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EXEMPLO DE DESAFIO:
O DESAFIO DE SEBASTIÃO DE ENEDINA COM ZÉ EUSÉBIO

Sebastião quando canta
O padre deixa a igreja,
O valentão deixa as armas
Por mais valente que seja,
Os namorados se alegram
Corre a noiva abraça e beija.

Zé Euzébio quando canta
As ondas do mar bafejam,
As andorinhas se juntam
Peneram em cima e festejam
O sol vira, a lua pende,
Os namorados se beijam.

Sebastião quando canta
O mundo suspira e geme
O oceano se agita
Corre o vapor perde o leme
Depressa se forma o tempo
Cai curisco, a terra treme.

Zé Euzébio quando canta
O mundo geme e suspira
Quebra muro e rompe serra
Faz coisa que se admira.
Faz proezas no repente
Que até parece mentira.

Sebastião quando canta
Alegra quem está doente
O poeta perde a rima
O cantor perde o repente
Faz cousa que se admira
Baixa a tranca e trinca o dente.

Zé Euzébio quando canta
Treme o sul e abala o norte
Solta a bomba envenenada
Vomitando fogo forte
Conversa com Deus no céu
Joga cangapé na morte.

Sebastião quando canta
As freiras deixam o convento,
Mulheres deixam os maridos
E moças o casamento
O rio corre pra cima
A chuva desfaz-se em vento

S – No dia que determino
Faço tudo que desejo,
Pego a vaca tiro o leite,
Boto, qualha, faço queijo,
Boto cinturão em cobra
Suspensório em caranguejo.

Z – No dia que determino
Faço tudo quanto entendo
Piso milho, penero massa
Faço pão, reparto e vendo
Fecho a casa, abro e tranco
Faço fogo, apago e acendo.

S – No dia que determino
Faço o rio correr pra cima
Galinha ciscar pra frente
Poeta perder a rima,
Faço do peito viola
Da língua bordão e prima.

Z – Na noite que durmo pouco
Amanheço de lundu
Boto a viola no peito
Pego um cantor, como cru
As tripas eu dou ao cachorro
O bofe eu dou ao urubu.

S – Zé Euzébio é hoje o dia
De burro tirar diploma
Professor deixar cadeira
O papa fugir de Roma
Mate o urubu, tire as penas
Faça o jantar, bote e coma.

Z – Sebastião tu quer ver
Como ferro vira ouro.
E homem vira mulher
Cutia vira besouro?
Do poeta quero a língua
Do cantor quero o couro.

S – Zé Euzébio, acho mais fácil
Padre deixar a batina
A moça deixar o namoro
E o operário a oficina
É mais fácil um boi voar
Que tu vencer Enedina.

Z – Cantor nas minhas unhas
Quanta mais fala, mais erra
Eu achava muito custoso
O Kaiser perder a guerra
E não fugir para a Holanda
Abandonando a sua terra.

S – Sebastião de Enedina
Fala mais que papagaio
Tem mais força que Sansão
É mais veloz que um raio
Pega um cantor em janeiro
Só solta no mês de maio.

Z – Cantor que canta comigo
Come fogo e morre louco
Eu ando atrás de cantor
Como abelha atrás do ouco
Como gavião por pinto
Galinha por milho pouco.

S – Zé Euzébio hoje é o dia
De cobra jogar cacete
Urubu jogar navalha
Dá carrapato em azeite
Papa-vento dizer missa
Galinha choca dá leite.

Z – Tudo isso pode ser
Mas nada disso acredito
É mais fácil o mar secar
Anta apanhar de mosquito
Urubu jogar navalha
É um brinquedo esquisito.

S – De arroz com farinha seca
Tenho visto fazer bife,
Tenho visto caranguejo
Fazer manobra com rifle
Vi uma galinha com dente
Na cidade de Recife

Z – Aonde foi o Recife
capital que tu andou
Tu nasceu alí nos Picos
E da lama o pé não tirou
Saiu por ladrão de bode
Que a polícia te deportou.

S – Canário que canta muito
Costuma borrar o ninho
Quem tem janela de vidro
Não joga pedra em vizinho
Tua raça todo é ladrona
Filho de rato e ratinho.

Z – Agora ferveu-me o sangue
Botou-me sal na moleira
Nos Picos era teu costume
Roubar galinha na feira
Roubar panela de tripa
Como eu vi na Pimenteira.

S – Zé Euzébio é tão fiel
Como o rato guabiru
Faz de galinha carniça
E ele um grande urubu
Padre, soldado e cigano
São três classes iguais a tu.

Z – Ontem vi Sebastião
Na beira do rio Poti
Comendo farinha seca
Com caroço de piqui
Roubou de um cego na feira
Um bolo de buriti.

