O vapor de Cachoeira aparece,
freqüentemente, no cancioneiro popular da Bahia. Nas cantigas de roda, nas rodas de
samba, nos versos gerais. Dificilmente, na cidade do Salvador ou em qualquer parte do
Recôncavo, encontramos alguém que não houvesse cantado a conhecida quadra:
O vapor de Cachoeira
Não navega mais no mar
Bota o remo, toca o buso
Nós queremos navegar
A popularíssima copla apenas encontra concorrente naquela
tão cantada Eu fui no Tororó, que toda gente está sempre a dizer:
Eu fui no Tororó
Beber água e não achei
Encontrei bela morena
Que no Tororó deixei
Repartindo, no denominado folclore tópico, com a quadra supra, as preferências do povo,
o tema vapor de Cachoeira ganhou, contudo, maior expansão, vindo a formar um
autêntico e rico ciclo do nosso romanceiro regional. A constante Eu fui no Tororó,
realmente muito recitada, não veio, em verdade, a se desenvolver em versos de sentido
mais amplo de distintas modalidades e inspiração romântica. Ficou, apenas, numa única
trova com meras substituições de certas palavras. Tal, porém, não sucedeu ao vapor
de Cachoeira. A simples enumeração das diversas quadras do ciclo, arrumadas pelos
respectivos temas, dar-nos-á uma idéia exata da sua projeção. Inicialmente, a
constante "não navega mais no mar".
O vapor de Cachoeira
Não navega mais no mar
Arriba o pano, toca o buso
Nós queremos navegar
O vapor de Cachoeira
Não navega mais no mar
Puxa vela, bota vela
Nós queremos vadiar
O vapor de Cachoeira
Não navega mais no mar
Tira a prancha, toca o buso
Nós queremos namorar
Na barca de Cachoeira
Ninguém pode navegar [1]
Em seguida, as composições-registro, se assim nos permitirem denominar:
Adeus, Feira de Santana
Adeus, Santana da Feira
Lá se vai Lucas embora
No vapor de Cachoeira [2]
Toca o bonde pra lá
Toca o bonde pra cá
No vapor de Cachoeira
Eu quero me embarcar
O vapor de Cachoeira
Encalhou, não pode andar
Vou comprar uma marinete [3]
Pra meu bem acarinhar
Finalmente, as trovas românticas ou chistosas:
Dou-lhe uma, dou-lhe duas
Dou-lhe três, pela terceira
Lá vai meu amor embora
No vapor de Cachoeira
Lá vai uma, lá vão duas
Lá vão três, pela primeira
Lá vai meu amor embora
No vapor de Cachoeira
Ouvi tropel de cavalo
Ouvi bater porteira
Eu vi meu amor ir embora
No vapor de Cachoeira
Alfinetes são ciúmes
Agulha, variedade
No vapor de Cachoeira
Embarcou minha saudade [4]
O vapor de Cachoeira
Apitou ao escurecer
O amor que vai e volta
Nunca dá para esquecer
O vapor de Cachoeira
Navega na preamar
O sonho de toda moça
É pensar que vai casar
O vapor de Cachoeira
Já passou sem apitar
Mulher que se fia em homem
Morre seca de chorar [5]
Tantas referências ao vapor de Cachoeira não são, evidentemente, obra do acaso ou
necessidade de rima. O barco foi um acontecimento no início de sua atividade, e, no
decorrer dos tempos, tornou-se alguma coisa de muito preciosa na paisagem cultural
da Bahia e seu Recôncavo. A barca velha da linha de Cachoeira e a barca nova,
como bem observou João da Silva Campos, estão presentes nas cantigas baianas pelo
prestígio que desfrutaram no meio da nossa gente. O vapor de Cachoeira, que já
deixou de navegar, talvez somente para fazer cumprir o vaticínio do povo, expresso na
poesia anônima, foi um admirável instrumento de progresso nas águas da baía de Todos
os Santos. Uniu, durante quase século e meio, a metrópole ao sertão. Subindo às águas
do Paraguaçu, a barca de vapor, sonhada e realizada por Felisberto Caldeira Brant
Pontes, começou, em 1819, nova fase da história dos transportes da Bahia, quiçá no
Brasil.
