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SONHEI COM O CURUPIRA

A literatura de cordel que enfoca os mais variados temas, não deixou o cCurupira de lado. Na tentativa de conscientizar a enorme massa de camponeses acerca dos graves problemas ecológicos que defrontamos nas últimas décadas, o poeta nordestino Diniz Vitorino escreveu cinquenta e três estrofes com o título Sonhei com o curupira, que compilamos. Ei-las:
Ilustração de Marcos JardimToda criança tem sonhos
Tem ilusões e fantasias,
Na meninice eu sonhei
Com reinos de pedrarias,
Belas visões que me cercam
Até aos presentes dias.

Em sonho vi selvas puras
Envolvidas por verdumes,
Como cidades selvagens
Cheias de encanto, perfumes,
Iluminadas por raios
De luzes de vaga-lumes.

Nos sonhos por mim sonhados
Eu vi campinas bordadas,
Onde fontes de cristais
Com ondas aveludadas,
Bebiam seiva nos troncos
Das árvores perfumadas.

No meu castelo de sonhos
Vi cintilantes cenários,
Sanhaços acompanhados
Por um coral de canários,
Ouvindo os sons matinais
Dos uirapurus lendários.

Sonhei com quintais viçosos
Com ramalhetes nos muros,
Arbustos, fortes, lenhosos
Conservando aromas puros,
Na pele fresca e suave
Dos doces frutos maduros.

Pensei que visões tão lindas
Nunca desaparecessem,
Porém a marcha dos séculos
Fez com que todas morressem,
E num berço frio de trevas
Sonhos terríveis nascessem.

Voltei de novo a sonhar
Mas com sombras diferentes,
Sonhei com monstros de ferro
Mastigando em finos dentes,
Raízes de arbustos mortos
Que não deixaram sementes.

Sonhei com a terra seca,
Cheia de buracos feios,
Como uma mãe desnutrida
Circundada de aperreios,
Sem amamentar os filhos
Por não ter leite nos seios.

Sonhei com máquinas de aço
Com finas navalhas tortas,
Cortando a raiz da vida
Dos arvoredos das hortas,
E a natureza chorando
A falta das filhas mortas.

Sonhei que as florestas eram
Pelos homens devastadas,
E as aves donas da selva
Sem abrigos nem pousadas,
Eram pelos caçadores
Cruelmente exterminadas.

Sonhei que os lagos azuis
Que em tom selvagem cantavam
Vendos os arvoredos mortos
Ao invés de cantar choravam,
Sentindo a falta das sombras
Que as folhas verdes lhes davam.

No sonho eu senti que a selva
Que foi reino dos segredos,
Hoje soluça e desmaia
Sentindo o calor dos dedos,
Dos homens que põem fim
À vida dos arvoredos.

Vi no sonho que a natureza
Clamava com desenganos,
Não destruam, não devastem
Com golpes tão desumanos,
Aquilo que conservei
Nos seios por tantos anos.

No sonho fui transportado
À verde e rara montanha,
Pensei que estava sozinho
Quando uma figura estranha,
Levantou-se resmugando
Dum tronco de pau piranha.

O vulto era cabeludo
Com diferentes sinais,
Boca rasgada, olhos negros
Braços moles, pés pra trás,
Peito largo, pernas finas
Meio metro pouco mais.

A minha vida é uma lenda
Amo os campos dadivosos,
Os animais são meus filhos
Desde o feio aos mais formosos,
E defendo a fauna e a flora
Da mira dos criminosos.

Eu disse-lhe tuas palavras
Para mim são desonestas,
Se defendes flora e fauna
Com arcos, flechas e bestas,
Porque deixas que destruam
Os animais das florestas?

Disse então ele triste
Não me censures assim,
Toda vez que morre um pássaro
E uma floresta tem fim,
A natureza me castiga
Morre um pedaço de mim.

Quando incendeiam as matas
Eu choro alisando os toucos,
Mas luto só contra todos
Não posso com tantos loucos,
Assim meu reinado verde
Vai se destruindo aos poucos.

Seu forte olhar penetrante
Se incendiava em centelhas,
E cinco aves pequeninas
Duas azuis, três vermelhas,
Brincavam sobre seus ombros
Lhe beliscando as orelhas.

Festejando a fronte sua
Aves trinavam nos ares,
Porcos, veados, mocós
Chegavam doutros lugares,
Pulavam se divertindo
Lambendo seus calcanhares.

Eu me aproximei do vulto
E murmurei em tom caipira,
Quem és tu? Por qual motivo
Tanto a fauna te admira?
Ele disse eu sou lendário
Eis meu nome CURUPIRA.

Fui forte lutando ao lado
Dos bravos índios selvagens,
Esses também foram mortos
Restam somente as imagens,
Sepultados em silêncio
Das derradeiras paisagens.

Hoje vejo árvores mortas
Sem hastes, folhas nem ramo,
Eu me oculto na penumbra
Choro, lamento e reclamo,
Corro pra não ver a morte
Da floresta a que tanto amo.

Os animais meus amigos
Morreram mais da metade,
Vítimas dos seres terrestres
Que por esporte ou maldade,
Devastam sem precisão
Matam sem necessidade.

