Vem-nos à idéia outra usança
desaparecida: a bengala.
Sim, a bengala.
Querem ver nela uma revuvescência da acha de préstimo e defesa do homem primitivo.
Símbolo de força e de autoridade, como o cajado, o cetro, a vara, o tacape, o báculo,
até a espada.
Tenha tido essa ou outra origem, não pretendemos esmiuçá-lo nem discuti-lo, à míngua
de erudição. Recordamos, apenas, seu uso constante ainda na nossa mocidade.
Velhos e moços traziam-na. Com garbo e carinho. Servisse de arrimo, de vaidade ou de
ameaça. A bengala delgada, flexível, custosa, de castão de ouro, prata, marfim
A
bengala modesta, de junco, sem ornatos. O bengalão do brabo,
brandindo com ostentação de valentia. Variedades de bengalas. Mas, sempre bengalas.
Nelas, os coiós se escoravam, nas esquinas, em poses fotogênicas
De outras vezes
serviam para sinais. Ou, para habilidades de molinetes. Isto, quanto aos jovens. Em mãos
de velhos que respeite! Se um deles, pouco camarada em assuntos de namoro das filhas,
surgia de repente e havia um flagrante.
Seu biltre!
Se o pilhar novamente aqui no meu portão, quebro-lhe esta
bengala no costado!
Para que brigar com o futuro sogro? Ele abrandaria depois, talvez. E, na verdade, a
bengala era de madeira rija
Em bengaladas, tantas vezes, terminavam festanças de rua, corridas de cavalos, reuniões
políticas. Era de praxe ir-se a tais sítios com bengala preventiva.
Cazuza, não se esqueça da sua bengala! Nessas folganças há sempre
atrevidos!
As bengalas andaram em canções e poesias. Ora, tidas por bengalas, ora por cacetes.
Eduardo das Neves, famoso palhaço e cantor de modinhas, tinha delas assim:
Nasci para malandro, malandro hei de ser,
Só quando morrer deixarei a malandragem
Não há melhor vida, nem tão divertida
Para competência com a capoeiragem
Gingando na rua, chapéu desabado
Lenço no pescoço, cacete na cinta
Todos me respeitam como valentão
E esses capoeiras, com seus porretes, desafiavam os contrários:
Não venhas
Chapéu de lenha
Partiu
Caiu!
As bengalas, entretanto, iam sendo um instrumento polido de bom-tom, de elegância
masculina. Os próprios pais zelosos das filhas não recorriam a tais processos de
violência. Amansavam. Quando muito, as bengalas serviam para castigar afoitezas de
natureza diferente: as que chocavam os maridos. Apontavam-se num Recife de outrora tipos
que já haviam provado semelhante gênero de repulsas.
O oferecimento da bengala de muirapininima com castão de ouro foi, por muito tempo,
clássico nas chamadas manifestações de apreço. Essas manifestações de apreço, como
de costume, visavam sempre a homenageados que pelos cobres ou pelos cargos estavam de
cima. A bengala andava de parceria com o retrato a óleo ou depois de crayon. E
estes retratos dão um capítulo saboroso
No século passado usou-se a bengala-estoque. Trazia escondida um estilete que em casos
difíceis saí em cena e podia desaparecer na barriga alheia. Talvez resquícios dos
espadins que se traziam escondidos sob os capotes na época remota das aventuras noturnas
de Romeus sem fidalguia.
A bengala é hoje objeto de museu. Outro dia, num ônibus, entrou um senhor idoso com uma
dessas bengalas de antigamente. E ouvi uma criança sentada perto dele indagar da moça
qua acompanhava:
- Que é aquilo, mamãe?
O aquilo era a bengala.
A estranheza dessa menina testemunha o desuso das bengalas até mesmo no apoio doméstico
dos vovôs inválidos. Porque à velhice, sobretudo, a bengala oferecia o préstimo do
equilíbrio e da segurança. Sem esquecer as escapadelas dos netos transformando-a em
cavalo.
Cadê minha bengala, Felicinha?
- Ora, cadê! O capeta do Zezinho está correndo com ela pelo quintal!
Os vovôs, agora, saem de automóvel. E os netos brincam
de avião. Para que mais
bengalas?
E, no tocante ao recurso de corrigendas, por meio das famosas
bengalas de nossos antepassados, a civilização mais apurada não o toleraria. Seria,
pelo menos, adotarmos no plano de nossas relações privadas o recurso da violências tão
do gosto de certas contendas internacionais, o que se tornaria domesticamente lamentável.
De resto, a polidez, a boa educação e o respeito, dos tempos em que vivemos, jamais
forneceria ensejo para semelhantes brutalidades.
Usada, hoje, a bengala seria como um simples e plácido bastão de fraternidade. E não
venham a dizer, por malícia, que por isso mesmo foi abolido
(SETTE, Mário. Maxambombas e
maracatus) |
 Corrigendas Admoestação.
Ornatos Enfeites. |