| A verde cimeira do Morro da Glória crescia
dos mares e espelhantes de sol, como uma esmeralda polida na selva de ouro de uma
odalisca. Recentemente fundada a real cidade de
São Sebastião do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá a compassava em sesmarias, que
doava aos pelejadores dos últimos combates contra os tamoios e seus aliados.
E aquela montanha que se agigantava coubera em partilha a
José Rangel de Macedo, em seguida a seu filho Francisco Rangel, mais tarde ao Capitão
Gabriel da Rocha Freire, e deste terceiro possuidor consta de escritura que temos à
vista, passara por compra ao Dr. Cláudio Gurgel do Amaral, que, em 20 de Julho de 1699 a
cedeu em patrimônio a Nossa Senhora da Glória. [01]
Ainda coalhadas das flechas dos gentios mortos e dos
destroços dos batalhões franceses, a baía do Rio de janeiro balançava em suas águas
os navios dos piratas franceses e flamengos, que transportavam para suas terra o ouro, as
resinas e o pau-brasil.
A colônia assim desacatada, armava o corso, dando caça
e abordagem aos pechelingues, que respiravam a largo pulmão na atmosfera da rapina e da
morte.
Na vargem da cidade, no morro de São Sebastião, os
novos sesmeiros opulentavam-se de doações ao passo que o ideal de Deus e da pátria
alentava-lhes o braço e trabalhava-se fundo nos seios dalma.
Em desenho de estatuário, eis alguns traços dos tempos
decorridos e a história patrimonial do outeiro da Glória, em cuja eminência a lenda,
erguendo nas trevas seu facho de estrelas projeta claridades serenas no campanário
derrocado da antiga ermida, e alumia as sombras errantes de tantos peregrinos que outrora
a buscavam nas romarias da fé.
E o archote dos mitos ardendo na noite dos séculos faz
ressaltar o vulto imponente do anacoreta Antônio Caminha, que, em 1671, em cumprimento de
um voto, fundara a primitiva ermida de Nossa Senhora da Glória. [02]
Desde logo a igrejinha perto das nuvens, aos lamentos do
mar e à reza dos ventos nas palmeiras, tornou-lhes um asilo de paz e uma escada mística
por onde a sua esperança ia resplandecer no céu.
Reconstruída como se acha atualmente, em 1714, em razão
de ser doado o morro à Sagrada Virgem no dia da festa a aurora encontrava sempre às suas
portas a turma dos fiéis.
Desde o velho rei era tradicional na família reinante do
Brasil o fervoroso culto à Senhora da Glória. Assim, semanas depois de nascido, lhe foi
apresentado no templo o senhor dom Pedro II, orando no ato o sábio dom Romualdo; e
reproduziuse igual cerimônia com sua alteza a princesa dona Isabel, subindo ao
púlpito o eloquente monsenhor Marinho.
Contam os antigos que à missa dos sábados jamais o
primeiro imperador deixou de comparecer com seus filhos e que mesmo depois de haver o
senhor dom Pedro II abandonado a tradição paterna, mandava as princesas dona Isabel e
dona Leopoldina assistirem ao santo sacrifício, que tinha lugar nos dia mencionados, às
oito horas.
Obedecendo ao sentimento altamente religioso que a
prendia à miraculosa Senhora, a família imperial concorria para o culto com
preciosíssimas dádivas tais como lâmpadas de prata, coroas de ouro e brilhantes mantos
e túnicas de brocados, cálices de ouro, etc.
Como recordação desses estilos, a princesa dona
Francisca em data posterior à do seu casamento com o príncipe de Joinville [03],
ofereceu à Igreja da Glória os parâmentos sacerdotais para a missa cantada.
No tempo de Pedro I as festas da Glória eram ofuscantes
de brilho pelo lado religioso de grandeza desuada como pompa exterior e de verdadeiro
caráter principesco, como conclusão aristocrática. Oficiavam bispos, pregavam oradores
célebres as missas eram de compositores da estatura de Pedro Teixeira, José Maurício e
Marcos Portugal. Cantavam no coro as vozes mais afamadas; e os sopranos pertenciam ainda
ao grupo dos sete castrados que o ilustre e tão desfavoravelmente julgado dom João
VI fizera vir da Itália.
À noite, os quarteirões do Catete e da Glória
povoavam-se como nunca. As músicas tocavam nos coretos, as casas e a ruas enfeitavam-se,
iluminavam-se; e os bailes da baronesa de Sorocaba que estuavam nos dourados salões de
seu palacete da subida do morro, eram honrados pelo primeiro Imperador cuja presença
representava a majestade da festa e a soberania do amor.
Em anos mais felizes do segundo reinado a festa de que
nos ocupamos tinha sentimento próprio. Afinado pelo diapasão das tendências devotas e
nacionais.
