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BARCA NOVA
"Menina
da saia branca,
Que fazes neste quintal?
Estou lavando meu lencinho
Para a Noite de Natal.
Aviai, andai depressa,
Vamos à praia brincar,
Vamos ver a barca nova
Que do céu caiu no mar.
Nossa Senhora vai dentro,
Nosso Senhor no altar,
São José é o contra-mestre
Com os anjinhos a remar.
Rema, rema, remador,
que estas águas são de flor,
Rema, rema remador,
Que esta águas são de flor"
Velha cantiga de roda divulgada em todo o Espírito Santo.
Recolhemos variantes em Vitória, São Mateus, Linhares, Santa Leopoldina, Serra,
Manguinhos, Araçatiba e noutros pontos do Estado.
Numa versão de Manguinhos, vilarejo de pescadores próximo à Vitória, substitui-se o
verso "Nossa Senhora vai dentro" por "Nossa Senhora da Penha",
evidente influência da Virgem do Convento, padroeira milagrosa da terra capixaba. Em
Santa Leopoldina também se canta o verso final alterado: "Que estas águas são de
amor". Há variantes que, em lugar de "Barca Nova", cantam "Lancha
Nova"; em vez de "remador" e "flor" "remadores"e
"flores". Na Serra, uma versão diz: "Nossa Senhora levando/ Nosso Senhor
no altar". No tradicional auto da Marujada, versão de São Mateus, enxerta-se o
seguinte trecho, calcado, sem dúvida, nesta canção de roda, mas em toada de negro,
muito diversa da melodia aqui registrada:
"Vamos ver a Barca Nova
Que do céu caiu no mar.
Nossa Senhora vem dentro,
Os anjinhos a remar.
São Pedro vem por piloto,
São João por capitão,
O Senhor Menino Deus
Regente desta embarcação"
Cecília Meireles que, em um dos seus interessantes artigos sob o
título "Infância e Folclore" (A Manhã, Rio de Janeiro, 19/12/1949),
focaliza esta antiga canção e dela cita fragmentos e variantes acha-a "uma
das canções de mais poesia, tanto pelo que diz, como pelo sugere".
Desta cantiga, Alexina de Magalhães Pinto registrou, em Os nossos brinquedos, duas
variantes uma, de Minas Gerais, intitulada "A praia" (p. 5) a outra, do
Rio de Janeiro, "A barca nova" (p. 7). A música da versão mineira difere da
nossa e, confessemos, é mais graciosa. Com melodia muito parecida à de Minas Gerais, foi
recolhida, pelos maestros João Gomes Júnior e João Batista Julião, outra variante sob
o título "Vamos maninha" (in Ciranda, cirandinha, nº 27).
Em seu O Brasil cantando, nº 158, frei Pedro Sinsig nos dá outra versão. A
música é quase igual à melodia mineira de "Os nossos brinquedos", mas difere
na segunda parte onde um si bemol tira toda a graça do motivo.
O Guia prático" de Villa-Lobos estampa, sob o nº 127, o "Vamos,
maninha", arranjo e melodia popular recolhida no Rio de Janeiro, bem diversa, aliás,
da cantiga capixaba e que é repetida com ligeira alteração, no "chamado
para brinquedo de roda" "A praia" (Guia Prático, nº 33).
Modo de brincar: Arma-se a roda e todas as crianças cantam, girando, os versos da
cantiga. Ao chegaram, porém, ao "Rema, rema..." rodam e cantam bem ligeiro,
cada vez mais rapidamente, repetindo os dois versinhos finais até cansarem.
(Em Folclore, agosto de 1976) |
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