Não sei porque tanta fúria
Contra as paisagens floridas,
Onde não há plantas vivas
As matérias poluídas,
Transportam micróbios mórbidos
Pondo em risco nossas vidas

Não há razão pra contar
As árvores ramalhudas,
Saiba que, a própria figueira
Aonde enforcou-se Judas,
Deu sombra e lançou perfume
Das belas flores miúdas.

Pra que matar animais?
Se os animais nada entendem
Mas uns prendem, outros matam
Aves que a ninguém ofendem,
E os que matam, são mais loucos
Do que os malucos que prendem.

Nessa hora o CURUPIRA
Baixou a face humilhado,
E disse volta meu poeta
Dando ao Brasil um recado,
Que eu fico afogado em ânsias
Esperando o resultado.

Diga ao povo brasileiro
Que plante mais um arbusto,
Nunca mate um pobre pássaro
Que matar é ser injusto,
Toda vez que explode um tiro
Eu choro e tremo de susto.

Peça que plantem árvores
Nos campos e nas residências,
Deixem que as matas vigorem
Pra que nossas existências,
Sejam banhadas de aromas
Em lagos puros de essências.

Revele ao Brasil que onde
Não tem paisagem eu não entro,
E eu quero ver esta pátria
Com plantas verdes no centro,
Como um jardim tropical
Com aves cantando dentro.

Inda diga por favor
Aos caçadores astutos,
Que ao invés de matarem aves
Plantem, colham belos frutos,
Que o fruto alimenta mais
Que a carne dos bichos brutos.

E diga a cada um que leve
Muitas sementes nas mãos,
Jogue-as por onde passar
Encoste estrume nos grãos,
Que breve o Brasil terá
Frutos por todos os chãos.

Diga que os animais
Estão desaparecendo,
Cada um animal ferido
Tombando ao solo e morrendo,
É mais uma espécie rara
Que a pátria está perdendo.

Diga a todos os patrícios
Que não matem não devastem,
Para armadilhas brutais
Os animais nunca arrastem,
E plantem mais para que as matas
Primitivas não se gastem.

Que a vida que há na planta
Que anima o animal;
É a mesma que nos anima
Que faz todo ser igual
Cada um necessitando
Dos outros todos em geral

Eu disse seu CURUPIRA
Pegue a bagagem e vá
Para a Estação Ecológica
Do rio Tapacurá,
E sinta o vigor que existe
Nas matas verdes de lá.

Tapacurá é reinado
Dos animais do país,
Sabiás e Bem-te-vis,
Jacarés, Cobras, Veados,
Porcos, Pacas e Quatis.

Lá ninguém escuta um tiro
Nem mesmo por brincadeira.
Quem matar será punido
Quem cortar qualquer madeira
É tido como inimigo
Da floresta brasileira.

Nessa hora o CURUPIRA
Perguntou-me em tom glacial:
Aonde é isto meu poeta?
Respondi claro e gentil:
No engenho dos velhos padres
Nas matas do pau-brasil.

O CURUPIRA sorrindo
Apertou a minha mão,
Disse-me obrigado
Por tão nobre informação,
É necessário que eu vá
Fazer de Tapacurá
A minha nova mansão.

Com um sorriso nos lábios
Por trás do monte encantou-se,
Chegando em Tapacurá
Alegremente instalou-se,
Vive perto aos matagais
Cercado por animais
Nas margens dum lago doce.

Logo após que o CURUPIRA
Em Tapacurá chegou,
Os animais regressaram,
A passarada voltou,
Flores se abriram nos talos
E o pau-brasil soltou halos
Que ao Brasil embalsamou.

O CURUPIRA agradece
Ao bom povo brasileiro
Que reconstruiu seu reinno
E acabou seu cativeiro,
Manda um abraço fiel
Para Paulo Maciel
Reitor Humberto Carneiro

O CURUPIRA inda envia
Uma mensagem divina,
Pra Vasconcelos Sobrinho
Que sua básica doutrina
É não parar uma hora
Batalhando em prol da flora
E da fauna nordestina.

Não esqueceu o CURUPIRA
De um nome varonil,
O Roldão Siqueira Fontes
Grande rei do pau-brasil,
Que em menos de cinco anos,
Já plantou cinquenta mil.

Também manda o CURUPIRA
Seu abraço fraternal
A Paulo Nogueira Neto
Ao almirante Belart,
A Lutzenberger em Porto Alegre
Da ecologia capital.

Também no Espírito Santo
Defendendo os passarinhos
O professor Ruschi espalhou
Por toda parte belos ninhos,
A ele também o CURUPIRA
Dedica o maior carinho.

Em Brasilia, Faria Lima
Na bela Câmara Federal
Promove uma grande luta
Da poluição ambiental,
O CURUPIRA lhe agradece
Por esse esforço sem igual.

Nisto soprou sobre os sândalos
Uma brisa perfumada,
O CURUPIRA encantou-se
Numa flor fresca orvalhada,
Branda da cor da neblina
Dos olhos da madrugada.

Senhores não falei mal
De quem animais matou,
Nem de quem por displicência
Uma árvore não plantou,
Mas como sou bem mandado
Resolvi dar o recado
Que o CURUPIRA mandou.

É óbvio que outras estórias envolvem o curupira na vastíssima Literatura de Cordel.

(In ROSSATO, José Carlos. 'Curupira'. Anuário do folclore. Olímpia)

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