II
E agora, o que outros sabem,
viram ou repetem de ouvida.
MEDICINA CURATIVA E PREVENTIVA
1 Beber água depois de chupar cana faz urina doce (nome
popular do diabete).
2 Não se deve tomar banho após cortar o cabelo: faz congestão
cerebral.
3 Cura-se rapidamente a dor e a inflamação produzidas pela
picada do bagre, aplicando-se sem demora um pouco de mênstruo de mulher sobre a ferida.
4 O soluço das crianças de peito desaparece pondo-se uma bolinha
de fios de baeta vermelha, tirados dos cueiros e umedecidos de saliva, na testa da
criança.
5 Um tiro ou outro estampido forte, de surpresa, produzido em
baixo da cama de um doente de maleita, faz cessar incontinenti o ataque de frio e
tremor. Haverá uma ação do susto sobre o sistema nervoso?
6
O chá do caranguejo grauçá cura puxado. Obtém-se igual resultado com o
cozimento da areia apanhada no rasto de um homem cuja esposa lhe é infiel.
7 Remédio poderoso contra a blenorragia é beber de manhã em
jejum um copo dágua serenada, isto é, daquela que se deixou durante toda a noite
ao ar livre, misturada com um punhado de farinha de mandioca (ver o número 20).
8 Para a retenção da urina não há como o chá de uma perninha
de grilo. (ver capítulo I).
9 O gargarejo de um decocto da formiga de roça cura as
inflamações da garganta. Efeito idêntico se obtém com o cozimento da lagartixa. (ver
capítulo I).
10 Curam-se as queimaduras ou, pelo menos aliviam-se-lhe as dores,
com cataplasmas de manteiga espalhada sobre papel amarelo de embrulho. Efeito da
gordura animal? Butiróleo das farmácias? A recomendação do papel amarelo deve
provir apenas de que nas mercearias se compravam pequenas porções daquele alimento,
enroladas em papel barato, dessa cor.
11 Sapo aberto pelo ventre e aplicado no pescoço do doente faz
rebentar os tumores da garganta. (ver capítulo I).
12 O uso perseverante do chá das folhas da mangueira cura prisão
de ventre. (ver capítulo I).
13
Os morféticos recuperam a saúde, comendo carne de urubu, como se fora galinha.
Há quem recomende usar só o figado do vulturídeo.
14 Quando alguém se machuca seriamente, dá-se-lhe a beber sem
demora o cozimento de um pinto recentemente saído do ovo e esmagado num pilão. Com isso
evitam-se lesões e resolvem-se os hematomas internos. Note-se que pilão
aqui é um grande grau de madeira resistente, e não o instrumento de bater, que se diz mão
de pilão.
15 Para a cura da sarna e erupções cutâneas semelhantes, o
melhor que há é chupar muitos cajus esfregar vigorosamente o bagaço na pele e após
algum tempo, o mais longo possível, tomar banho, de preferência em água corrente.
Ação do tanino sobre os parasitos ou simples efeito mecânico da esfregação?
16 O pelo do gato doméstico produz puxado, principalmente nas
crianças. Alergia ou efeito físico-químico? Note-se que esse felino tem
um ronrom constante que lembra a dispnéia dos asmáticos.
17 Cura-se varíola dando-se a beber ao doente chá de jasmim
de cachorro, assim chamado o excremento desse animal, que, quando exposto ao sol, se
torna muito branco. É conveniente que o paciente não saiba o que está tomando. (Cf. nº
33)
18 Casca de romã, levada ao fogo reduzida a pó, mata ou
cicatriza feridas. (ver capítulo I).
19 Pingando-se azeite quente sobre um bubão venéreo mula,
deixando o óleo correr pela perna abaixo até um local escolhido e aí detendo-o com a
lâmina de uma faca, o tumor sai da virilha e aparece no ponto marcado. É preciso,
contudo, cuidar que o líquido não corra demais até cair no chão, pois nesse caso o
bubão recolhe e pode ir para o pulmão, resultando em tuberculose. (Cp. nºs 22
e 32)
20 Se um homem é presa de blenorragia, deve praticar o coito o
mais possível, para descarregar a doença. (Cf. nº 7)
21 Não se deve plantar a trepadeira mimo do céu (Antigonium
leptopus?), perto de casa, porque o pólen de suas flores é causa de tuberculose
pulmonar. Alergia, com efeito sobre os órgão nobres da respiração?

