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| Página 1 | 2 | 3 | Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento |
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Este
artigo, de autoria de Guilherme Santos Neves, foi publicado em 1951, por
ocasião do centenário de nascimento de Sílvio Romero.No dia 21 de abril, comemorou-se, em todo o país, o primeiro centenário de nascimento de Sílvio Romero crítico, ensaísta, poeta, historiador literário, sociólogo e folclorista dos mais vigorosos e cultos que o Brasil já teve. Filiando-se ao pequeno grupo de pioneiros do nosso folclore - Couto de Magalhaes, Melo Morais Filho, Celso de Magalhães, Barbosa Rodrigues, José de Alencar, Santana Néri e Batista Caetano - logo se pôs Sílvio Romero à vanguarda deles, marcando, com segurança, as primeiras diretrizes aos estudos das nossas tradições populares com a classificação das nossas manifestações folclóricas. Em 1883 publicava ele Cantos populares do Brasil. "primeira e até hoje única tentativa de organização de nosso cancioneiro geral", como disse, em 1939 o eminente folclorista Basílio de Magalhães (O folclore no Brasil). Os Contos
populares são, de fato, um repositório variado e copioso de quase todos os tipos e
aspectos da poesia popular brasileira. Há neles, desde os romances e xácaras, até os
singelos "versos gerais" ou quadrinhas, passando pelas cantigas dos autos
tradicionais, como as Cheganças, os Reisados, as Pastorinhas, as Loas de Natal e Reis.
Como parte final do livro se incluem também, as oraçoes. parlendas e adivinhas. Muito
desse opulento material foi recolhido pelo autor diretamente da fonte oral popular em
vários pontos do Brasil, principalmente em Sergipe, sua terra natal.Dois anos depois, dem 1885, publicava Sílvio Romero a sua preciosa coletânea de Contos populares do Brasil, divididos, dentro da classificação que propusera, em Contos de origem européia, Contos de origem indígena e Contos de origem africana e mestiça. Conforme friaara o autor na segunda edição do seu livro, os contos foram por ele mesmo colhidos da tradição oral, "exceto os cinco ou seis tomados a Couto de Magaçhães". Mais tarde, prosseguindo os seus estudos do folclore nacional. escreveu as duas belas páginas "Tradições populares - Cantos e contos anônimos" e "Novas contribuições para o estudo do folclore brasileiro" - páginas que integram a sua monumental História da literatura Brasileira (tomo 1, p. 105-120, e 139-174, 3ª edição, 1943). Embora não mais sejam admissíveis as diretrizes e classificações propostas por Sílvio Romero, dado o vigoroso desenvolvimento dos estudos do folclore no Brasil e no mundo - o fato e que seus dois referidos livros constituem acervo demológico do mais alto valor, porque reúnem riquíssimo cabedal folclórico, rigorosamente colhido do veio oral popular. Pena é que, no que se refere à poesia do povo, não pudesse Sílvio Romero regisirar a melodia das variadas cantigas que publicou - Aliás, a esse respeito, e com pesar dizia ele: "Ainda hoje... nos lembramos dos tons da mor porção dos nossos cantos populares. Temos feito esforços por conseguir músico de saber e talento capaz de as tomar por escrito. |
Não há muito, por influência
do nosso amigo Osório Duque-Estrada, entramos em relações com o ilustre maestro Alberto
Nepomucemo, que escreveu diversas canções. Por seus muitos afazeres não
pôde
continuar. Devem estar em seu poder as peças que escreveu. De novo exprimimos o voto de
que seria para desejar que algum sabedor se apresentasse para escrever a nossa música
popular. Nós ficamos às ordens para cantar o que sabemos; nós e pessoas de nossa
família, onde o elemento nortista predomina". (História da literatura brasileira.
I, p. 141). Onde estarão essas músicas, fixadas em pauta pelo maestro Nepomuceno? E teria algum músico de "saber e talento" atendido ao apelo do mestre, e recolhido, de sua memória, as preciosas melodias das canções populares? Quem examina a obra folclórica deixada por Sílvio Romero sente logo a força afetiva que o ligava às nossas tradições. E é bem possível que o estudo penetrante dessas tradições do povo fosse para ele homem rebelde, apaixonado e agressivamente franco nas suas opiniões e conceitos consolo suave para os momentos agitados de sua vida. Ele mesmo o disse, referindo-se às pequenas jóias da poesia popular: "Ainda agora sinto no ouvido a melodia simples e monótona desses e doutros versinhos do gênero: e invade-me a saudade, doce companheira, a quem devo, nos dias tristes de hoje, as raras horas de prazer de minha vida" (Apud Sílvio Rabelo, Itinerário de Sílvio Romero, 1944, p. 71). De uma feita, fez ele expressiva confidência a Coelho Neto que assim a reproduz, burilando-lhe as frases: "Precisamos desenterrar o tesouro poético dos primitivos. O povo tem dois jazigos de relíquias, um no espaço - o cemitério: outro no tempo - a tradição. O espaço é precário e tudo que tem nele assento perece: o tempo é perene e eterniza o que recolhe. Deixemos a terra no seur trabalho de transformação contínua devolvendo-nos em seiva os corpos que lhe confiamos; busquemos no tempo a herança das almas. É pelo tempo que nos pomos em comunicação com o Passado, e quem nos guia nessa viagem? - a tradição: aqui uma lenda, além um mito, adiante um canto, alhures um ritual, uma cerimônia, e vamos indo por esses marcos até as origens, que são os fundamentos da nacionalidade. Não queiramos a glória do anonimato: povo sem tradição é árvore sem raízes, que qualquer vento derruba"... * * *
Este é o grande Sílvio Romero o pioneiro do nosso folclore, a quem se prestaram
em todos os recantos do Brasil, as mais justas homenagens de reverência e admiração, e
para cuja glorificação maior a Comissão Nacional de Folclore convocará, em agosto
próximo, na Capital Federal, o Primeiro Congresso Brasileiro de Folclore, onde
será exaltado - juntamente com o de Pereira da Costa, Vale Cabral e Manuel Querino -
cujos centenários também passam este ano - o nome do consagrado autor de Cantos
populares do Brasil.
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(Neves, Guilherme Santos. Em Folclore. Vitória, março/junho de 1951) |
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