O futuro visconde de Barbacena e seus sócios deram ao Recôncavo, ainda na primeira fase
da era insdustrial, um dos novos elementos de progresso, que foi o barco a vapor. Com
máquina adquirida na Inglaterra e barco construído na cidade de Salvador, homens
progressistas da Capitania fizeram-no inaugurar, a 4 de outubro de 1819, com a presença
do governador Conda de Palma, numa viagem inicial a Cachoeira. Grande evento na vida do
Recôncavo, que haveria de exercer, mui naturalmente, extraordinária influência em toda
a região.
Um navio que se movia sem a ajuda do vento ou a força das remadas. Natural, pois, que a
primeira embarcação do tipo a se locomover na baía de Todos os Santos e no Paraguaçu
despertasse interesse e formulasse novos juízos no pensamento do povo. Talvez, por isso
mesmo, conforme hipótese sugerida por Silva Campos, o fato de haver encalhado, e, ao que
parece, sido destruído o barco a vapor que primeiro apareceu em nosso meio, ganhou o
episódio proporções que se projetaram em nosso folclore. A constante não navega
mais no mar teria tido origem no encalhamento dos primeiros tempos do qual resultaria
a perda do barco, popularmente conhecido por barca velha. Depois, nos fins da
Regência, em novas bases, o transporte marítimo para Cachoeira passou a ser feito de
modo regular e o vapor de Cachoeira, como ficou conhecido na linguagem popular,
desfrutou grande importância na vida regional. Aparecia constantemente no noticiário dos
jornais, nas conversas cotidianas, e figurou em vários romances baianos. Marcos Pereira,
fabulosa personagem do Dois metros e cinco de Cardoso de Oliveira, nele viajou para
Cachoeira, quando de sua peregrinação pelos sertões da província [6].
No Feiticeiro de Xavier Marques encontramos que, vencido nas eleições, o doutor
Amâncio aproveitou o vapor de Cachoeira para sair da cidade [7].
Herman Lima, em Garimpos, que é muito auto-biográfico, conta sua ida para
Cachoeira, à procura da zona das Lavras, no vaporzinho Paraguaçu, numa viagem que
achou terrivelmente monótona [8]. Também Clóvis
Amorim, no seu Alambique, descreve uma viagem no vapor de Cachoeira [9]. E o autor de Jubiabá comenta:
"
É um trem que parou. Naturalmente leva para Feira de Santana os passageiros
do navio que chegou hoje em Cachoeira vindo da Bahia". [10]
Tudo em verdade, no transcorrer de tantos anos, contribuiu para dar dimensões
folclóricas ao vapor de Cachoeira, que conduzia gente e mercadorias da cidade maior para
as cidades menores e vilas interioranas da Bahia. A presença do vapor famoso no
populário baiano tem, sem dúvida alguma, profundas raízes geográficas e históricas.
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Notas[1]. CAMPOS, João da Silva. O vapor de
Cachoeira. Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. Bahia, 1930, nº
56, p. 523.
[2]. Com. por Elza Ribeiro Montalvão.
[3]. Marinete é denominação local de ônibus, por causa
do poeta futurista Marinetti, nome ligado ao nosso folclore.
[4]. CAMPOS, João da Silva. Op. cit. p. 525.
[5]. Com. pela folclorista Hildegardes Viana.
[6]. OLIVEIRA, Cardoso de. Dois metros e cinco. Rio
de Janeiro, Briguiet, 1936. p. 172.
[7]. MARQUES, Xavier. O feiticeiro. Rio de Janeiro,
Liv. Ed. Leite Ribeiro, 1922. p. 130.
[8]. LIMA, Herman. Garimpo. Rio de Janeiro,
Tecnoprint Gráfica S. A. 1967, p. 28.
[9]. AMORIM, Clóvis. O alambique. Rio de Janeiro,
José Olímpio, 1934. p. 32 ss.
[10]. AMADO, Jorge. Jubiabá. 12ª ed. São Paulo,
Martins, 1963. p. 184.
(SILVA, José Calasans Brandão da; BRAGA, Júlio Santana; TOURINHO, Maria Antonieta. Folclore geo-histórico da
Bahia e seu recôncavo.) |
 Chistosas Que tem chiste, engraçado, espirituoso.
Copla Quadra; Pequena composição
poética, geralmente em quadras, pra ser cantada. |