22 A banha do jacaré cura o reumatismo articular. O sebo de
carneiro capado restaura as articulações ancilosadas. A enxúndia da galinha resolve os
gânglios inguinais enfartados. (ver capítulo I Cp. nº 19)
23 Dá-se o nome popular de alistrim (Corr. E metonímia
de alastrim ou arestim?) a um pequeno molusco que vive em colônias nos moirões das
pontas e nos cascos das embarcações. Crê-se que a ingestão do seu infuso cura as
hidropisias. É também remédio para essa doença o uso interno do mijo de vaca, e ainda
o purgante do jaracatiá (mamão do mato.)
24 O melhor remédio contra a picada do escorpião é matar o
inseto agressor e esfregá-lo vigorosamente na parte ofendida, com o que se aliviam as
dores e elimina o veneno.
25 Acaba-se o torcicolo surrando-se o pescoço doente com um
saquinho cheio de sal de cozinha. Efeito do cloreto por via dérmica, do calor ou
da massagem?)
26 As fezes frescas do cavalo, aplicadas sobre pequenos
ferimentos, estancam incontinenti o fluxo sanguíneo. (ver capítulo I Cf.
nº 37)
27 Uma barata doméstica (blatta), machucada e
introduzida no ouvido, cura as otalgias.
28 Uma surra aplicada com um galho da urtiga cansanção
sobre uma articulação reumatizada elimina a doença (ou o sintoma dor?).
Efeito do fomento da circulação sangüínea? Não é hoje usual, para esse último fim,
o emprego de certas drogas por meio de injeções sub-cutâneas?)
29 Evita-se a infecção que possa sobrevir à extração de um bicho-de-pé
(culex penetrans), fechando-se o orifício com cera de ouvido ou cal raspada da
parede.
30 Ao tempo em que o remédio contra lombrigas era exclusivamente
a santomina, a droga devia ser tomada pela manhã em jejum, ainda na cama. O essencial era
o doente não ver o verde antes de ingeri-la, porque se olhasse qualquer vegetal, o
remédio não produziria efeito. Explicava-se o insucesso com o fato de que, se a
prescrição não fosse cumprida, os vermes se recolhiam imediatamente ao saco.
31 É bom ter sempre em casa um cágado, porque a fricção do
quelônio vivo num membro afetado de erisipela cura o mal.
32 Comprimindo-se os gânglios inflamados das virilhas com a
lâmina de uma faca que passou a noite exposta ao sereno, os mesmos desaparecem em poucos
dias.
33 As pústulas variólicas furadas e espremidas com espinho de
laranjeira saram sem complicações nem cicatrizes.
34 O leite de peito, assim chamado só o de mulher, cura as
erupções do rosto dos lactentes. Efeito emoliente? Ação do ácido lático?
35 O emplastro do leite da gameleira (ficus doliaria, Mant.)
reduz as hérnias inguinais, devendo ser deixado sobre o local até que se desprenda por
si mesmo.
36 O cuspo em jejum é tópico excelente contra dartros e
eczemas. As afirmativas nesse sentido são categóricas. E então deveremos pensar
nos ácidos e sucos gástricos porventura acumulados na boca durante o sono?
37 A picumã (teias de aranha impregnadas de fuligem) faz parar as
hemorragias externas. Usada internamente, em chás, provoca o aborto. Não haverá
aqui uma contradição, a acreditarmos nos dois efeitos da mezinha?
VÁRIAS CIÊNCIAS ORIGEM E NATUREZA DAS COISAS
38 Quando a papa servida a um doente se torna rala, o doente não
tem cura.
39 Criança concebida durante um eclipse nasce com a pele escura
ou, pelo menos, com uma mancha carregada.
40 Mulher não deve comer ovo de duas gemas ou fruta de bagos ou
sementes eventualmente inconhos (coconhos, é como se diz), porque terá partos
gêmeos.