A crença popular não conhecia medida; o entusiasmo
público transbordava pelo que a religião tem de mais poético e o coração de mais
nobre.
À semelhança de um pássaro abrigado sob a rama que
cobre a terra de perfumada sombra, o povo refugiava-se nas suas inocentes e não se
preocupava inutilmente com as ondas subterrâneas de uma falsa ciência que esterilizava
nem se engolfava no indiferentismo que asfixia.
A festa da Glória era um exemplo palpitante: foi um ser
que existiu e de que hoje vemos apenas o fantasma que se esvaece coroado de rosas pálidas
e fanadas das visões de Macbeth.
O prólogo da admirável festividade eram as novenas.
No dia cinco, de manhã, as aias de Nossa Senhora,
naquela época moças da mais elevadas classe, bem como as baronesas de Sorocaba e de São
Nicolau, dona Margarida Delfim Barroso e dona Matilde Delfim Pereira, vestiam na sacristia
a sagrada imagem, que levavam para o altar. Ao escurecer, a igreja, toda amada e circulada
exteriormente de luzes em globos e arandelas, campeavam nos ares como um farol à
distância, dando aviso devotos e aos mareantes, das referidas novenas de que seria
teatro.
Desde logo os aprestos gerais começavam, as casas dos
romeiros atopetavam-se, as ofertas à Santa afluíam, e tudo estava a caminho.
A cabeleira da imagem, mandada pentear por devoção por
dona Margarida Delfim Pereira, já se achava com o armador; algum acessório que faltasse
viria até a véspera da festa, em que vestia-se pela segunda vez a padroeira do templo.
Logo que amanhecia os sinos repicavam os carros tirados a
dois e quatro cavalos desfilavam pelo cais da Glória, conduzindo devotos e curiosos
grandes senhores e nobres damas.
Belas mulatas, lustrosas crioulas, velhos e crianças
homens e mulheres de toda casta, aproximavam-se contritos entupiam a ladeira, deixando
após si grossas massas de povo, conduzindo a pluralidade dos romeiros velas de cera
enfeitadas de desenho, de flores de pano e vistosas fitas, braços, cabeças, pernas,
seios e barrigas de cera branca ou colorida, promessas de milagres que nas horas aflitas
fizeram fervorosos à Virgem de sua invocação.
Antes das dez horas da manhã a música de barbeiros
marchava, indo postar-se na baixada da igreja. Dessa banda, a principal, era diretor um
certo Dutra, mestre de barbeiro à rua da Alfândega, que a ensaiava e fardava para as
mais ruidosas funções.
Todas as figuras eram negros escravos; o uniforme não
primava pela elegância, nem pela qualidade, trajavam jaqueta de brim branco, calça
preta, chapéu branco alto, e, andavam descalços. Os que não sabiam de cor a parte,
liam-na pregada a alfinetes nas costas do companheiro da frente, que servia de estante.
A procura desses artistas era extraordinária. Ainda na
noite antecedente a banda havia acompanhado a procissão da Boa-Morte, que saía da Igreja
do Hospício, procissão abrigada a irmandades e a anjo cantor, que entoava a quadra:
Deus vos salve, ó Virgem,
Mãe Imaculada,
Rainha de clemência,
De estrelas coroadas...
Ao acompanhamento dos barbeiros, que abrilhantavam o
piedoso cortejo.
Na praça da Glória, um coreto magnífico recebia a
banda militar. A Lapa, o Catete e a ladeira ondulavam de gente.
Bandeiras e galhardetes, colchas de damasco, globos e
outros preparos da esplêndida iluminação completavam o pitoresco do sítio, que, dia e
noite, animava-se nos sinuosos festejos.
Sentados sobre a muralha que circula o templo, homens e
mulheres, tendo entre os joelhos as crianças, abriam os chapéus de sol, que os protegiam
das verberações ardentes; salteados aqui e ali, um ou outro indivíduo cavalgava o muro,
deitava as pernas para a banda de fora balançado-as, e as crias, bem vestidas,
preenchendo espaços vagos, espichavam a cabeça preta, arregalavam os olhos vermelhos
surdindo por trás da muralha de granito.
Quem subia a ladeira, lastrada de folhas aromáticas e
sombreada pelas colchas que flutuavam das janelas maravilhava-se da original galeria,
assustava-se da saraivada de foguetes que troavam, e, a cada momento, o eco da cisterna do
pátio de pedra repetia o fim das palavras que pronunciavam-lhe à garganta escancarada.
E os archeiros estendiam-se em alas...
As carruagens rodando vagarosas paravam em baixo;
saltando da boléia os criados de libré aproximavam-se da portinhola descobriam-se à
descida dos altos personagens do clero, das grandes damas da corte dos embaixadores da
nobreza enfim, que se encaminhavam para o outeiro.
