A tradicional festa de Nossa Senhora da
Glória, que se realiza, anualmente, a 15 de agosto, foi um dos grandes divertimentos dos
nossos antepassados, constituindo intenso motivo de alegria popular.
Nos últimos anos do vice-reinado, a ela compareciam os vice-reis, os mais altos
dignitários da igreja, autoridades, os protetores da irmandade e tudo quanto havia, entre
nós, de mais chique e mais elegante.
De 1808 em diante, com o desenvolvimento que tomou o Rio de Janeiro, pela residência
efetiva de dom João VI e elevação do Brasil a Reino Unido, a poética igrejinha de
Nossa Senhora da Glória do Outeiro, como todas as instituições da cidade, teve um
movimento extraordinário, aviventando o esplendor das festas da padroeira.
No tempo de dom Pedro I e de dom Pedro II, então, esses festejos, com suas romarias e
leilões de prendas, atingiram ao auge do seu esplendor, passando o dia da Glória a
constituir um dos acontecimentos maiores do ano.
Desde o amanhecer, repicavam os sinos do velho templo, cheio de adoráveis
reminiscências, e milhares de devotos e penitentes, levando promessas e empunhando velas
de cera enfeitadas de flores de pano e de vistosas fitas, subiam contritos
a ladeira.
Por volta das 10 horas, surgia a banda de música dos barbeiros. Seu diretor
informa Melo Morais Filho era um certo Dutra, mestre de barbeiros na rua da
Alfândega, que a ensaiava e fardava para as mais ruidosas funções. Todas as figuras
eram negros escravos. Seus uniformes não primavam pela elegância nem pela qualidade:
trajavam jaqueta de brim branco, calça preta, chapéu branco alto e andavam descalços.
Os que não sabiam de cor a partitura, liam-na pregada a alfinetes nas costas do
companheiro da frente, que servia de estante.
Os quarteirões da Glória e do Catete, a essa hora, já formigavam de gente. Bandeiras e
galhardetes, colchas de damasco, globos e outros preparos da esplêndida iluminação
completavam o pitoresco do sítio, que se animava para os suntuosos festejos. Das
carruagens intermitentes saltavam da boléia os criados de libré, descobrindo-se à
descida dos altos personagens do clero, das grandes damas da Corte, dos embaixadores, da
nobreza, que se dirigiam para o outeiro. De intervalo a intervalo, girândolas e foguetes
varavam o ar, estourando prolongadamente. Vendedores ambulantes, com tabuleiros cobertos
de panos brancos rendados, tentavam o poviléu com as suas
bugigangas ou com quindins e bom-bocados. Nos coretos, executava-se o Hino Nacional.
Oficiais e soldados da Guarda Nacional e da tropa de linha destacavam-se dentre o povo, e
os batedores do piquete do imperador relampeavam de perto as espadas, abrindo caminho. E
suas majestades e altezas, com o seu séquito opulento, apeavam, encaminhando-se rampa
acima, subindo os degraus de mármore do gracioso adro, e
desaparecendo em breve no profundo da igreja, cujo aspecto era deslumbrante. Terminada a
cerimônia religiosa, mesmo depois da retirada da família imperial, a igreja, o largo
pátio e a esplanada da ladeira permaneciam apinhados de pessoas.
À noite, sem perder a característica de pompa verdadeiramente real, a festa da Glória
interessava mais diretamente ao povo. As luminárias, o templo todo armado e circulado
exteriormente de luzes em globos e arandelas, a iluminação da frente de todas as casas
da redondeza, os barcos refletindo nágua as luzes de proa, as tocatas de violão,
as danças e os leilões de prendas alegravam toda aquela gente que tinha fé e se
divertia.
Seguia-se a indefectível queima de caprichosos fogos de artifício em terra e no mar, e o
clarão das águas destacava na amurada do cais e na extensão da rua aquela enorme massa
de povo, agrupando-se aqui e ali para melhor apreciar o surpreendente espetáculo.
Terminados os fogos, dispersava-se, a pouco e pouco, a multidão, feliz e alegre. Os
pomposos bailes nos aristocráticos solares e palacetes das redondezas, no entanto,
entravam pela noite até alta madrugada.
Segundo Machado de Assis, a festa da Glória era a Penha elegante, do vestido escorrido,
da comenda e do claque; a Penha era a Glória da rosca no chapéu, garrafão ao lado, ramo
verde na carruagem e turca no cérebro (cuca cheia).
(DUNLOP, C. J. Crônicas;
fatos, gente e coisas da nossa história.) |
 Adro Espaço, aberto ou fechado, que fica
diante do portal de uma igreja.
Contritos Que tem contrição; Arrependido, triste.
Poviléu Populacho, plebe, ralé. |