41 Matar uma andorinha a tiro faz a arma descalibrar-se.
42 Não se deve deixar mulher menstruada pegar em relógio, o
mesmo para.
43 Para acabar com a verruga, basta que seu portador não lhe
chame este nome, mas, sim argueira. Melhor será ainda que as pessoas de
casa tenham o mesmo procedimento. (Cf. nº 46)
44 Curam-se lubins (dobinhos cistos cebáceos),
conseguindo que os apalpe uma pessoa que já haja cometido um assassinato.
45 É fácil saber se um nosso desejo será satisfeito: basta
jogar para cima, dentro de casa, em direção ao telhado, uma casca de laranja tirada
inteira em espiral. Se a casca fica presa às ripas, o êxito é certo; se cai, percamos a
esperança.
46 Também se acaba com uma verruga se o seu portador, ao ver dois
homens montados num mesmo cavalo, segura a excrescência e diz: - Lá se vão dois em
cima de um! Salta verruga no c... de um!
47 Se um casal quer ter filho varão, realize o coito estando o
homem deitado sobre o lado direito; se quer mulher, invertam-se as posições.
48 Para a criança falar cedo, dá-se-lhe a beber água das chuvas
de janeiro ou de um pote novo.
49 Urinar em formigueiro faz uretrite.
50 Um cabelo humano arrancado da cabeça com a raiz e posto numa
garrafa cheia dágua, depois de certo tempo vira cobra.
51 Quando partimos um coco da praia e encontramos a polpa roída,
foi a lua que comeu. É coco comido da lua. É sabido que o fato é devido à
larva de um inseto (borboleta ou besouro) que adrede depõe os ovos na parte mole,
superior, do fruto inda imaturo.
52 Um rosário feito com rodelinhas de pecíolos da mamoeira e
pendurado no pescoço da partiuriente que perdeu o filho, faz secar o leite na medida em
que as contas vão murchando.
53 Um grampo do cabelo das mulheres, montando na borda da chaminé
de um candeeiro, evita que a mesma rache com o excessivo calor da chama.
54 Quando mudamos de casa e levamos um gato conosco, devemos
passar um pouco de manteiga nas patas do animal. Com isso ele não volta para a antiga
residência.
55 Os cães de pescadores e doutros habitantes da orla marítima
trazem sempre nomes de peixes cetáceos Piranha, Baleia, Boto,
Xaréu, etc. Essa prática os imuniza da raiva.
56 A mosca doméstica, esmagada e esfregada no lábio do
adolescente, apressa-lhe o aparecimento e crescimento do bigode.
57 Um couro de raposa colocado entre o colchão e o lastro da cama
afugenta os percevejos. Talvez se possa admitir aqui a ação do cheiro desprendido
pelo couro ainda novo.
58 As aftas da comissura dos lábios são produzidas pelo mijo
de aranha que transitou pelo telhado enquanto o paciente dormia. Dá-se mesmo esse nome
aquelas pequenas pústulas.
59 A urina dos equídeos é que gera os cogumelos nascidos em
velhos troncos e detritos espalhados pelo campo. Daí, seu nome popular de mijo de
cavalo.
60 O querosene dos candeeiros rende mais se pusermos dentro deles
uma pedra de sal de cozinha.
61 Uma pedra de enxofre mantida no pote dágua, conserva-a
isenta de impurezas. Sabida a insolubilidade de tal metaloide nesse líquido, como
pensar aqui na sua ação saneadora?
62 Para acabar com o piolho das aves chamado neném de galinha,
amarra-se uma longa tira de pano numa vara comprida, que se finca no galinheiro. Os
parasitos largam o hospedeiro, trepam pelo pau, pegam-se à bandeirola e o vento os
dispersa.
63 A pessoa que passar por baixo do arco-íris mudará de sexo.
(Ep. nº 68)
64
Os papagaios (Psitacus) aprendem depressa a falar se os colocamos dentro
de um pote de barro e enunciamos a lição com a nossa boca bem próxima da do recipiente.
