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QUE TRATA DO MUITO
PARA QUE PRESTAM AS RAÍZES DO CARIMÃ

Muito é para notar que de uma mesma coisa saia peçonha e contrapeçonha, como da mandioca, cuja água é cruelíssima peçonha, e a mesma raiz seca é contrapeçonha, a qual se chama carimã, que se faz desta maneira. Depois que as raízes da mandioca estão curtidas na água, se põe a enxugar sobre o fogo em cima de umas varas, alevantadas três a quatro palmos do chão, e como estão bem secas, ficam muito duras, as quais raízes servem para mil coisas, e tem outras tantas virtudes; a principal serve de contrapeçonha para os mordidos de cobra, e que comem bichos peçonhentos, e para os que comem a mesma mandioca por curti assada, cuidando que são outras raízes que chamam de aipins, bons de comer, que se parecem com ela, a qual carimã se dá esta feição: tomam estas raízes seca, e rapam-lhe o defumado da parte de fora e ficam alvíssimas e pisam-nas muito bem, e depois peneiram-nas e fica o pó delas tão delgado e mimoso como de farinha muito boa; e tomada uma pouco dessa farinha e delida em água fria, que fique amendoada, e dada a beber ao tocado da peçonha, faz-lhe arremessar quanto tem no bucho, com o que a peçonha que tem no corpo não vai por diante. E também serve esta carimã para os meninos que tem lombrigas, aos quais se dá a beber desfeita na água, como fica dito, e mata-lhes as lombrigas todas; e uma coisa e outro está muito experimentada, assim pelos índios, como pelos portugueses.

Da mesma farinha de carimã se faz uma massa que posta sobre as feridas velhas que tem carne podre lhe come toda, até que deixe a ferida limpa; e como os índios estão doentes, a sua dieta é fazerem deste pó de carimã uns caldinhos no fogo (como os de poejos) que bebem, com que se acham mui bem por ser muito leve, e o mesmo usam os brancos no mato, lançando-lhe mel ou açúcar, com o que se acham bem; e outras muitas coisas de comer que se fazem desta carimã que se aponta no capítulo que se segue.

Em que se declara que coisa é farinha-de-guerra, e como se faz carimã, e outras coisas

Farinha-de-guerra se diz, porque o gentio do Brasil costuma chamar-lhe assim pela sua língua, porque quando determinam de a ir fazer a seus contrários algumas jornadas fora de sua casa, se provem desta farinha, que levam às costas ensacada em uns fardos de folhas que para isso fazem, da feição de uns de couro, em que da Índia trazem especiaria e arroz; mas são muito mais pequenos, onde levam esta farinha muito calcada e enfolhada, de maneira que, ainda que lhe caia num rio, e que lhe chova em cima, não se molha. Para se fazer esta farinha se faz prestes muita soma de carimã, a qual, depois de rapada, a pisam num pilão que para isso tem, e como é bem pisada a peneiram muito bem, como no capítulo antes fica dito. E como tem esta carimã prestes, tomam as raízes da mandioca para curtir, e ralam como convém um soma delas, e, depois de espremidas, como se faz à primeira farinha que dissemos atrás, lançam um pouco desta massa num alguidar que está sobre o fogo, e por cima dela uma pouco de farinha de carimã e, embrulhada uma com outra, a vão mexendo sobre o fogo, e assim como se vai cozendo lhe vão lançando do pó de carimã, e trazem-na sobre o fogo, até que fica muito enxuta e torrada, que a tiram fora.

Desta farinha-de-guerra usam os portugueses que não tem roças, e os que estão fora delas na cidade, com que sustentam seus criados e escravos, e nos engenhos provêm dela para sustentarem a gente em tempo de necessidade, e os navios que vem do Brasil para estes reinos não tem outro remédio de matalotagem, para se sustentar a gente até Portugal, senão o da farinha-de-guerra; é um alqueire dela da medida da Bahia, que tem dois de Portugal, se dá de regra a cada homem um mês, a qual farinha-de-guerra é muito sadia e desenfastiada, e molhada no caldo da carne ou do peixe fica branda e tão saborosa como cuscuz. Também costumam levar para o mar matalotagem de beijus grossos muitos torrados, que dura um ano, e mais sem se danarem, como a farinha-de-guerra, Desta carimã e pó dela bem peneirado fazem os portugueses muito bom pão, e bolos amassados com leite e gemas de ovos, e desta mesma massa fazem mil invenções de beilhós, mais saborosos que de farinha de trigo, com os mesmo materiais, e pelas festas fazem as frutas doces com a massa desta carimã, em lugar da farinha de trigo, e se a que vai à Bahia do reino não é muito alva e fresca, querem as mulheres antes a farinha de carimã, que é alvíssima e lavra-se melhor com a qual fazem tudo muito primo.

(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587)

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