S – Cara de preto infezado
Venta de negro vilão
Vi um aleijado chorando
Que lhe roubaste o bastão
Lhe deste dez réis de esmola
E pediste trouco de um tostão.

Z – Sebastião aonde mora
Galinha não bota ovo
Pinto não come xerém
Nem se cria frango novo
Vira lubis-home à noite
Vive amedrontando o povo.

S – Se eu virasse lubis-home
Dava fim logo em tu
Era um descanso do povo
Podiam criar peru,
Rato enforcado de igreja
Cabeça de guabiru

Z – Eu agarro um cantador
Arranco o nó da guela
Amarro num pé de pau
E mando encostar a fivela
Dou um cristel de pimenta
Morre de febre amarela.

S – Eu agarro um cantador
Arranco os dentes e o queixo
Entro no nó da goela
Toda barriga remexo
Viro de papo p’ra cima
Enquanto bulir não o deixo

Z – Cantador que eu pegar
Chora soluça em meus pés
Vai trabalhar alugado
Ganha por dia um dez réis
Todo fim de mês recebe
De saldo trezentos réis

S – Cachorro morto de fome
Tudo que se joga aceita
Fiscal, formiga de roça
Febre forte da maleita
Mau vizinho te persiga
Murrinha da nova seita

Z – Sebastião queres ver
Como cobra dança tango?
Urubu dança chorando
Gavião dança com frango
Pato dança com galinha
Caboré dança com vango?

S – Eu agarro um cantador
Viro de perna pro ar
Chamo cabra mais ruim
Sento em cima mando dar
Corto a língua tiro o couro
E deixo o bruto berrar.

Z – Eu quebro um dobrão nos dedo
Acho mais mole que papa
Vomito bomba de fogo
Solto canhão rapa-rapa
Pego uma barra de ferro
Pranto o dente, voa a lapa.

S – Sebastião quando canta
Sente no peito um pigarro
Zé Euzébio pega o boi
Bota no chão que eu amarro
Quando Enedina morrer
Só se fazendo um de barro.

Z – O que mais apreciamos
É um cantor de com força
Dinheiro e mulher bonita
E uma casa que tem moça
Quando faltar Zé Euzébio
Só se fazendo um de louça.

S – Fazer um preto de louça
É querer que gelo aqueça
Assar manteiga em espeto
Quem não existe apareça
Comprar chapéu para os pés
E botina para a cabeça.

Z – Sou preto mas sou querido
Nunca roubei de ninguém
Tenho a consciência limpa
E tu não sei se a tem
Caboclo como tu
Não vale um dez réis xem-xem

S – Sou como governador
Nó que eu dou só eu desato,
Agarrando um cantador
Enquanto bulir eu bato
Pego vivo bebo o sangue
Depois de sangrar eu mato

Z – Zé Eusébio é um perigo
No dia que se assanha
Agarra um cantor gouteira
Enquanto mexer apanha
Dá um cristel de pimenta
Deixa mais mole que banha

S – A corda pobre arrebenta
Do lado que a falha tem,
Cantador do teu calibre
Tenho encomenda de cem
Para mandar de presente
Para o museu de Belém.

Z – Agora digo também
Já que tu meteste a taca:
Eu ficando no museu
Tu casas com a macaca
Toma conta do portão
Não deixa entrar urucubaca.

S – Tu pensar que canta bem
Cara de chinês doente
Xales de velha parteira
Boca de velho demente,
Dor de barriga de cego
Jumento sem nenhum dente.

Z – Cara de preguiça morta
vento de paracuru
Pescoço de orangotango
Cabeça de chipanju
Corpo de vango molhado
Barba de espeta caju.

S – Agora vamos mudar
Cantar fora do comum
Canto brando, moderado
Sem zuada, sem zum-zum
É oito, é sete, é seis, é cinco
É quatro, é três, é dois, é um

Z – Graúna não é anum
Farinha não é arroz
Francisco não é Cazuza
Agora não é depois
É nove, é oito, é sete, é seis,
É cinco, é quatro, é três, é dois

S – Só por serdes vós quem sois
Falo no bom português
Vão desculpando algum erro
Ao menos por esta vez
É dez, é nove, é oito, é sete
É seis, é cinco, é quatro, é três.

Z - Faço o que nunca se fez
No repente me dilatro
Num dia vou ao cinema
No outro vou ao teatro
É onze, é dez, é nove, é oito,
É sete, é seis, é cinco, é quatro.

S – Todo nó cego eu desato
Todo nó no dente eu trinco
Cantador fica abismado
De reparar como eu brinco
É doze, é onze, é dez, é nove
é oito, é sete, é seis, é cinco.

Z – Homem que raspa a coroa
Ou é padre, ou frade, ou reis
Eu pra cantar nunca tive
Dia semana, nem mês
É treze, é doze, é onze, é dez
É nove, é oito, é sete , é seis.