Para que essas aves se tornem rapidamente contrafeitas, isto é, adquiram
as penas vermelhas e amarelas que as adornam, basta que freqüentemente enchamos a boca
dágua e com ela borrifemos no animal. |
65
O óleo extraido do cadocarpo do coco da praia (cocos nucifera), aplicado
num dente profundamente cariado, além de suprimir a dor, faz estalar o dente, facilitando
(?) sua avulsão.
66 As pessoas cujo
segundo pododáctilo é mais comprido que o primeiro desfrutarão de vida longa.

67 Esfregando a baba
de um boi nas mãos, qualquer menino de escola (estilo antigo, já se vê) as torna
insensíveis aos bolos. Mas o melhor é fazer um pequeno furo no centro da
palmatória e ai introduzir um piolho da cabeça (pediculus capitis), porque o
instrumento lascará à primeira tentativa de castigo.
68 A pessoa que passar por baixo dos andaimes de uma casa em
construção ficará solteira para sempre. (Cp. nº 93)
69 Estudando à noite e colocando o livro sob o travesseiro, ao
acordar na manhã seguinte o menino saberá sua lição na ponta da língua.
70 Para uma mulher evitar o coito com determinado homem, basta
enfiar uma agulha de coser no próprio travesseiro: o homem se torna impotente.
71 Se queremos que uma árvore cresça normalmente, não devemos
acocorar-nos ao plantá-la. Do contrário ficará pequena e mirrada.
72 Um besouro mangangá torrado e moído e posto no
orifício produzido na areia pelo jato da urina de uma mulher, faz com que ela corra a
entregar-se ao autor da bruxaria.
SUPERSTICÕES ABUSÕES PREMONIÇÕES
BRUXEDOS
73 Areia de cemitério, jogada dentro de uma casa ou mesmo deixada
ao pé da porta de entrada, traz atraso e desgraça ao seu habitante.
74 O canto de um anum (Crotophaga ani, Lin.) nas
proximidades da casa de um doente anuncia sua morte. É igual prenúncio o canto da coruja
rasga-mortalha.
75 Apontar para as estrelas contando-as, faz nascerem verrugas nos
dedos. Mas se isso acontecer, acharemos remédio certo nos nºs 43 e 46.
76 As pessoas adultas não devem dormir com os pés voltados para
a porta da rua, nem os meninos em sentido contrário, porque isso chama a morte. Assim
saem de casa os ataúdes.
77 Idêntico efeito produzem os chinelos deixados de borco. É
preciso conservá-los em posição normal.
78 Sair de casa com o pé esquerdo ou entrar com ele na frente no
lugar para onde vamos, dá azar.
79 As pessoas que pegarem no caixão de um defunto para tirá-lo
de casa devem ser as mesmas a entrar com ele no cemitério: quem não o fizer poderá
morrer logo. Ao mesmo ficarão sujeitas aquelas que não deitarem um punhado de terra na
cova, no momento da inumação.
80 Se um menino andas às recuadas, está botando pai e mãe no
inferno.
81 Abrir os braços em cruz no vão de uma porta chama a morte.
82 Uma moeda de cobre colocada na boca de uma pessoa assassinada
impede que o homicida fuja do local do crime.
83 Se ao caminharmos tropeçamos numa pedra ou noutro objeto, não
devemos praguejar, porque com isso estamos causando mal à alma de um defunto. E se
deparamos dois pauzinhos ou objetos semelhantes sobrepostes em cruz, devemos descruza-los
ou passar de lado: faz mal pisá-los.
84 Ao bocejarmos devemos fazer cruzes na boca com o polegar
direito, para evitar a entrada, por aí, de qualquer mal.
85 Para que uma jura seja mais enfática e fidedigna,
devemos fazé-la pondo os dedos indicadores em cruz e beijando-os, uma vez com o direito
sobreposto e outra ao contrário.
86 Se, ao comermos, algum bocado nos cai da boca, devemos por de
parte um pouco da comida ou jogá-lo em baixo da mesa, para alguma alma necessitada.
