- Senhores, eu aqui estou
Mas não conheço dos pastos
Só quero me dêem um guia
Que venha mostrar-me os rastos".

"Que eu não preciso de o ver
Para pegar o seu boi;
Basta-me só ver-lhe o rasto
De três dias que se foi".

V

De manhã logo mui cedo
Fui à malhada do Xisto,
Em antes que eu visse o cabra
Já ele me tinha visto.

Foi uma carreira feia
Para a serra da chapada;
Quando eu cuidei era tarde,
Tinha o cabra na rabada.

"— Corra, corra, camarada,
"Puxe bem pela memória,
Quando eu vim de minha terra
Não foi pra contar história".

Tinha adiante um pau caído
Na descida dum riacho;
O cabra saltou por cima
O ruço passou por baixo.

"Puxe bem pela memória,
Corra, corra, camarada,
Quando eu vim da minha terra
Não vim cá dar barrigada".

O guia da contrabanda
Ia gritando também:
"Veja que eu não sou Moreira
Nem seu amigo Xerém.

Apertei mais a carreira,
Fui passar no boqueirão,
O ruço rolou no fundo,
O cabra pulou no chão.

Encontrei-me cara a cara
Com o cabra topetudo;
Não sei como nesse dia
Ali não se acabou tudo.

Nesta passagem dei linha,
Descansei meu coração;
Que não era desta feita
Que o Rabicho ia ao moirão.

O cabra desfigurado
Lá foi ter ao carrapicho:
"- Seja bem aparecido
Dá-me novas do Rabicho?"

"Senhores, o boi eu vi,
O mesmo foi que não ver,
Pois como este excomungado
Nunca vi um boi correr".

Tomou-lhe o Góis neste tom:
"- Desengane-se co’o bicho;
Pelos olhos se conhece
Quem dá volta ao Rabicho".

"Esse boi é escusado
Não há quem lhe tire o fel;
Ou ele morre de velho
Ou de cobra cascavel".

VI

Veio aquela grande seca
De todos tão conhecida;
E logo vi que era o caso
De despedir-me da vida.

Secaram-se os olhos-d’água
Onde eu sempre ia beber,
Botei-me no mundo grande
Logo disposto a morrer.

Segui por uma vereda
Até dar um cacimbão
Matei a sede que tinha
Refresquei meu coração.

Quando quis topar assunto
Tinham fechado a porteira;
Achei-me numa gangorra,
Onde não vale carreira.

Corrigi os quatro cantos
Tornei a voltar atrás;
Mas toda a minha derrota
Foi o diabo do rapaz.

Correu logo para a casa
E gritou aforçurado:
"- Gentes, venham depressa
Que o Rabicho está pegado".

Trouxeram três bacamartes,
Cada qual mais desalmado,
Os três tiros que me deram
De todos fui trespassado.

Só assim saltaram dentro,
Eram vinte pra me matar,
Sete nos pés, dez nos chifres,
E mais três pra me sangrar.

Disse então o José Lopes
Ao compadre da Mafalda:
"- Só assim nós comeríamos
Do Rabicho da Geralda".

Acabou-se o boi de fama
O corredor famanaz
Outro boi como o Rabicho
Não haverá nunca mais.


(Alencar, José. Em "O nosso cancioneiro popular (Cartas ao senhor Serra)". Em O Globo, Rio de Janeiro, 1(128) 10/12/1874)


Notas:

1. Nestes versos contam-se as proezas de um boi que sempre escapava aos vaqueiros, saídos no seu encalço. Luis da Câmara Caseudo considera o poema "possivelmente o mais antigo modelo da gesta do gado". Sílvio Romero, Americano do Brasil e Rodrigues de Carvalho apresentam versões do mesmo. Alencar denominou-o "rapsódia da epopéia sertaneja". Gustavo Barroso inclui no Ciclo dos Vaqueiros essa poesia que, para ele, é a mais bela do ciclo. Coloca-a em um dos seus estudos, ao lado da Onça do Sitiá, a Onça do Cruxatu, A Onça Maçaroca, o Boi Moleque, o Boi Misterioso, A Vaquejada, o Novilho do Quixelô, o Boi Barroso, o Boi Espácio, três Abecês - o do Vaqueiro, o do Boi Prata, o do Bode dos Grossos, e outras poesias, que "perpetuam desta ou daquela forma os principais fatos da áspera vida dos criadores de gado, especialmente daqueles que exercem a profissão de pastorear manadas e rebanhos, os vaqueiros" (Ao Som da Viola).

A famosa composição não é divulgada isoladamente pelo autor de O Guarani, mas integrado o último de uma série de artigos, vindos a lume na imprensa do Rio de Janeiro, em 1874, nos quais discute o problema dialetológico do português do Brasil, defendendo a nossa separação idiomática de Portugal.

2. Rabicho, para José de Alencar, significava, no linguajar sertanejo, cauda arqueada. Por extensão, passa a designar um boi que possuía. Como brasileirismo, o termo figura nos léxicos com a acepção adjetival de: "que não tem pêlo na extremidade da cauda (touro)", e os sentidos figurados de paixão, obsessão amorosa, forte inclinação amorosa. Sela de rabicho, alpercatas de rabicho se acham definidos no Dicionário de termos populares (registados no Ceará), de nossa autoria (1959). Recolhemos, ainda, o derivado rabichola - peça de couro que se coloca na parte posterior da sela ou cangalha para reforçar a sua segurança (Acaraú).

3. A composição poética, objeto destas notas, veio - como é sabido dos estudiosos - sendo alvo de críticas nada lisonjeiras, a começar pelos juízos de Sílvio Romero, em Estudos sobre a poesia popular no Brasil (1888). Transcrevemo-la, sobretudo, como um documento do interesse do nosso grande romancista pelo folclore cearense.


(Em Seraine, Florival. Antologia do folclore cearense)

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