De repente inúmeras girândolas vararam o ar, estourando
prolongadas. O hino nacional executava-se nos coretos; oficiais e soldados da guarda
nacional e de tropa de linha destacavam-se dentro o povo, e o dois batedores do piquete do
Imperador relampeavam de perto as espadas abrindo caminho.
E suas Majestades e Altezas, com o seu séquito opulento
e ilustre apeavam tomando a serpeante ladeira. Subindo os degraus de mármore do gracioso
adro e desaparecendo em breve no profundo da igreja.
O aspecto interior do templo era deslumbrante: ouro,
gemas preciosas, damasco, flores, luzes sem conta.
Apenas entravam Suas Majestades e as Princesas ocupavam o
docel. Nas tribunas junto do alto-mar, fascinavam de riqueza e formosura as aias e a
devotas de Nossa Senhora.
No coro a orquestra preludiava os intróitos da missa
solene quase sempre composição de José Maurício ou de Marcos Portugal.
Facciotti, Reale e Ciccioni, os três castrados que se
passaram do primeiro império, [04] lá se achavam
famosos sopranos que iam casar suas vozes às dos celebrados cantores do Lírico e da
Ópera Nacional.
E o alto clero, representado por suas culminâncias
deixava a sacristia ornada de emblemas votivos dando começo a missa.
Naqueles bons tempos pregavam ao Evangelho
Sampaio, Monte Alverne, Monsenhor Marinho, o cônego Barbosa França, e doze outros
oradores para quem a tribuna sagrada foi verdadeiro carro de triunfo.
Terminada a festa, mesmo depois da retirada de suas majestades,
a igreja, o largo pátio e a esplanada da ladeira permaneciam repleto das multidões que
se substituíram persistindo a lufa-lufa, o prodigiosos concurso, até depois do fogo de
artifício, queimado às dez horas.
À noite a festa da Glória, sem perder a sua
característica de pompa verdadeiramente real, interessava mais diretamente ao povo. As
luminárias no templo embandeirado, a iluminação da frente de todas as casas do
quarteirão os barcos refletindo nágua as luzes da proa as famílias sentadas em
cadeiras à porta das habitações as tocadas de violão e os bailes modestos alegravam
aquela gente, que tinha fé e divertia-se na felicidade comum.
O Te-Deum celebrava com a grandeza do estilos admiráveis
com a assistência de sua Majestade e quando os sinos repicavam marcando o termo da
solenidade parecia o eco enfraquecido das salvas das fortalezas que algumas horas antes
haviam anunciado o final da missa cantada e festiva de Nossa Senhora da Glória.
E suas majestades, descendo a montanha sonora das levas
de povo um teto listrado de bandeiras e radiante de luzes dirigiam-se ao palacete em que
ultimamente funcionou a secretaria de estrangeiros para tomar parte nos esplendorosos
bailes do Baía. [05]
Ninguém imagina as riquezas decorativas daquele
edifício iluminado por dentro e por fora sulcado de globos acesos o jardim, contornadas
de copos de cores as duas pirâmides - ao som da música à queda das cascata ao perfume
das flores! Como não se elevaria o ideal do artista e do amante naquele âmbito
orientalmente fantástico!...
Nos salões amplos e riquíssimos, os cantores do Lírico
faziam-se ouvir ao estrépito dos aplausos, a aristocracia trocava entre si galanteios
escolhidos e passeando nas salas à espera das danças o corpo diplomático, os membros do
parlamento e os altos funcionários do Estado adiantavam, com as suas damas adornadas de
pérolas e brilhantes que fascinavam ao brilho dos lustres de cristal e dos candelabros da
prata e de ouro maciço.
As toilettes de remontado valor e fino gosto
artístico, corre na tradição, tornavam mais encantador ainda o semblante das estrelas
da noite que eram habitualmente a senhora de Meriti, as marquesas de Abrantes e de
Monte Alegre. Madame de Saint-George, as senhoras Jerônima de Aguiar, Souza Franco,
Moller e Margarinos, a cujo lado resplandecia divina a princesa de São Severino,
nobilíssima esposa do Ministro de Nápoles.
E as Suas Majestades inauguravam o baile honrando a
primeira quadrilha e a fidalga festa desdobrava-se rápida e encantada como o vôo
transparente de uma fada nas regiões míticas.
Enquanto no palacete do Baía iniciavam-se quadrilhas e
valsas as mesmas cenas tinham lugar em casa do senador Cassiano, [06] da baronesa de Sorocaba, de dona Rita Pinto Magesi, que por
devoção à Nossa Senhora da Glória festejavam-lhe o dia com estrondosos bailes.