S – Uma casa gotejenta
Duas meninas chorando
Três criadas acalentando
Quatro mulher ciumenta
Cinco molho de pimenta
Seis relhos de couro cru
Sete praga de urubu
Oito xale de parteira
Nove velha cozinheira
Dez cantador como tu

Z – Dez cantador como tu
Nove velha cozinheira
Oito xale de parteira
Sete praga de urubu
Seis relhos de couro cru
Cinco molho de pimenta
Quatro mulher ciumenta
Três criada acalentando
Duas menina chorando
Uma casa gotejenta

S - Dez viajantes comendo
Nove panelas de tripa
Oitos cabras bons na ripa
Sete aleijados correndo
Seis cegos se maldizendo
Cinco pragas de cigano
Quatro corre em cada ano
Três barcos cheios de farinha
Dois trens correndo na linha
Um navio no oceano

Z - Um navio no oceano
Dois trens correndo na linha
Três barcos cheios de farinha
Quatro corre em cada ano
Cinco praga de cigano
Seis cego se maldizendo
Sete aleijado correndo
Oitos cabra bons na ripa
Nove panela de tripa
Dez viajantes comendo

S – Uma amante apaixonada
Duas mulheres magra e feia
Três negros no nó da peia
Quatro onça aperriada
Cinco touro na malhada
Seis vaca boa de leite
Sete tinas de azeite
Oito Alemanha assanhada
Nove soldado da Armada
Dez cabra bom no cacete

Z - Dez cabra bom no cacete
Nove soldado da Armada
Oito Alemanha assanhada
Sete tinas de azeite
Seis vaca boa de leite
Cinco touro na malhada
Quatro onça aperriada
Três negros no nó da peia
Duas mulheres magra e feia
Uma amante apaixonada

S – Dez armazém de ferragem
Nove loja de fazenda
Oito caixeiro na venda
Sete navio de viagem
Seis carregando a bagagem
Cinco embarcando no porto
Quatro viajante morto
Três mulher batendo sola
Dois cegos jogando bola
Um infeliz sem conforto.

Z - Um infeliz sem conforto
Dois cegos jogando bola
Três mulher batendo sola
Quatro viajante morto
Cinco embarcando no porto
Seis carregando a bagagem
Sete navio de viagem
Oito caixeiro na venda
Nove loja de fazenda
Dez armazém de ferragem

S – Cantor que eu pego
Deixo demente
Um mês doente
Aleijado e cego
Eu arrenego
Fazendo pouco
Deixo ele louco.
Perde o assunto
Fica defunto
Com o peito oco

Z – Cantor que assanha
Que incha a garganta
Nem colhe nem planta
E no fim apanha
Fica na banha
Virando a bola
Perde a viola
No meio da rua
É moda tua
Negro d’Angola.

S – Cantor valente
Eu corto a língua
Morre à míngua
E perde o repente
Se negro é gente
Recife é pasto
O mar é gasto
Relho é cadarço
O negro é falso
Até o rasto

Z – Eu na parcela
Compreendo tudo
Burro orelhudo
Língua de tramela
Olho de ramela
Cara de choro
Boca de agôro
Réu de maldade
Roupa de frade
Cupim de touro

S – Cara de angu
Charuto seco
Casa de beco
Ninho de urubu
Tijolo cru
Costa de peia
Bucho de areia
Barriga mole
Venta de fole
De légua e meia

Z – Calango mole
Rato de igreja
Urubu festeja
Teu corpo, bole,
Mastiga e engole
Carne diluída.
Cobra espremida
Cara de intrujo
Eu tenho nojo
Da tua vida

S – Barba de quandu
Cachorro de sela
Soco de quinzela
Rato guabiru
Perna de urubu
Barriga de esturro
Venta de chamurro
Beiço de purão
Cavalo do cão
Orelha de burro.

Z – Lenço de pagé
Carroça de lixo
Arroto de bicho
Cabeça de ambé
Eu te dei pé
E tu queres a mão
Moleque vilão
Barriga de besta
Ladrão de sexta
Bucho de feijão.

S – Bicho de força é leão
Bicho que corre é cavalo
Quem marca hora é relógio
Quem dá sino é badalo
Quem se engana é porque quer
Quem canta de graça é galo

Z – Quem tem filho barbado é camarão
Quem canta de graça é galo
Quem trabalha pra homem é relógio
Bicho que corre é cavalo
Não vejo dinheiro no prato
Vamos para o badalo.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores)

O desafio de Sebastião de Enedina com Zé Euzébio foi publicado pelo poeta popular Firmino Teixeira do Amaral, em Recife. Não creio na existência dos dois adversários mas o debate é característico pela agilidade e agudeza dos remoques. Os cantadores começando pelas colcheias, passaram às décimas e terminaram nas parcelas de dez pés.

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