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A MAGIA DAS ÁGUAS: O TOQUE DO SOBRENATURAL

Íntima das águas a cidade de Belém. Uma intimidade que não se refere somente ao essencial biológico, ao ótimo de vida, comum a qualquer agrupamento humano: à hidrosfera, termo criado pelos homens de ciência para cobrir a totalidade de água na terra, quer reunidas nos mares, ou invisível no ar, ou condensada nas nuvens, ou correndo nos rios, ou caindo em forma de chuvas, ou brotando na seiva das plantas – águas que existem em fartura na Amazônia. Mas a mesma água plasmando figuras de assombração.

As crendices populares, nascidas do sugestionável da água, enriquecem o folclore regional de vultos com nuances extravagantes. Elemento onipresente na vida do paraense – o rio – inspira um sem número de estórias cujas raízes chegam a tocar na Europa do tempo em que vieram os conquistadores plantar a civilização aqui dos nossos lados. Mas a influência imperiosa, a constante cultural, é a do índio.

É certo que as sereias da mitologia grega, que tanto atormentaram Ulisses, entram com sua contribuição na tecitura da lenda da mãe d’água, do boto, da iara. Contudo, o indígena é quem acaba de prevalecer culturalmente, sendo de observar que ele é criador de mitos com algumas semelhanças aos dos europeus. Dá-se o sincretismo, e surge a versão regional da lenda.

Estórias amazônicas de duendes, ninfas e gênios, possuem todas elas num hibridismo que as torna mais encantadoras. A iara, por exemplo. Ouvida em qualquer parte da região, é uma lenda indígena que corresponde às iemanjás, ou àquelas sereias que obrigaram Ulisses, perto da ilha de Capri, a tapar os ouvidos com cera, e a se amarrar no mastro do navio, para fugir de seus encantos.

Olavo Bilac e Olegário Mariano na poesia, Afonso Arinosna prosa, utilizaram o tema da iara. O primeiro precipitou-se "louco de orgulho e gozo" nos braços da mulher-peixe (no soneto, é claro), mas a sereia " esquiva e rara" desfaz-se "em pérolas de espuma, exalando um ai piedoso". Desfecho romântico, mas diferente daquele que nos conta a lenda amazônica.

Já Olegário e Afonso Arinos, em páginas também de beleza e lirismo, se aproximam da versão regional, como neste verso do poeta das cigarras:

Dois corpos entrelaçados num só corpo,
Ao bramido monótono e tremendo
Da cachoeira em diabólico escarcéu
Iam de manso desaparecendo
No fundo d´água que reflete o céu

A iara atraíra o caboclo com os seus " olhos vagos, na luz verde que espalha em derredor", e o leva à morte no seio das águas, depois do trágico abraço de amor: " a morte ri para matar melhor".

Contudo, quem melhor transmite o lirismo selvagem da lenda, com o exotismo, o sabor da linguagem típica e o agreste da paisagem, é o poeta belemense Acrísio Mota, numa composição de fim-de-século que fui encontrar nas páginas de uma revista publicada em Belém no ano de 1898.

Sem apresentar a técnica apurada de um Bilac ou se um Olegário, Acrísio ganha destes dois na originalidade, e mesmo na autenticidade: porque transpira os legítimos odores da terra.

O poema denomina-se Yara (insisto em escrever a palavra respeitando o y da ortografia tupi-guarani; yara significa água, e nada mais bonito, para mim, do que conservar na sua pureza e mistério o vocábulo indígena). Sugiro que o turista-leitor viva a balada triste do caboclo rendido aos amavios da sereia:

Noite pixuna em torno se alastrava...
Do igarapé a correnteza brava
Fazia tremer o raizal do mangue
Ao pé da muirapara
A rígida taquara
Inda tingida no urucu do sangue
Da última embiara
Ia no esgote da velos ygara
Ao jacumã o pescador miranha
Vinha da piraçana
A manejar ligeiro o apucuitáva

A paisagem está pintada com tintas silvestres... Agora o poeta descreve o caboclo " cuíra de bem cedo chegar à sua maloca". Mas, numa curva do igarapé ele viu surgir "uma figura de cunhã formosa". Boquiaberto, os olhos dilatados, " vendo-se aos poucos dominado e preso". A yara estende-lhe os braços e canta a canção da morte:

Meu valente apigáua!
Vem habitar comigo a mesma taba
Dormir na mesma tépida quiçáua!
Sou a mãi d’água te farei puranga
Tens nos meus olhos a melhor puçanga

O caboclo não resiste ao chamamento fatal. Joga-se nas águas "em demanda do sonho ambicionado":

O Amor, o Amor, o sempre eterno, o forte!
....
Este poder pacífico e sangrento
Fê-lo lançar a paz no esquecimento
No próprio seio álgido das águas
Eré catu, ygara!
Foi-se a caruca com a sombra imensa
E sobre a verde ramalhada imensa
Vem despertando a ara...

