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AS PALHAÇADAS DE JOÃO TRAQUINO
José Martins dos Santos
1
Quem nunca sorriu com nada
Agora tem que sorrir
Porque joão Traquino
Este é fogo pra tinir
Com comédia e palhaçada
Ninguém pode competir
2
Com um ano falava tudo
Já era bem sabidinho
Quando brincava com o pai
Chamava boca de ninho
Galinha de pinto novo
Não escapava um pintinho
3
Era primo de João Grilo
E com tudo ele bolia
Menino brincava com ele
Sempre chorando saía
Ficou de uma forma tal
Que todos se aborrecia
4
Com onze anos de idade
João pegou ser perseguido
Por um padre que andava
Num caminho mal dirigido
Se encontrou com João
Porque andava perdido
5
Quedê sua mãe meu filho
Pergunta o padre avechado
João Traquino olhou e disse
Está muito interessado
Se lembrou de minha mãe
De meu pai não está lembrado
6
O padre disse está certo
Meu filho quem é seu pai
João olhou e sorriu
Disse esta agora vai
Tá me chamando de filho
E pergunta quem é meu pai
7
Menino quedê seu pai
Me seja mais educado
Disse João num arrependido
Meu pai está ocupado
Minha mãe está pagando
As paixões do ano passado
8
O padre disse menino
O que é arrependido
João disse ou seu padre
O senhor não é sabido
Os seus anos de colégio
Foi o tempo mais perdido
9
Arrependido é um roçado
Lhe contar agora eu vou
Meu pai botou um pequeno
Muita lavoura lucrou
Já ele se arrependeu
Porque grande não botou
10
O padre disse menino
Você não está errado
Por que a tua mãe paga
As paixões do ano passado?
João olhou ele e disse
A meu Deus mal empregado
11
Mamãe o ano atrasado
Deu a luz a um menino
O ano passado não deu
Para cumprir o destino
Está pagando as paixões
Dando a luz a um pequenino
12
Menino em que te ocupa
Me arresponde também
Diz João o senhor não sabe
Porque estudo não tem
Estou comendo os que chegam
E esperando os que vem
13
O padre disse estás doido
Que conversa é esta à toa
João lhe disse seu padre
Eu estou com lamproua
Papai quando vem da rua
Pra mim traz coisinha boa
14
O senhor não gosta dessa
Por enguinorar demais
Papai quando vem da rua
Pão, café, carne ele traz
Enquanto tem vou comendo
Se acabando compra mais
15
O pai de João Traquino
Chegou nesta ocasião
O padre lhe diz bom dia
Como vai o cidadão
Tava esperando o amigo
Pra lhe pedir João
16
Querendo dá-me o menino
Tenho o gosto de levá-lo
E botar em uma escola
Para os mestres ensinar-lo
Um menino inteligente
Tenho o prazer de educá-lo
17
Disse o velho ele querendo
O senhor pode levar
João Traquino disse eu quero
Disse o pai vá se arrumar
Vá estudar com o padre
Que pode lhe ensinar
18
João saiu com o padre
E ele lá no caminho
Olhava para João dizendo
Tu vai me pagar bichinho
As charadas que me destes
Eu vou descontar tudinho
19
O padre estava empulhado
Para poder se vingar
Enventou umas perguntas
E disse eu vou perguntar
Se João não responder
Vai morrer de apanhar
20
O padre levou João
Com o seu plano traiçoeiro
João Traquino dizendo
Eu acerto teu pandeiro
Tu vai encontrar a tampa
Do teu velho tabaqueiro
21
O padre chegou em casa
De raiva falou inglês
E disse pra João Traquino
Te digo com rapidez
Teu quengo vai me pagar
Toda raiva que me fez
22
João olhou para o padre
E depois ficou calado
Ficou dizendo consigo
Eu ajeito esse safado
Se ele bolir comigo
Vai ver um peso pesado
23
O padre disse a João
Agora tu vai saber
O colégio que eu tenho
É pra você responder
De sete a oito perguntas
Não dizendo vai morrer
24
É pra dizer o que é que eu sou
Dentro da religião
Seu padre não é um padre
Assim respondeu João
Padre não, sou papa-hóstia
Pegue couro seu ladrão
25
Aquela minha empregada
Me diga o que ela é
É mulher igual às outras
E seu padre não deu fé
Mulher não, é uma folgazona
Em seu cara de bebé
26
Ia passando um gatinho
Perguntou o padre ingrato
Que animal é aquele
João respondeu é um gato
Gato não seu mentiroso
Que é um papinha-rato
27
Disse o padre João me diga
O que se sorta em novena
Em cima de traz estouro
Não dizendo o lombo emprena
Diz João eu sei que é fogos
E o senhor não me condena
28
Fogos não, é claros mundos
Não faça cara de chouro
Só assim João Traquino
Tu me pagas o dizafouro
Feiche os olhos e agüente firme
Faça lombo e lá vai couro
29
O padre disse João
Tu vai apanhar que berra
Na derradeira pergunta
E nessa mesma se encerra
O que é que cai das nuvens
E ensopa a nossa terra
30
João respondeu é chuva
Eu digo com confiança
O padre disse é mentira
Porque se chama bonança
Pegue o couro safadinho
Pra não conversar lambança
31
O padre disse te lembra
Quando eu andava perdido
Me encontrei com tu João
Fizesse de mim bandido
Agora você pagou
Pra não ser tão atrevido
32
João lhe disse seu padre
O senhor não se sai bem
Meu mal está se passando
Mais tarde o seu é que vem
Quem gosta de dar tem filho
Não bate no de ninguém
33
Um dia o padre dormindo
Da tragédia dislembrado
João Traquino escutou
Tava de sono ferrado
João disse agora mesmo
Eu me vingo desgraçado
34
O João pegou um gato
Pôs um foguete na cauda
Amarrou e tocou fogo
João lhe disse é camarada
Olhe o fogo lhe devora
Eu estou do lado de fora
E a porta está feichada
35
Levante-se seu papa-hóstia
Deste seu sono tão brabo
Que lá vai papinha-rato
Com claro mundo no rabo
Se não acudir com bonança
Se pegar na traficança
Ficais com mil e um diabo
36
O padre se acordou doido
Com a zuada de João
O gato onde passava
Deixava a destruição
O padre agoniado
Dizendo ou que danado
Ou que danado João
37
João Traquino correu
O padre ficou zangado
Sempre isso acontece
É com quem quer ser vingado
Martins que tem paciência
Dada pela providência
Sempre é quem tem lucrado
(SANTOS, José Martins. In BRANDÃO, Théo. A história de João Traquino ou o
menino sabido e o padre. Boletim alagoano de folclore.) |
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