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AS CANTADEIRAS DE TERÇOS E BENDITOS

Encerramento festivo do mês mariano

Entre os tipos populares do Recife de
antanho não se podem olvidar as velhinhas de xale e lenço na cabeça, as beatas da Penha, como eram chamadas aquelas, nem sempre muito piedosas criaturas, freqüentadoras assíduas das missas da madrugada no convento de Nossa Senhora da Penha, e cantadeiras (não cantoras) da reza nas quintas-feiras à noite na igreja do Divino Espírito Santo (terço do Santo Cristo), nas sextas-feiras na igreja do Senhor Bom Jesus dos Martírios e nos sábados na portaria do convento de Nossa Senhora do Carmo, devoção do preto velho seu Firmo.

Tinham elas uma voz nasalada e agudíssima. Quando começavam a cantar (?) dir-se-ia que eram vários oboés e requintas executando músicas, habitualmente em tons menores, e numa
tessitura elevada, de notas acima do pentagrama, grafadas em linhas e espaços complementares superiores.


Mês mariano festivo

Antigamente era muito comum, entre as famílias do Recife e arrabaldes, fazerem o mês mariano rezado ou cantado nas respectivas casas.

Algumas dessas famílias, possuindo piano, acompanhavam, com esse instrumento, os cânticos das ladainhas, benditos e hinos, organizando, às vezes, tercetos ou quartetos de piano, flauta, violino e clarineta. Outras, mais modestas, faziam seu mês mariano também cantado, mas sem acompanhamento instrumental, e ainda outras, não tendo quem cantasse, faziam seu mês mariano apenas rezando.


Encerramento do mês mariano

Na rua Direita em um sobrado em frente ao
oitão da Igreja de Nossa Senhora do Terço, morava uma distinta família, cujo mês mariano era muito concorrido, juntando gente na calçada fronteira à casa, no sereno, como se dizia, para ouvir, os belos cânticos entoados por harmoniosas vozes, acompanhadas ao piano. No último dia do mês o encerramento era pomposo, ornamentando-se e iluminando-se o altar armado na sala de visitas, e sendo convidado um sacerdote para tirar a ladainha, recitar as antífonas e outras orações do Manual Mariano. Nessa noite os cânticos tinham acompanhamento de orquestras e vinham cantores de fora para maior realce da festa.

Depois de encerrado o mês mariano era servida aos convidados uma lauta mesa de bolos e doces.

Essa família, tão devota da Virgem Maria, era a do venerando magistrado, doutor Venâncio Neiva.


Mês mariano não é serenata...

Conta-se de certa família modesta que fazia seu mês mariano rezado e depois cantado, mas desejava fazê-lo com acompanhamento de alguns instrumentos musicais.

Para isso a dona da casa falou ao marido:

- Você, que tem tantos amigos músicos, bem podia trazer alguns deles para ensaiarem com a gente as cantorias do mês mariano e depois irem acompanhando enquanto a gente cantava. Que acha?...

- Acho bom, e vou tratar disso.

À tarde voltou o homem para casa com três ou quatro amigos
sobraçando violões...

- Está aqui o pessoal do acompanhamento…

- O que?... Só violões?!...

- Foi o que pude arranjar, - respondeu o marido, explicando logo:

- Mas é gente segura no pinho. Podem cantar em qualquer tom que eles pegam logo e não trastejam... Quer ver?

- Eu não. Você pensa que mês mariano é serenata pra ser acompanhado com violão?! Não consinto!... É um desrespeito!...

E a cantoria teve de ser entoada mesmo sem acompanhamento, porque naquele tempo o violão estava muito desacreditado, desmoralizado, até, por ser sempre o companheiro inseparável dos boêmios, seresteiros, pelas ruas da cidade e seus subúrbios.

Não era, portanto, decente que ele – pobre violão! – acompanhasse os cânticos de louvor à Virgem Maria no mês que lhe é particularmente dedicado...

Hoje cresceu a devoção nos templos onde a Senhora da Conceição recebe os louvores dos seus fiéis devotos. Entretanto, em uma ou outra casinha dos bairros pobres da cidade ainda se ouvem, nas noites de maio, ingênuas vozes cantando.

Ó glória das virgens
Sublime nas estrelas...

Publicamos o clichê de uma ladainha, composição inspirada do reverendíssimo cônego João Carneiro, muito cantada no mês mariano.

(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)

Antanho – Antigamente, outrora.

Oitão – Cada um dos espaços laterais de um edifício.

Olvidar – Esquecer.

Sobraçando – Carregando sob o braço.

Tessitura – O conjunto de notas mais freqüente de numa peça musical.

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