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O VAQUEIRO NORDESTINO

O vaqueiro nordestino não é aquele que saiu da beira-mar, no coice e nos flancos das boiadas, tangendo-as de Salvador para o sertão de Rodelas ou de Pernambuco para o Cabrobó. O vaqueiro nordestino formou-se no cadinho ecológico do sertão, com ingredientes étnicos fornecidos pelo branco e pelo vermelho, ligeira tintura do negro. Deu-se essa fusão de raças, quando passaram as mesmas a viver e a conviver no apartado modelador da hinterlândia.

Nos primeiros anos da expansão do gado pelas imensidões sertanejas do Nordeste, foi o gentio o elemento humano requisitado para a permanência nos currais. Para o índio domesticado, mas não civilizado, a vida no criatório vinha a calhar. Completamente afastado da civilização, nos afazeres dos currais distantes, gozava ali aquela liberdade que não concordara fosse desfigurada pelo sedentarismo das fábricas de açúcar, das fazendas de plantio, das datas de mineração. Cuidando do gado, vivia ele à solta, embrenhando-se no mato à procura de reses fugidias; dormindo ao relento nalgum galho de frondoso jequitibá, recoberto pelo pátio estrelado do céu nordestino; alimentando-se das ofertas da natureza em frutos silvestres, raízes e brotos, comendo a carne crua ainda quente e sangrando ou moqueada pelo calor de braseiros; bebendo a água límpida de fontes ocultas que as florestas guardavam cheias de ciúme. Viviam eles em pleno gozo e exercício de seus estalões culturais, virgens das influências exóticas do elemento branco colonizador, e sem o sufocamento que lhe pretenderam impor os dominadores, a não ser uma incipiente domesticação; e essa mesma, na dependência da conjuntura, pois o gentio, dado o seu status primitivo, mudava de comportamento sem maiores conjecturas.

A guerra contra os índios, no século XVII, carreou para o interior avultado número de elementos brancos que, em grande parte, acabou por fixar-se naquelas regiões, entregando-se igualmente aos trabalhos da pecuária. Foi quando a miscigenação tomou vulto, de vez que esses grupos de guerreiros, pela própria finalidade de seu internamento, não se faziam acompanhar de suas mulheres, de suas famílias, coisa que só ocorreu posteriormente. Surgiu então, esse tipo étnico caldeado, que Euclides da Cunha disse ser, antes de tudo, um forte: - o sertanejo. E o sertanejo é quem vai dar esse homem viril, resoluto, improvisador, destemeroso, desde logo integrado na vida e na ambiêmcia pastoril, essa figura quase lendária, cantada em prosa e verso: - o vaqueiro nordestino. Essa, a origem.

"O ciclo do gado – diz mestre Câmara Cascudo – determina o individualismo do seu participante. Dá-lhe a noção imediata de independência, de improvisação, de autonomia, de livre arbítrio, de arrojo pessoal. Fundada a fazenda, o vaqueiro, antigamente um escravo, ficava senhor do gado, da casa, dos cavalos, responsável pelas iniciativas imediatas para defender os animais entregues à sua energia. Movimentava-se livremente nos plainos dos tabuleiros e caatingas, no galope árduo do seu cavalo de fábrica, caçando reses tresmalhadas ou ariscas. A solidão ensinava-o a povoar de criações individuais o seu ermo, fazendo a sua viola, indo comprar parte nos bailes vizinhos, improvisados já sob o regime da quota ou da venda de bebidas e pequenos manjares locais". E prossegue o autor de Vaqueiros e cantadores: "A presença da responsabilidade criou o sentimento de autoridade, de mando próprio, de autodeterminação, longe da fiscalização de feitores e apaniguados fervilhantes nos engenhos de açúcar. Foi possível nascer o cantador, improvisador, o violeiro semi-profissional, o cangaceiro com as armas suficientes para enfrentar a lei que sempre ignorou, julgando-se inevitavelmente vítima e considerando o desforço pessoal uma legitimidade ou punidora de castigo legal esquecido". [1]

O panorama físico da região se desenvolve em tabuleiros e caatingas, espigões e espinhaços, e, cercando pequenas ilhas de matas, a vegetação xerófila, mirrada, espinhenta, crestada e ressequida como a terra, por uma incidência solar desmedida. José Norberto Macedo informa que: "Em certas regiões do nordeste sanfranciscano a incidência do sol se faz com tal intensidade e duração que a superfície do solo atinge temperatura superior a 50 graus centígrados. Calcula-se que mais de 3.000 horas de luz solar crestam anualmente aquelas terras, desidratando-as e matando-lhes a vida celular microscópica". [2] É a mesma situação de todo o polígono das secas e de outras áreas fora dele, onde o criatório se instalou.

A aridez do clima, a agressividade da flora, a periodicidade das secas e a esterilidade do solo escarmentado, enrugado, de serranias desnudas, essa ingrata região que o gentio batizara com o nome de pora-pora-eyma (lugar despovoado, estéril), afastava de plano qualquer iniciativa maior, qualquer veleidade de conteúdo agrícola. Ali era o asilo do tapuia, a tapuy-retama (região do tapuia). Esse, o meio.

