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Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento

Artigo de autoria de Renato J. C. Pacheco, publicado em 1951, por ocasião das comerações dos centenários de nascimento dos três folcloristas.

Além de Sílvio Romero, cujo centenário se comemora este ano, também nasceram em 1851: Manuel Querino, Vale Cabral e Pereira da Costa.

Manuel Raimundo Querino - entre estes folcloristas centenários devemos estudar, inicialmente, e de relance que seja a figura de Manuel Querino.

Sua obra máxima é fruto do espírito de sua raça - esta gente tão decantada, porem as vezes tão desprezada pelos mulatos ladinos! Refiro-me à publicação que de seus principais trabalhos fez em 1938 Artur Ramos sob o título de Costumes africanos no Brasil.

Por ser desenhista, gravava Querino com grande clareza o que assistia nos famosos núcleos negros de Salvador, ficando a dever apenas, em saber científico, a Nina Rodrigues e seus seguidores.

Nasceu Manuel Querino a 28 de julho de 1851 e teve uma vida modesta, longa (pois que morreu aos 72 anos) e proveitosa para o desenvolvimento dos estudos africanistas no Brasil. Negro que era, amava profundamente a gente de sua cor, e, corno acentua Câmara Cascudo "sua pequena bibliografia é indispensável quando se trata da contribuição do negro à civilização brasileira".

Tudo viu e tudo anotou: as invocações negras, suas músicas, sacras e profanas, danças, quitutes, tudo que a África nos legou, ele registou com paciência de santo, de verdadeiro amante de sua gente.

Como descreve com carinho o jogo das capoeiras! "Jogo atlético" de acordo com suas próprias palavras. Jogo de homens fortes. Jogo dos domingos de Ramos. As famosas disputas entre os bairros de Salvador, no Terreiro de Jesus...

E, sua observação sempre favorável aos filhos de sua raça: "Os povos cultos têm o seu jogo de capoeiragem, mas sob outros nomes; assim o português joga o pau; o francês, a savata; o inglês, o soco; o japonês, jiu-jitsu à imitação dos jogos olímpicos dos gregos e das lutas dos romanos." É como quem diz carinhosamente: "Riem dos negros? Mas vocês, os brancos fazem o mesmo..." E, fundamenta aquela idéia de que "o espírito humano é um só, desafiando o tempo e por todo o espaço."

Este é o africanista Manuel Querino. Devemos reverenciar nele a memória do homem de cor que, graças a seu esforço, coragem, dedicação e sobretudo modéstia, grangeou a estima, o respeito e a consideração de todos os que se interessaram por estudos brasileiros.

Alfredo do Vale Cabral - Eis uma das figuras mais curiosas que auxiliaram, nos primeiros tempos, e engrandeceram a etnologia patrícia.

Embora o estudioso baiano não tivesse publicado obra alguma da especialidade, (tendo sido, todavia, autor de livros sobre história e literatura brasileiras) justifica-se sua inclusão entre os primeiros folcloristas nacionais.

Trabalhos folclóricos deixou-nos apenas Vale Cabral, Achegas ao estudo do folclore brasileiro e Canções populares da Bahia, ambos publicados em revista de sua fundação - A Gazeta Literária, do Rio de Janeiro.

Suas funções na Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional permitiram que seu labor de estudioso das coisas nacionais fosse intenso. Além disso sua correspondência com as Províncias era grande, incentivando os pesquisadores de trabalhos da musa anônima.

Em A Província do Espírito Santo, por exemplo, de 20 de janeiro de 1889, vê-se a promessa da redação de enviar uma coleção de versos populares ao senhor Vale Cabral, "conhecido historiógrafo e não menos distinto bibliógrafo nacional" (apud Guilherme Santos Neves, in Cancioneiro capixaba de trovas populares).

As Achegas de Vale Cabral são preciosas. Inicialmente examina ele (nos recuados dias de 1884) o estado dos estudos folclóricos no Brasil do Segundo Reinado. Marca 1873 como data magna dos estudos do populário nacional, com aparecimento de trabalhos de Celso de Magalhães, Sílvio Romero, José de Alencar, Batista Caetano, Macedo Soares, Beaurepaire Rohan, Apolinário Porto Alegre e Barbosa da Silva, José Veríssimo, Barbosa Rodrigues, Koseritz e Herbert Smith, examinando pormenorizadamente, os mais diversos aspectos dos costumes, superstições, lendas e demais tradições do povo. Seguem-se observações ainda hoje oportunas, sobre mitos brasileiros.

É como se vê um estudioso que também merece ser classificado "pioneiro" levando-se em consideração haver ele vivido em fins do século XIX com entendimento perfeito do valor do folclore, ciência de suma importância. São portanto justas, justíssimas, as homenagens que se lhe prestarão por motivo do transcurso de seu primeiro centenário de nascimento.

Francisco A. Pereira da Costa - Este é o quarto folclorista cujo centenário de nascimento transcorre no corrente ano, (numa coincidência verdadeiramente curiosa e cheia de auspícios para o folclorismo brasileiro).

Pereira da Costa nasceu a 16 de dezembro de 1851, em Recife. Sua vida pública está toda ela ligada ao Poder Legislativo de seu torrão natal, do qual foi funcionário até a sua aposentadoria, e, por fim, deputado, entre 1901 e 1923.

Em sua longa vida de 72 anos muito se preocupou com a história e folclore de seu Estado, e, durante cinqüenta anos ininterruptos trabalhou em prol do levantamento de documentário volumoso referente a Pernambuco.

Seu livro sobre o folclore de sua terra, que se encontra apenas na Revista do Instituto Histórico Brasileiro, volume de 1908, sem ter tido nunca uma segunda edição [*], é segundo mestre Câmara Cascudo o "melhor e maior volume documental referente ao nordeste". Note-se bem que o grande folclorista nacional se refere ao nordeste e não apenas a Pernambuco.

pcosta.jpg (8391 bytes)O estudioso que, mesmo agora, se, dedicar a coligir os demais trabalhos de Pereira da Costa, esparsos na imprensa diária pernambucana, entre 1872 e 1923, encontrará material valioso para muitos volumes. E, temos que repetir que uma segunda edição de seu Folclore pernabucano embora difícil em virtude do grande número de páginas do trabalho, seria obra meritória que engrandeceria qualquer editor do país. 

* * *

Estes precursores dos modernos estudos folclóricos nacionais, seguidores da escola instituída por Sílvio Romero, no pensar de Joaquim Ribeiro, merecem sem dúvida, nossa mais sincera homenagem de respeito e consideração, pelo exemplo que deram às atuais gerações de trabalho paciente e sobretudo de acendrado amor à terra natal!


[*] Nota dos editores: O Arquivo Público Estadual, Pernambuco, publicou, em 1974, a segunda edição de Folclore pernambucano.

Ver: Pereira da Costa Vida e Obra, Jangada Brasil, ano 3, nº 30, fevereiro de 2001.

(Pacheco, Renato J. C.. Em Folclore. Vitória, março/junho de 1951)

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