87 Se a nossa orelha direita coça, estão falando bem de nós: se
é a esquerda, falam mal. Coceira na palma da mão direita é dinheiro que vamos
receber; na esquerda, é carta a chegar. Mas para que a previsão se realize, é preciso
coçar sempre na direção do punho. E daí, o prudente aviso Nunca cortar para
dentro (para evitar acidentes), nem coçar para fora.
88 Quando ao abrirmos pela manhã a porta ou a janela a primeira
pessoa que vemos é um negro ou um padre (pelas vestes pretas), podemos contar com um dia
ominoso.
89 Enguiçar (passar por cima de...) uma mulher grávida sentada
no chão faz o nascituro parecer-se com a pessoa que enguiçou.
90 Quando uma criança se curva para a frente e olha por baixo das
pernas, está chamando um novo irmão: a mãe vai por certo engravidar. Se a
primeira palavra que uma criança pronuncia é papai, seu próximo irmão será
homem; se diz mamãe, será mulher.
91
Faz mal às parturientes comer galinha barbuda, assim chamada a que traz
algumas peninhas filiformes em torno do bico ou dos olhos.
92 Devemos cortar as unhas nas sexta-feiras ; noutros dias faz
mal.
93 Faz mal passar por cima da corda que prende um animal devemos
passar por baixo ou contorná-la.
94 Não se deve deixar aberto baú ou mala, que chama a morte.
Também faz mal deixar aberta uma tesoura de que acabamos de servir-nos.
95 Não se deve varrer a casa empurrando o lixo para a rua: tira a
sorte.
96 Faz mal vender sal de cozinha à noite ou aos domingos. Sendo
necessário, dá-se ou empresta-se um pouco do produto.
97 Quando uma criança extrai um dente de leite deve atirá-lo no
telhado dizendo: - Mourão, mourão! Toma teu dente podre, me dá o meu são!. E
logo lhe nasce um dente novo e perfeito.
98 Se, conversando, queremos indicar no nosso próprio corpo o
lugar em que um terceiro tem uma ferida ou outra doença, devemos acrescentar logo a
ressalva Lá nele. Sem isso, poderemos ser atingidos pelo mal.
99 Falando de doença braba, como a lepra ou a bexiga, o melhor é
não pronunciar-lhe o nome; mas, se temos de fazê-lo, é forçoso que, batendo com a mão
direita na boca, pronunciemos o exorcismo: - Ave Maria! Ave, Maria!
100 Se sonhamos que nos cai ou extraímos um dente, devemos
esperar a morte de um parente, tanto mais próximo quando o dente for um incisivo, um
canino ou um molar, pela ordem. Se não for um parente, será uma pessoa amiga.
101 Quando uma galinha canta como galo deve ser logo
sacrificada, porque está agourando a morte de alguém da casa.
102 Se um móvel, talvez por dilatação da madeira, começa a dar
estalidos é mau sinal: vai morrer alguém da família Há quem afirme possuir um
desses objetos especializado em tais vaticínios. (Cf. nº 113)
103 Se alguém, gravemente doente, começa a chamar ou a ver
parentes ou pessoas amigas já falecidas, seu caso é perdido. O fato tem sido de
algum modo estudado pela Metapsíquica.
104 É sinal alarmante um doente grave mudar insistentemente de
posição, virando-se da cabeceira para os pés da cama. Dificilmente escapará.
105 Não devemos dar nem receber presente de lenço: faz quebrar
amizade.
106 Deixemos em paz um grilo que cricrila em nossa casa: sua
música anuncia dinheiro. E um dia o pobrezinho valerá talvez uma vida humana (ver nº
8).
107 Um pão bento colocado no depósito da farinha (de
mandioca, subentenda-se) faz crescer e render esse alimento.
108 Um pé do arbusto chamado vulgarmente pinhão roxo,
plantado no terreiro ou no jardim da frente da casa, evita a entrada de sortilégios.
109 Despedidas repetidas na mesma ocasião fazem morrer logo.
Donde o prolóquio Quem muito se despede morre cedo.
110 Se vemos uma estrela cadente, devemos dizer rápido: Deus
te salve, relógio!. Com isso, salva-se uma alma penada. Por que relógio?