"É natural, diz o grande Euclides da Cunha, que grandes populações sertanejas, de par com as que se constituíam no médio São Francisco, se formassem ali com a dosagem preponderante do sangue tapuia. E lá ficassem ablegadas, envolvendo em círculo apertado durante três séculos, até à nossa idade, num abandono completo, de todo alheio aos nossos destinos, guardando, intactas, as tradições do passado". [3]

Com essa maravilhosa argila foi modelado o vaqueiro.

Diz mais Euclides da Cunha: "O vaqueiro criou-se em uma intermitência, raro perturbada, de horas felizes e horas cruéis, de abstança e misérias – tendo sobre a cabeça, como ameaça perene, o sol, arrastando de envolto no volver das estações, períodos sucessivos de devastações e desgraças". " Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes. Fez-se homem, quase sem ter sido criança. Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o espantalho das secas no sertão. Cedo encarou a existência pela sua face tormentosa. É um condenado à vida. Compreendeu-se envolvido em combate sem tréguaa, exigindo-lhe imperiosamente a convergência de todas as energias". " Fez-se forte, esperto, resignado e prático".

Aduz, ainda, o mestre de Contrastes e confrontos que: "Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de tréguas. É o batalhador permanente, combalido e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre para um reencontro que não vence e em que se não deixa vencer; passando da máxima quietude à máxima agitação; da rede preguiçosa e cômoda para o lombilho duro, que o arrebata como um raio pelos arrastadores estreitos, em busca das malahadas. Reflete, nessas aparências que se contrabatem, aprópria natureza que o rodeia – passiva ante o jogo de elementos e passando, sem transição sensível, de uma estação à outra, da maior exuberância à penúria dos desertos incendiados, sob o reverberar dos estios abrasantes. É inconstante como ela. É natural que o seja. Viver é adaptar-se. Ela talhou-o à sua imagem: bárbaro, impetuoso, abrupto..."

O vaqueiro conhece a fazenda em que trabalha nos seus mínimos detalhes; pois em suas atividades ordinárias é obrigado a percorrê-la toda, devassando-lhe as intimidades, os pontos mais recônditos, os caminhos, as picadas, serras e acidentes do terreno, malhadouros, aguadas, brejos e lagoas. O isolamento dos ermos ensina-o a falar pouco, pis, quase sempre só, aprende a ser comedido e tranqüilo, silencioso como a imensidão dos campos. Tem olhos de lince, devido o exercício cotidiano do vaquejamento, das buscas pelos matos e cipoais das reses tresmalhadas. Pelas mesmas razões, tem ouvidos de tuberculoso, não lhe escapando um ruído por mais sutil que seja. Conhece inúmeros animais pelo nome e a muitos deles desde quando nasceram.

O cavalo é o companheiro de trabalho do vaqueiro, que o liberta tão logo terminadas suas lides diárias. As próprias condições do habitat não convidam o homem a permancer na sela depois de concluída sua faina. Ao contrário do que acontece no extremo-sul, "não há no Nordeste uma comunhão perfeita entre o cavalo e o homem". [4] Tão logo solto, o animal vai comer o verde que encontrar, sem merecer maiores atenções do vaqueiro. É rústico e até parece que dengues o espantaria. Moldado pela aspereza do meio em que vive e trabalha, habituou-se a procurar suas comodidades, a satisfazer suas necessidades atendendo apenas aos imperativos da sobrevivência. O homem quase não o auxilia.

No trabalho, porém, há uma identificação perfeita, estreita e mútua colaboração ligando o vaqueiro e sua montaria, nos momentos mais perigosos, nas correrias pelos carrascais espinhentos, pelas encostas abruptas, no emaranhado de cipós e galharias, muitas vezes a pique de rolar nos abismos ou de serem alcançados pelas aspas aguçadas dalgum barbatão selvagem, o cavalo avançando, retrocedendo, esticando-se, encolhendo-se, saltando de lado, empinando, mergulhando sob o galho pendido, passando por cima dos mais rasteiros. Os espinhos não o alcançam, defendido que está pelo peitoral de couro. É um valente.

Ao fazer-se ao campo, em seu cavalo de fábrica, carrega o vaqueiro o seu alimento, fácil de ser conduzido na bruaca de couro: é a paçoca de carne pilada e a farinha, alguns pedaços de rapadura, o comboeiro, carne cortada e misturada com a farinha, água fria na borracha, tudo preparado com antecedência para o trabalho nas grotas, chapadôes e tabuleiros, onde o auxílio humano não existe. Ao fim da tarde, quando o sol descamba e línguas de fogo agonizantes incendeiam o poente, retorna ele da lida, derreado sobre o quartau indolente, no coice de uma cabeça de gado. É quando ouve-se ao longe, o aboiar do vaqueiro, impregnando a tarde de melancolia, enquanto o dia morre... morre... e a boca da noite se abre engolindo o mundo...

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Notas

[1]. CASCUDO, Luís da Câmara. Tradições populares da pecuária nordestina. Rio de Janeiro, SIA, 1956, p. 9

[2]. MACEDO, José Norberto. Fazendas de gado no vale do São Francisco. Rio de Janeiro, SIA, 1956, p. 3

[3]. CUNHA, Euclides da. Os sertões. 20ª ed. Rio de Janeiro, 1946, p. 107

[4]. OLIVEIRA VIANA, J. F. Populações meridionais. t. II, p. 309


(GOULART, José Alípio. O ciclo do couro nordestino)

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