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PEIXES E PESCADORES DA REDINHA

Redinha é uma das praias mais belas de Natal, sobretudo porque ainda se conserva um tanto isolada da cidade, do outro lado do rio Potengi. O transporte até lá se faz, tradicionalmente, em botes a vela e velhas lanchas. Nos últimos anos, ligou-se a Natal por estrada de barro, meio precária, através da ponte de Igapó.

Durante a época de veraneio, - de novembro a fevereiro, - enche-se de famílias de vários municípios norte-riograndenses. Então, há sempre festas, bailes, competições esportivas, banhos de mar concorridos e ruidosos. Passado esse período, volta à tranqüilidade de praia de pescadores, barqueiros e moradores dos sítios vizinhos. De hábitos rotineiros, semelhantes a todos os homens afetos à vida do mar, os pescadores conservam rico folclore, impregnado de misticismo e crendices marinheiras, resultado da luta diária e desigual contra os elementos mais bravios da natureza: o mar, tempestades, peixes estranhos e perigosos.

Exemplo de religiosidade extremada desses homens ainda vive na memória da cidade. Anos passados, veranistas deliberaram construir ampla capela para a padroeira da Redinha, Nossa Senhora dos Navegantes, a fim de substituir a antiga capelinha, insuficiente para o número crescente de fiéis. Houve detalhe infeliz na construção: a nova capela dava as costas para o mar, impossibilitando que os pescadores vissem de longe a imagem da padroeira, - foi o que disseram na época. Por isso, quase uma guerra se desencadeou entre pescadores e veranistas, embora alguns dos últimos apoiassem a atitude dos pescadores. Quando se anunciou a transladação da imagem para a nova capela, os pescadores protestaram: a padroeira não sairia de sua capela primitiva!, - disseram. Os veranistas, apoiados pelas autoridades da igreja, impuseram seu ponto de vista e transladaram a imagem, quase à força, diante dos olhares rancorosos dos pescadores. Na mesma noite, como protesto, foi a imagem furtada e devolvida à antiga capelinha...

A querela durou anos, acirrando-se os ânimos nas temporadas de veraneio. Os pescadores sabotavam os veranistas contrários ao ponto de vista que defendiam. Não havia peixes para eles e evitavam cumprimentá-los. Muitos veranistas, desgostosos, abandonaram definitivamente a praia.

O episódio, bem explorado, daria filme delicioso!
(...)

Dias em que não se pesca

O pescador da Redinha tem seu calendário dos dias santificados, que o observa rigorosamente. Nesses dias não pesca em hipótese nenhuma.

Dia de Finados: "Se pescar, - dizem – só dá canela de defunto".

Dia de Santa Luzia: "Não se vê nada na pescaria".

Dia de Santo Antônio: "Não se pesca por causa da tormenta". Também porque nesse dia Santo Antônio foi enganado pela Curimã.

Contam que uma curimã disse a Santo Antônio que passava no mar e ele não a via. Duvidando, Santo Antônio passou o dia todo no mirador e, de fato, não viu a curimã. De tarde, o mesmo peixe passou e gritou de longe:

- Não te disse, Antônio, que tu não me vias?

Santo Antônio correu para vê-la e ela desapareceu...

Sexta-feira da Paixão: Não se pesca em nenhum canto.

Dia de Nossa Senhora dos Navegantes: É o dia da padroeira da Redinha, 16 de janeiro. Não se pesca nem na véspera e nem no dia.

Dia de São Miguel: Não se pesca porque um pescador foi pescar e aconteceu um fato estranho: jogou o tresmalho e este tornou-se em dois. O pescador não pôde segurar nada. Todos os anos, nesse dia, vê-se o tresmalho, mas ninguém o pega.

Dia de São Bartolomeu: Não se pesca no dia de São Bartolomeu porque "o diabo anda solto".


Peixes e crendices

São incontáveis as superstições relacionadas com os peixes mais comuns nas praias nordestinas.

Arraia: Logo depois de fisgada, os pescadores enterram o espinho, pois dizem que dá má sorte não tomar a providência. Outros dizem que, se o espinho for encontrado em um bote, este nunca mais pescará nada. O espinho e a cauda da arraia servem também para fazer feitiço. A cauda batendo numa pessoa faz secar.

Bagre: O espinho do bagre também é usado para feitiço. Logo depois de pescado, o pescador corta os espinhos da cabeça, pois a picada ou mata ou aleija. Protásio Melo assistiu pescadores puxarem uma rede onde vinha um bagre. Antes de retirá-lo, por entre as malhas, tiraram os três espinhos e os entregaram ao dono do tresmalho.

Estrela do mar: Bom para feitiço.

Xaréu: O xaréu tem um verme na cabeça. Dizem os pescadores que ali está o juízo do peixe.

Pintadinho: Quando o pescador avista o pintadinho, que acreditam ser o tubarão-baleia, manda deitar toda a tripulação e fazer o sino (signo) de Salomão: dois triângulos em sentido contrário. O peixe vai embora logo. Há também quem reze com o mesmo resultado.

Ciriboia: É um peixe pequeno, em forma de centopéia, com dois esporões e que vive na lama. Picada a pessoa por uma ciriboia, sofre dores vinte e quatro horas.

Mututuca: É como uma cobra: "morde com a boca" e a dor dura um dia.

Aneguim: Vive na lama. Se for pisado e a pessoa sentir a pressão, deve tirar o pé de lado, pois ele vem até a superfície picar. A dor tem duração também de um dia. Remédio: algodão passado na vagina de uma mulher.

Moréia: Se pegar o dedo de uma pessoa, rasga.

Bicuda: Peixe perigoso. Corta na sombra.

Agulhão de vela: É perigoso por causa do salto e do bico.

Camurupim: Cuidado com a pancada dada nos peitos por um camurupim. É morte certa.

Papa-terra: É cação pequeno, que corta uma pessoa com até três dedos d’água. (peixe de cor verde)

Baiacu: Comido, envenena e mata. Entretanto, na Paraíba, se come o baiacu pintadinho, mas só no mês de maio e no São João.

Garajuba: Pode-se comer, mas não se deve bater com ele no chão.

Tubarão de espelho: Encontrando-o, o pescador dá tudo o que tem, inclusive a cabaça com iscas, e depois foge, senão o peixe vira o barco. É a fosforecência, em cima do peixe, que lhe dá o nome.

Cavala: Em certas épocas, a cavala não deve ser comida, depois de carne fresca, pois provoca manchas que ficam para sempre na pele.

Tubarão sombrero: É dos mais perigosos. Encandeia todo mundo e deixa os pescadores com ar de doido.

Pirá: Tem dois espinhos. Cuidado com uma estrepada, pois dói muito. Geralmente inflama.

Peixe-bezerro: Um pescador da Redinha viu um desses peixes numa praia do norte. Era tão grande que, quem estava de um lado da cabeça, não via a pessoa do outro lado, - disseram.

Arraia jamanta: É peixe curioso, pois aparece, a princípio, pequeno, do tamanho de um prato. Depois, vem maior. Desaparece e volta ainda maior. E assim por diante. Até ficar tão grande como a sombra de uma nuvem no mar. O melhor a fazer é cair fora, logo.

Cangulo: O miolo do cangulo, o único peixe que dorme, - dizem os pescadores – serve para evitar que a pessoa fique doida.

Treme-treme: É tipo de arraia que produz forte descarga elétrica. O pescador Luiz Totônio diz, entretanto, que pega no treme-treme e não leva choque. É só usar o braço esquerdo...


(MELO, Veríssimo de. Xarias e canguleiros; ensaios de folclore e antropologia social aplicada.)

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