Exige-se, agora, que eu esclareça o significado das palavras indígenas empregadas pelo poeta. Muitas delas fazem parte do linguajar no interior amazônico. Não será melhor ordená-las em forma de vocabulário? Pronunciai-as, turista, saboreando o gosto de mato:

Pixuna: preto
Muirapara: arco
Taquara: bambu silvestre
Urucu: fruto que produz tinta vermelha
Embiara: caça, presa
Esgote: fundo da canoa, lugar onde se esgota a água
Ygara: canoa
Jacumã: maneira de se governar a canoa com remo, na popa
Apigáua: homem
Miranha: tribo de índios amazônicos
Piraçána: pescaria
Apucuitáua: remo
Cuíra: impaciente
Cunhã: mulher (cunhatã é o diminutivo)
Quiçáua: nome genérico da rede
Potaba: presente, dádiva
Puranga: bonito
Puçanga: feitiço
Eré, catú, ygara: Adeus, canoa
Caruca: noite
Ara: dia

Belém, cidade civilizè, não escapa à fascinação do sobrenatural. Não há menino que deixe de ouvir estórias fantásticas, transmitidas pelas amas, as empregadas domésticas, geralmente pessoas vindas do interior do estado, onde sobrevive, intensa, a tradição oral dessas lendas. Mesmo sob o impacto de outros valores culturais que hoje se manifestam na cidade, conseqüência da aproximação no espaço geográfico e no tempo social com povos e instituições, aproximação efetuada pelo avião, o rádio, a televisão, o jornal – ainda persistem as estórias sobrenaturais na mente do povo.

Qualquer ponto de desembarque, seja Ver-o-Peso, o porto do Sal, os trapiches dos becos da rua Siqueira Mendes, o igarapé das Almas, a doca Souza Franco, os pequenos trapiches e os ancoradouros no rio Guamá, é fonte de difusão de estranhas e apetecidas narrativas. Nesses pontos de embarque e desembarque reúnem-se os caboclos tripulantes das embarcações que fazem o giro pelo interior do estado. É gente nascida e criada à beira de rio, fiel transmissora de abusões e especulações fabulosas.

Uma ponta de conversa aqui, uma palestra acolá, vão reavivando, vão enriquecendo o espírito do ouvinte urbano. Por ali passa o pessoal do trabalho doméstico: cozinheiras, amas, serventes, crias da casa. Estas enchem a cabeça dos meninos de besteiras, como dizem as criaturas que se dizem responsáveis.

O fato é que as estórias existem, creiam nelas ou não, sejam motivo de troça dos meninos mais sabidos, aceitas pela gente ingênua ou repelidas pelas pessoas sensatas. Trato de aqui apenas registrá-las para o turista curioso dos aspectos folclóricos regionais.

A cobra grande. Eis o grande tema. A cobra – a formidável sucuriju – pertence à fauna amazônica. Vive nos rios. Pega animais domésticos e até criança descuidada no barranco dos caudais. Mata pelo arrocho, baba na vítima, para degluti-la mais facilmente. Engole-a inteira. Depois, é a digestão, que dura dias. A cobra fica meio sonolenta, num pedaço de terra onde haja mato para disfarçar a sua presença. Na praia, sol pleno, nunca. É a figura da felonia e da traição.

Este é o aspecto real, descolorido e prosaico. Quando entra a fantasia o povo transforma o bicho em barco feericamente iluminado, singrando rios e baías. A cobra metamorfoseou-se em boiúna, logo após as doze badaladas da meia-noite. Vai iniciar a ronda sinistra, procurando cunhatãs para o noivado da morte.

A galera é feita dos restos de suas vítimas: os mastros, de tíbias, as velas, de mortalhas e véus de noivas imoladas ao prazer macabro da boiúna. Se alguém, por curiosidade, tenta abordá-la, desaparece a nau como por encanto nas brumas da baía ou no negrume das florestas. E o curioso, por castigo, torna-se surdo e cego, e às vezes chega à loucura. Só lhe é poupada a palavra, para que possa transmitir a visão da boiúna passional.

