É de se imaginar que os
primeiro marinheiros que ali se situaram, ainda no século
XVII, assentaram seus currais e alevantaram suas moradas nas vizinhanças de algum poço
ou cacimba capaz de oferecer refrigério nos meses de seca. E raros poços se formavam nas
águas apartadas dos rios. A cacimba é que era e ainda é cavada em suas areias
algumas fartas, capazes de despachar maior pesos de gado outras mais ronceiras
obrigando o sertanejo a mudar, mais dias menos dias, os paus de
bebida até esbarrar no salão. Espiando melhor o solo
e a vegetação ou mesmo em tentativas de aventura, cavoucavam cacimbas longe dos rios,
sem outro instrumento que o muque no cabo da alavanca, picareta e pá palmo a palmo
até dar nos veios dágua da pedra-mole ou na desesperança da rocha mais
dura.
A água é que garante a fixação e do chão é que tinham de tirá-la para o gasto dos
homens e dos bichos, durante os oito meses de seca. E nem sempre era fina e leve; algumas
pesadas, salobras e turvas, parecendo mais, na cor, caldo-de-cana. Ocasionalmente quando
algum serrote ou algum lajedo apresentava maior cavidade
o tanque capaz de juntar as águas da chuva ou que para eles corriam
era e ainda é, limpo, varrido e coberto, de modo a serem dali carregadas ou servirem
para, em derredor, lavar roupa.
O açude veio depois, trazido pela ciência da outra banda do mar ou pela lição de
alguma grota, de ombreiras apertadas, onde algum cordão-de-pedra
fazia represar as águas de um riacho.
Embora o Pe. Manoel de Jesus Borges, ainda em 1706, tenha requerido terras nas ribeiras do
Curimataú (Agreste paraibano, limites com o Rio Grande do Norte) para fazer assudes aonde
houver capacidade, no Seridó, ao que parece, o mais velho
açude, de que temos notícias, é o do Recreio (Caicó), construido em 1842. Hoje é a
região mais açudada do Nordeste e, no município de Caicó, contam os de lá, na ponta
do lápis, mais de mil barragens, entre grandes e pequenas. Em enquete que procedemos
(dez/1958), somava o Seridó, entre barreiras, açudecos e açudes particulares
(construídos sem auxílio do D. N. O. C. S.) e capazes de guardar água por mais de um
ano, 694 unidades...
Garantida a água, em poços ou cacimbas, para o homem e o gado, careciam carregá-la para
os gastos de casa o que, primitivamente, deve Ter sido feito em recipientes preparados com
os recursos do lugar; borrachas, ocos de imburana seccionados
fechados em têsto e as clássicas cabaças já de uso índio grandes, pequenas,
compridas (marimbas), redondas ou de-colo, usadas como cumbucas ou serradas em cuias. Com
o tempo e na tentativa de arremedar barris comprados na "praça", é que se
atreveram a fazer suas primeiras ancoretes que presas, aos
pares, aos cabeçotes das cangalhas, fizeram do jumento o veículo-tanque daqueles
sertões.
A cerâmica local, paralelamente, contribuiu com a quartinha,
o pote e a jarra. Esta, de maior capacidade, nas casas, apoia-se em forquilhas ou suportes
as cantareiras. Louçeiro é chamado o artesão que manufatura as cerâmicas. E os
há afamados, feitores de louça fina, bem acabada, bem queimada e esfriadeira, i. é, revedora, de vez que a evaporação da água na superfície
exterior provoca maior resfriamento no vaso.
Os cuidados de higiene eram rudimentares, como rude era e ainda é a vida por aqueles
mundos. A cacimba de beber assim chamada a de usos das pessoas é, diariamente,
esgotada, seca da água velha, e contida em uma armadura de tábuas ou um pote perfurado
com tampa também de madeira. Assim fazem, para os bichos do mato e as criações nela
não chafurdarem. Em casa, a água é coada na boca do pote em um pano de algodãozinho e
nela ainda alguns colocam pedaços de enxofre. Dizem que faz bem à saúde e impede a
criação de martelos! Os potes e jarras são conservados
tampados com um têsto de tábua em alça; a caneca, neles mergulhada para tirar água,
costuma ser de flandres, provida de comprido cabo e tendo os bordos dentados para evitar
que alguém, menos avisado, nela venha beber. Algumas canecas mais engenhosas tinham
sistema de pipeta.
Quando a empreitada de algum trabalho em léguas dista da fonte dágua, na cabeça
ou na borracha conduzem o líquido de que necessitam. Nas diligências mais distantes,
reclamando a ausência de alguns dias, a água era carregada em borrachões, na carga de
um animal, juntamente com a matalotagem da boca, instrumentos de trabalho, rede de dormir,
etc.
A água potável é para o sertanejo, mais que para outro vivente, uma constante
preocupação. Ainda hoje, quando após os intermináveis meses de estio, as primeiras
nuvens de inverno começam a fiar e a água a correr farta nas goteiras, avexam-se em
lavadas as telhas pelas primeiras pancadas de chuva arrebanhar todo o
vasilhame de casa (jarras, potes, alguidares, latas, etc.) para guardar água-de-chuva.
Água boa, não só para os gastos de casa, como para bater e
alvejar a roupa encardida pelas águas pesadas dos meses de seca.
Os de maior posse constroem cisternas; algumas com a
capacidade para tirar toda a seca, i. é, abastecer a família no período de estio. São
depósitos de alvenaria impermeáveis e estanques para onde canalizam, por meio de calhas,
a água dos telhados. Mais raramente, e quando um lajedo sucede aflorar nas proximidades
da morada, fazendo carreira-dágua durante as chuvas, fazem um tanque de alvenaria,
tampado, tendo na entrada um ralo ou tela de filtração e a saída em torneira. Ali
entesouram zelosamente a água de beber de que carecem para atravessar os meses de seca.
(FARIA, Osvaldo Lamartine de. Conservação
de alimentos nos sertões do Seridó.) |
 Ancoreta
pequeno barril provido de alças que se conduz aos pares presos aos cabeçotes da
cangalha; há dois tipos de ancoretas; um com capacidade para uma lata (18 litros) e outro
para duas latas e meia. As cargas, em jumento, são arrumadas com 4 ou 2 ancoretas, de
acordo com a capacidade das mesmas.
Bater o mesmo que lavar roupa; a
expressão vem, provavelmente, do fato de as lavadeiras ensaboarem a roupa e baterem-na de
encontro a uma tábua ou laje no ato da lavagem.
Borracha saco de couro para
transportar água; odre.
Cisternas "As cisternas eram
muito numerosas na Palestina, visto como o povo dependia muito das águas de chuva. Nas
cidades construíam as cisternas nas torres dos muros que as encerravam. Também as faziam
debaixo das casas e dos pátios internos para onde canalizavam as águas pluviais que
desciam dos telhados. Nos campos abertos, as bocas das cisternas eram cobertas com grande
pedra e nos lugares desertos, além da pedra, ainda a cobriam com terra para a esconderem
melhor". (Dicionário da Biblia.)
Cordão-de-pedra Formação
rochosa, granítica, disposta em reta ou em forma de muro de arrimo, transversalmente às
"perna de corgo" ou riachos.
Marinheiro designa o sertanejo aos
tipos louros e claros reminiscência, provável do português colonizador
Paus de bebida tronco roliço,
preferivelmente de carnaúba, colocando nas cacimbas limitando a terra da
"praça" da água, para que esta não se tolde com o pisoteio do gado quando ali
bebe.
Quartinha moringa, bilha.
Salão sub-solo argiloso, duro e
impermeável
Serrote pequena elevação
pedregosa. |