Jangada Brasil, nº 36, agosto de 2001: Festança – Balaio

Partitura (Balaio.pdf:45KB) | Clique para ouvir a MIDI de Balaio

Considerações

O Balaio é dança conhecida entre os gaúchos. Embora tivesse popularidade durante a campanha do Rio Grande do Sul, estendendo a sua presença até fins do século XIX, num levantamento feito por L. C. Barbosa Lessa e G. C. Paixão Cortes das danças gaúchas, e publicado em 1956 [1], foi revelado que o Balaio era das menos freqüentes, por ser das mais antigas. Todavia hoje esta dança está rediviva naquele Estado e divulgada em outros, sobretudo no de São Paulo, graças àqueles dois folcloristas.

O Balaio faz parte das danças do fandango.

Fandango no Brasil não é como em outros países (Espanha, Portugal) uma dança isolada, com características próprias [2]. Entre nós é um conjunto de várias danças, sendo mesmo usado o termo fandango como sinônimo de baile.

Augusto Meyer [3] afirma ser o Balaio de origem nacional, procedente do Nordeste, em oposição a Roque Callage que diz ter sido o mesmo trazido dos Açores para o Rio Grande do Sul. O primeiro cita, para reforçar o seu ponto de vista, a semelhança do Balaio com a Chula Baiana e o Lundu pernambucano e a analogia entre os versos que acompanham aquela dança e outros colhidos na Bahia e em Pernambuco.

Enquanto nesta quadra aparece um termo típico do Rio Grande do Sul, demonstrando a sua integração neste Estado:

Eu queria ser Balaio
Na colheita da mandioca
Para andar dependurado
Na cintura das chinocas.

nesta outra, é patente a maneira de falar nordestina com a negativa em duplicata e a referência ao algodão, cultura familiar àquela região:

Mandei fazer um balaio
Pra guardar meu algodão,
Balaio saiu pequeno
Não quero balaio não [4].

O nome da dança advém do formato que as saias das damas adquirem em determinado momento da dança quando, depois de girarem em torno de si, rapidamente, abaixam-se. O ar acumulado faz com que elas se avolumem e se arredondem tomando a forma do objeto [5].

A palavra Balaio, nesta dança, como se deduz pelo sentido dos versos, significa cesto, geralmente de taquara, embora o termo tenha aparecido no texto de algumas cantigas e danças brasileiras (Lundu, Samba, Chula, Bumba-meu-boi), significando quadris femininos.

Vimos o Balaio pela primeira vez em 1953, aproximadamente, dançado sob a direção competente de Barbosa Lessa, ao apresentar em São Paulo, as Danças Gaúchas, recolhidas por êle e Paixão Côrtes.

É alegre, gracioso e fácil de ser dançado.

Baseamo-nos naquela mostra para a exposição que segue. Sentimo-nos, todavia, tentados de acrescentar-lhes as palmas da fig. 1, por termos visto, naquela ocasião, palmas acompanhando muitas danças sul-riograndenses que conhecíamos sem elas.

Como os sapateios variam com os dançadores, sendo uns mais complexos outro menos, demos-lhe a forma abaixo, que redunda da combinação de dois sapateados por nós observados.

A denominação dos passos é nossa.

Indumentária

Damas – Vestido, 3/4, de chita estampada, cada um de uma cor, cintura baixa, saia bem franzida, guarnecido de babados, dispostos de maneira diferente em cada um. Mangas curtas e fofas. Decote grande.

Lenços coloridos no pescoço. Cabelos penteados em duas tranças, caídas. Brincos de argola, grandes.

Sapatos rasos, coloridos ou pretos, sem salto ou com saltinho.

Cavalheiros – Camisa esporte, de preferência branca ou com listras finas, de mangas compridas, guaiaca (cinturão de couro ornado de metal) faca na cintura, bombachas (calças bem amplas amarradas no tornozelo, trabalhadas nos lados) botas, esporas, lenços coloridos no pescoço.

Pala (pano de lã ou de algodão, retangular, com franja e orifício central por onde passa a cabeça). Esta peça é facultativa.

Acompanhamento: Harmônica.

Número de particípantes: 8 pares ou à vontade.

Passos

Damas


Passo unido, à lateral  Dar um passo lateral com a perna esquerda, unir a ponta do pé direito ao meio do pé esquerdo, volver 1/8 à esquerda (1 compasso).

Dar um passo lateral com o pé direito, unir a ponta do pé esquerdo ao meio do pé direito, volver 1/8 à direita (1 compasso).

Segurar a saia lateralmente e jogá-la à esquerda e direita, alternadamente.

Passo unido, à frente – Semelhante ao anterior, apenas a perna esquerda ou direita dá o passo inicial à frente.

Mãos dadas.

Passo lateral cruzado – a) Dar um grande passo lateral à direita, com a perna esquerda, cruzando-a na frente da direita, batendo o pé com força no chão e fazendo 1/4 de volta à direita (deve-se elevar bem o pé do chão ao dar o passo)Unir o pé direito, pela ponta, à parte média do pé esquerdo (1 compasso).