Um grande poeta, que viveu excitante experiência na Amazônia, a próprio gosto, fez de Belém menagem para as suas aventuras. Naquele tempo o gaúcho Raul Bopp (este é o seu nome) era um estudante de direito que queria ver a pororoca, queria conversar com os caboclos do Ver-o-Peso, ouvir histórias, tomar banho de rio, viver amazonicamente, enfim. Hoje é embaixador do Brasil, intelectual festejado. E que material plástico ele recolheu na sua vivência belemense para escrever a famosa Cobra Norato:

Axi, cumpadre

Arrepare uma coisa:
Lá vem um navio
Vem-que-vem-vindo depressa todo iluminado
Parece feito de prata...

- Aquilo não é navio cumpadre

- Mas, os mastros... e as luzes... e o casco dourado?

- Aquilo é a Cobra Grande: conheço pelo cheiro.

- Mas as velas de pano branco embojadas de vento?

São mortalhas de defuntos que eu carreguei: conheço pelo cheiro.

- E aquela bujarrona bordada?

- São camisas das noivas da Cobra Grande: conheço pelo cheiro.

Eh! cumpadre
A visage vai se sumindo pras bandas de Macapá.

Neste silêncio de águas assustadas
parece que ainda ouço um ai ai se quebrando no fundo da noite.

Quem será desta vez a moça-noiva que vai lá dentro
soluçando encerrada naquele bojo de prata?

Tão poderosa personagem, a cobra-grande, não podia deixar de residir na cidade que é a capital de seu império verde e misterioso, vivendo no mundo da fantasia popular. Ela mora, segundo a crendice local, em vasto palácio no fundo da baía do Guajará, cujas galerias infletem por baixo do forte do Castelo e do largo da Sé, e vão terminar na catedral.

Quando Francisco Caldeira de Castelo Branco aportou no igarapé do Piri, viu o outeiro do atual forte do Castelo e quis desembarcar no sítio. Mas teve, antes, de pedir licença à cobra-grande, que assentiu no ato da fundação de Belém...

Adianta a lenda que depois de construída a igreja da Sé, a cobra-grande resolveu fazer modificações em seu palácio, aumentando as câmaras reais de modo que a cabeceira de seu leito ficasse exatamente embaixo do altar-mor da catedral!

Raul Bopp, em seu poema da Cobra Norato, faz alusão ao episódio que ele certamente recolheu nos bate-papos do Ver-o-Peso:

Cobra grande esturrou direto pra Belém
Deu um estremeção
Entrou no cano da Sé
E ficou com a cabeça enfiada debaixo dos pés
de Nossa Senhora

De outra feita a cobra abandona o vulto da galera iluminada. Emerge das águas com suas formas de réptil e vai fazer peregrinação fatídica, destruindo o que encontra de vida pela beira do rio. Os olhos emanam fachos de luz, como se fossem o raio da morte. Da garganta sibilam sons apavorantes, aviso de desgraça para as cunhatãs que a cobra quer desposar. Os pajés rezam e fazem benzeduras, as casas tremem, os curumins correm espavoridos e se agarram nas saias das mães.

Inspirado na visão, o compositor belemense Valdemar Henrique escreveu a música e letra da Cobra Grande, que Mara, sua irmã, interpreta com voz, calor e ritmo telúricos:

Credo! Cruz!
lá vem a cobra-grande
lá vem a boiúna de prata...
a danada vem rente à beira do rio
e o vento grita alto no meio da mata!

Cunhatã te esconde
lá vem a cobra-grande
á-á
faz depressa uma oração
prá ela não te levar
á-á...

A floresta tremeu quando ela saiu,
quem estava lá perto, de medo fugiu
e a boiúna passou logo tão depressa,
que somente um clarão foi que se viu...

A noiva cunhatã está dormindo medrosa,
agarrada com força no punho de rede,
e o luar faz mortalha em cima dela,
pela fresta quebrada da janela...
eh! cobra-grande,
lá vai ela!

(TOCANTINS, Leandro. Santa Maria do Belém do Grão-Pará)

Abusões – Crendices, superstições; Enganos.

Álgido – Glacial, muito frio.

Bramido – Grito muito forte, clamor; Grande ruído ou som muito forte.

Bujarrona – Vela triangular de embarcação.

Felonia – Traição.

Menagem – Prisão fora do cárcere, em que a justiça concede sob promessa ou palavra do preso de que não sairá do lugar onde se acha ou que lhe foi designado.

Sincretismo – Amálgama de doutrinas ou concepções heterogêneas.

Telúrico – Relativo à terra.

Troça – Zombaria, graça.

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