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MUTIRÃO
A cooperação vicinal, bem desenvolvida e
até mesmo estimulada em outros países, apresenta-se de forma rudimentar no Brasil. Os
observadores tem mesmo chegado à conclusão de que essa prática mutualista, de tão
grande importância para a economia de sitiantes e agricultores pobres, está em
decadência, senão em desorganização e desaparecimento.
Encontramo-la, entretanto, sob uma forma ou outra, em todo o território nacional, e com
mais vigor nos raros pontos em que existe a pequena propriedade, que esta cooperação
ajuda a sobreviver. À forma brasileira de auxílio mútuo entre vizinhos dá-se
geralmente o nome de mutirão ou adjunto, a primeira palavra indígena,
aportuguesada, a segunda uma palavra portuguesa. E com isto, é com a tradição africana
no particular, se identifica a origem deste costume no país. Os portugueses já se valiam
desta prática no Reino. Quanto aos índios, Yves dÉvreux observou o mutirão entre
os Tupinambás do Maranhão, o padre Fernão Cardim o noticiou num ponto não especificado
da costa e, mais recentemente, Stradelli o foi encontrar no baixo Amazonas. Há,
naturalmente, uma série enorme de variantes de mutirão e adjunto
ora próximas das origens ameríndias, como putirão, muquirão, putirum, puxirum, etc.,
no sul e no vale amazônico, ora designações particulares, regionais, que denunciam a
procedência portuguesa do costume vicinal, como arrelia, bandeira, batalhão,
boi-de-cova, faxina, etc., nos Estados nordestinos. Note-se que bandeira e batalhão
são termos empregados nas democracias populares para caracterizar um tipo de trabalho
cooperativo semelhante ao mutirão nacional. A traição de Goiás constitui uma
nova modalidade, inteiramente inesperada, de ajuda. Emílio Willems observou o mutirão
entre as populações de ascendência alemã de Santa Catarina.
O mutirão é a ajuda, em trabalho, que os vizinhos dão a algum sitiante ou agricultor
pobre, porventura em dificuldades. A não ser na traição, quem decide da
dificuldade é o interessado, que promove o mutirão. Os vizinhos comparecem, com as suas
ferramentas e utensílios, sem diferença do trabalho normal de todos os dias.
Habitualmente, o mutirão se faz para roçar ou capinar ou para uma farinhada (o putirum
de Raul Bopp na Cobra Norato) e, quando calha, para a cobertura de casas de sapé.
Sabe-se que as rendeiras nordestinas recorrem ao auxílio das companheiras quando tem em
mãos grandes encomendas. O beneficiário do mutirão paga o trabalho dos vizinhos com o
compromisso de participar de futuros mutirões.
Manda o costume que o dono ou patrão do mutirão, o seu promotor, forneça
comida e cachaça para os vizinhos que vêm ajudá-lo e que por sua vez, os ajude no
trabalho. A despeito dos aspectos lúdicos que o transformam em festa, o mutirão é
essencialmente uma ocasião de trabalho, que às vezes vai de sol a sol. Todos trabalham:
os homens na roça, as mulheres na cozinha, as crianças servindo comidas e bebidas. O
mutirão propicia canções e desafios cantados, dependendo da qualidade do serviço e do
ânimo dos participantes, terminando quase sempre com uma festa de dança que se prolonga
noite a dentro.
O mutirão desenvolveu certas regras, no sul do país. Alceu Mayanar Araújo, que
testemunhou o muquirão de São Luís do Paraitinga (São Paulo), informa que há
duas maneiras de realizar o trabalho em comum por tarefa ou numa só linha. Neste
último caso, os vizinhos avançam um ao lado do outro, do campo. Preferido pelos
sitiantes, o trabalho por tarefa (e a palavra tarefa deve ser tomada aqui no
sentido de medida de superfície) instiga a emulação entre os participantes: "As tarefas
ou eitos são divididos em quadras.
Na quadra trabalha um só indivíduo... A emulação parte do fato de todo o
trabalho a ser executado ser dividido primeiramente em duas grandes tarefas nas
quais competem os convidados e mais uma tarefa que é a do patrão e seus
camaradas. As duas tarefas que competem são divididas em quadras. Os trabalhadores das
quadras da tarefa A são companheiros, auxiliam-se mutuamente e procuram derrotar os
companheiros da tarefa B". O camarada que termina a limpeza da sua quadra vai
ajudar o companheiro mais próximo, e assim por diante. Aquele que acaba primeiro o seu
trabalho chama-se salmoura, o último caldeirão. Quando, entretanto,
termina a competição entre os dois grupos de vizinhos, estes reunidos vão dar o vivório,
ajudar no trabalho da tarefa atribuída ao promotor do muquirão e aos seus agregados.
Todos se igualam no mutirão, como simples camaradas de trabalho. Emílio Willens, que
observou o mutirão de Cunha (São Paulo), notou que o dono do sítio trabalhava ombro a
ombro com os vizinhos, de tal maneira que as pessoas que não conhecessem não o teriam
podido identificar entre os demais: "Não se estabelece nenhuma distância social
entre proprietários e agregados", Não escapou a Alceu Maynard Araújo "a queda
de toda e qualquer barreira social que possa existir entre proprietários e simples
camaradas..." Hélio Galvão, porém, encontrou no Nordeste um personagem chamado cabo,
que, aparentemente, tinha a função especial de comandar as canções durante o trabalho.
A forma de mutirão particular a Goiás tem o nome, estranho à primeira vista, de traição.
No mutirão em geral, a iniciativa parte do sitiante ou agricultor necessitado, que
solicita a cooperação dos vizinhos e prepara a comida e as bebidas para os convidados.
Na traição, ao contrário, são os vizinhos que organizam, às escondidas, o
grupo de trabalhadores para ajudar o companheiro em dificuldade. Alceu Mayanard Araújo,
na base de observações em Inhumas (Goiás), garante que essa modalidade de ajuda, mais
comum do que o mutirão na zona, "é de fato uma surpresa para o que a recebe",
sendo que, se o beneficiado não pode fornecer comida e bebida para os traiçoeiros,
estes se encarregam de tudo.
O simples compromisso moral de participar de outros mutirões basta para retribuir toda
esta boa vontade dos vizinhos. E é tal a importância social e econômica do mutirão que
se não pode comparecer pessolmente, o vizinho sempre manda alguém que o substitua no
trabalho comum. Esta espécie de participação é a regra, para os sitiantes e
agricultores mais individualistas ou mais abastados.
Parece não haver canções especiais de mutirão, ao menos como regra. No muquirão de
São Luís do Paraitinga, porém, cantava-se o brão, um desafio adaptado à
ocasião, e, no Rio Grande do Norte, Hélio Galvão pode recolher uma antiga canção de
faxina, provavelmente também uma adaptação, com certas entonações de aboio.
(CARNEIRO, Edison. A
sabedoria popular.) |
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