Grande passo lateral à esquerda com a perna direita, cruzando-a na frente da esquerda fazendo 1/2 volta, unir o esquerdo ao direito, obedecendo os detalhes vistos.

Nota: Só no primeiro passo faz-se 1/4 de volta, nos demais é feito 1/2 volta. Movimentar a saia como no passo anterior.

Cavalheiros


Gestos – Em pequeno afastamento para frente:

1. Cruzar os braços, flexionados, na frente do corpo, palmas das mãos para dentro, dedos frouxos.

2. Estender os braços obliquamente para baixo, palmas das mãos para frente.

3–4. Repetir 1-2.

5. Apoiar as mãos na cintura, do lado esquerdo, mão direita cruzada sobre a esquerda, palmas para dentro, dedos frouxos.

6. Estender os braços obliquamente para baixo, como em 2.

7-8. Repetir 5-6.

Cada movimento é feito em um compasso.

Nota: Os gestos são naturais e exprimem os versos cantados.

Palmas – Em pequeno afastamento para frente, bater palmas, fazendo rotação do tronco à esquerda e direita, alternadamente e mantendo as mãos próximas, ora ao ombro esquerdo, ora ao direito. Bater uma palma em cada compasso.

Balancear-se sobre as pernas durante as palmas.

Passo e balanceio – Dar um passo à frente com a perna esquerda e balanceio, isto é, semiflexão e extensão rápidas da mesma, enquanto a perna direita permanece atrás, semiflexionada e apoiada pela ponta (1 compasso).

Passo à frente com a direita e balanceio (1 compasso).

Segurar, atrás do corpo, à altura da cintura, com a mão direita o punho esquerdo, palma da mão esquerda voltada para fora, dedos semiflexionados.

Sapateado:

a) “Espora” com o pé esquerdo, isto é, arrastar a planta do pé, em seguida estender a perna elevando o pé, fazendo retinir a espora.

b) Bater no chão, com força, duas vezes, a ponta do pé esquerdo junto ao calcanhar direito.

c) Bater, com força, no chão, o pé esquerdo e depois o direito, com toda a planta.

O sapateado completo é feito em 2 compassos.

Reiniciá-lo, fazendo “espora” com o pé direito, bater 2 vezes a ponta deste pé e depois o direito e esquerdo com toda a planta. Braços na posição descrita no passo anterior.

Coreografia
(ver croquis)

Disposição inicial – Dois círculos concêntricos. Há entre ambos distâncias de 1 metro. O circulo interno é constituído por damas e o externo por cavalheiros. Damas e cavalheiros defrontam-se. Dançadores à vontade.

Fig. 1 – Gestos e palmas:

a) Os cavalheiros cantam a primeira quadra e fazem os “gestos”, enquanto as damas executam “passo unido, à lateral” (8 compassos).

b) Eles batem palmas e cantam a segunda quadra. Elas prosseguem no passo anterior (8 compassos).

Os pares olham-se.

Fig. 2 – Dois círculos – Damas e cavalheiros volvem-se à direita. Os círculos vão movimentar-se em sentido contrário. Elas dão as mãos entre si e executam “o passo unido, à frente”. Eles progridem com “passo e balanceio”. Damas e cavalheiros olham-se durante o trajeto. Fazem o percurso e voltam aos lugares primitivos (8 compassos).

Todos cantam.

Fig. 3 – Sapateio e balaio – Todos volvem-se à esquerda. Damas e cavalheiros defrontando-se, novamente, fazem:

Damas

a) “Passo lateral cruzado”, durante 6 compassos.

b) Seguram com a mão direita a mão direita do cavalheiro, braços elevados e giram sob o próprio braço (1 compasso).

c) Ainda de mãos dadas, fazem menção de ajoelhar-se sobre o joelho direito, flexionam o tronco à frente, mas conservam a cabeça erguida (1 compasso).

Cavalheiros – Sapateiam durante 8 compassos, sendo que nos 6 primeiros os braços mantêm-se atrás do corpo e nos restantes dão a mão à dama.

Os pares olham-se. Todos cantam. Repetir toda a dança.

Atitude final – Damas e cavalheiros colocam o pé esquerdo à frente, o peso do corpo sobre ele. O direito apóia-se pela ponta. Elevam os braços, em arco, oblíquos para cima, palmas das mãos para dentro, dedos semiflexionados. Damas colocam os braços entre os braços dos cavalheiros. Os braços de ambos cruzam-se.

Notas:

[1]. Em Manual de danças gaúchas.

[2]. Ver em Baião, p. 65; Chimarrita, p. 128, e Tirana, p. 285 referências ao fandango.

[3]. Em Guia do folclore gaúcho.

[4]. Estas quadras completam oa versos apresentados no texto musical.

[5]Balão faceiro é outra dança brasileira cujo nome parece advir da saia balão, usada pelas damas. Da mesma forma, as denominaçôes do Balão, dança portuguesa, do Pega no Balão, dança de Minas Gerais, se originaram dessa peça do vestuário feminino.

(Giffoni, Maria Amália Corrêa. Danças folclóricas brasileiras)

Partitura e MIDI: colaboração de Alessandro Valente

 

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