Às dez horas da noite, caprichosos fogos de artifício
queimavam-se em terra e no mar, e a luz do fogo nas águas destacava na murada dos cais e
na extensão da rua o povo em tropa, agrupando-se aqui e ali, para melhor apreciar o
surpreendente espetáculo.
E pouco a pouco as multidões dispersavam-se....
Os bailes entravam pela noite alta, pela madrugada...
É da lenda, que, quando o último baile do Baía
terminou uma luz única que bruxoleava na torre da igreja, rolando ao longo do muro como
uma lágrima, apagou-se...
E a festa da Glória passou à tradição!
================================
Notas:
[01] Gabriel da Rocha Freire foi o último possuidor do antigo Morro
de Leripe, dado em sesmaria a Julião Rangel de Macedo, segundo Vieira Fazenda. O Dr.
Cláudio Gurgel, ou Grugel como ele assinava, do Amaral, fez a doação em 20 de junho de
1699, apud Vieira Fazenda, e não 20 de julho de 1699. Deu ainda 100 braças na Chácara
Oriente na praia da Carioca, e nessas imediações construiu e comandou um fortim,
denominado da Glória ainda existente em 1748. Cláudio Gurgel Amaral exerceu
cargos públicos relevantes ordenou-se padre e morreu assassinado numa noite ao sair de
sua chácara que ficava onde hoje se estende a rua Taylor. 'Antiqualhas e Memórias do Rio
de Janeiro', Revista Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 86, vol.
140, 357 (C).
[02] Esse Antônio Caminha português do Aveiro, ermitão da Glória,
deu tema ao romance de José de Alencar, sob a mesma denominação. Pelo que apurou, era
anacoreta latifundiário, senhor de muitíssimas terras, vendendo-as, comprando-as. Nunca
se fez padre e deixou descendência conhecida. Andava vestido com um hábito da Ordem
Terceira de São Francisco e a primitiva imagem de Nossa Senhora da Glória foi a obra de
suas mãos. Ainda vivia em 1713, procurando substituir a capelinha de taipa por uma mais
sóilida. Ver Afrânio Peixoto, 'A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro',
publicação nº 10 do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
Rio de Janeiro, 1943. Os técnicos do SPHAN opinam que a Igreja se construiu nos primeiros
anos do século XVIII mais precisamente logo em seguida ao ano de 1714. A Igreja
foi restaurada recobrando suas linhas e fisionomia primitivas. Vieira Fazenda, opus
cit., 352, 'Ermitão Caminha' e tomo 95, vol. 149 da Revista Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro, 'Morro da Glória', 26 (C).
[03] Dona Francisca, filha do Imperador dom Pedro I, casou no Rio de
Janeiro a 1º de maio de 1843, com Francisco Fernando Luís de Orleans, Príncipe de
Joinville filho de Luís Felipe, rei dos franceses. Dona Francisca, nascida a 2 de agosto
de 1824, faleceu a 27 de março de 1898. O príncipe veio a falecer em 16 de junho de
1900, com 82 anos (C).
[04] O derradeiro a falecer foi Antonio Ciccioni, 28 de outubro de
1870. Vieira Fazenda, que conheceu retrata-lhe: - "A grande altura, o tronco curvado,
a tez macilenta e já enrugada pelos anos, davam a esse ancião aspecto respeitável
aumentado pela comprida sobrecasaca preta, sempre abotoada. Fora gentil rapagão em tempos
idos e, segundo é fama, tivera rosto e voz pela alcunha de Capado", - 'Antiqualhas
e Memórias do Rio de Janeiro', Ver. Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, tomo 88, 299 (C).
[05] Manuel Lopes Ferreira Baía, barão e depois visconde de Meriti
faleceu no Rio de Janeiro a 26 de fevereiro de 1860. Grande do Império Comendador das
Imperiais Ordens de Cristo e da Rosa, era riquíssimo dando bailes suntuosos na noite de
15 de agosto atraindo a aristocracia carioca e corpo diplomático. Essas festas são
citadas nas crônicas de outrora como os mais originais e deslumbrantes rivalizando e às
vezes vencendo os do marquês de Abrantes, seu genro. O palacete Baía ocupava o local
onde se ergue o palácio São Joaquim na Glória residência do cardeal arcebispo do Rio
de Janeiro. Sobre o esplendor dos bailes do Meritti, ver Wanderley Pinho, Salões e
Damas do Segundo Império, São Paulo, 1942, 131-133, 292. (C).
[06] Cassiano Espiridião de Melo Matos, magistrado, senador do
Império, em 1836, pela província da Bahia. Faleceu em 1857 (C).
(MORAES FILHO, Melo. Festas e tradições populares
do Brasil) |