Só uma vaga, tenuíssima justificativa encontramos para isso: a possível alusão, pouco
provável entre o povo ignorante, à constelação austral que traz esse nome.
111 E se, durante o curso fugaz de um desses meteoros, conseguimos
abaixar-nos, apanhar um objeto qualquer e erguê-lo ao céu, dizendo: - Deus me dê o
que desejo, com certeza o nosso pedido será satisfeito.
112 Se um santelmo pousar na borda ou no mastro de uma
embarcação, fá-la-á emborcar. Se o fogo corredor anda emparelhado, são as
almas errantes e sofredoras de um compadre e uma comadre que pecaram em união carnal.
113 Quando um vaso de vidro estala sem receber pancada, foi o
ar que passou, e disso providencialmente se livrou uma pessoa.
114 Quando a saia de uma mulher ameaça cair, é que pretendem
tomar-lhe o marido.
115 Se ao encontrar uma cobra no caminho uma mulher dobrar logo o
cós da saia e disser Esteja presa por ordem de São Bento, o réptil não sairá
do lugar São Bento protege contra os ofídios.
116 Há três remédios, qualquer deles infalível, para ficarmos
livres de uma visita importuna: - Pôr uma vassoura atrás da porta, com o cabo para
baixo; deitar no fogo um punhado de sal; virar um tição, pondo a brasa para fora.
117 As pessoas que choraram quando ainda estavam no ventre materno
trazem o condão de adivinhar. As que nasceram empelicadas terão vida
feliz.
118 Há mais de um processo prático para uma pessoa livrar-se de
um argueiro impertinente. Primeiro: Com uma das mãos baixa-se a pálpebra e cobre-se o
olho atingido, e com a outra comprime-se a narina do lado oposto. Feito isso, expele-se
com força o ar dos pulmões pela narina livre, e o argueiro sai logo por aí. Há quem
complique a cerimônia, cruzando as mãos, isto é, usando a direita para a pálpebra
esquerda, com a outra na narina direita e vice-versa. Segundo: Põe-se uma sementinha de
alfavaca-de-cheiro no olho molestado. O grãozinho atrai o outro corpo estranho para a
parte anterior do olho, tornando-se, fácil retirar os dois. E este terceiro, cuja
eficácia intrínseca e própria não é menor que sua doçura e poesia, nem se desdiz
pela necessidade de acompanhar o recitativo com um movimento de rotação da pálpebra
sobre o globo ocular. Assim fazendo, formula-se o apelo, em voz cadenciada e branda:
"Corre, corre, cavaleiro,
Vai à casa de São Pedro,
Vai dizer à Santa Luzia
Que me mande seu lencinho
Pra tirar um argueirinho
De dentro do meu olhinho!"
E a caridosa santa, protetora da vista,
manda, manda logo seu lencinho branco e cheiroso, se não é ela mesma que, invisível mas
real, desce das alturas em socorro do postulante.
III
NOTA FINAL
O tema continua aberto ao interminável concurso de
elementos que vem de toda parte. Como vimos, há de tudo dentro dele: desde a realidade
inconcussa, que pede só explicação racional ou análise adequada, até a afirmativa
descosida, o dogma anfigúrico, a prática extravagante. Depara-se-nos quando a quando um faz-mal
indefinido, vago e abstrato, de cujo objeto ninguém indaga. E se acaso acontece alguém
fazê-lo, por mais disparatada que seja a resposta, não será por isso menos bastante e
convincente.
Faz mal!, e pronto. Várias coisas se entrelaçam e se coadjuvam: outras
se entrechocam e contradizem. Mas o que se registra aqui é o pensamento em si, a
convicção, a intenção, a crença chamem-lhe crendice se quiserem
que surgem, se disseminam e se afirmam entre as diversas camadas sociais. Nenhuma
delas se isenta de contaminação com o pólen esvoaçante dessa borboletas multiformes e
polieromas, de geração espontânea, transmudadas nas frases feitas e juízos e preceitos
correntes, que são os esconjuros, os amavios, a moral em conceitos, demosóficos, a
terepêutica em fórmulas abstrusas, a religião em sapiência extra-evangélica.
Por força dessa endemicidade incombatível, raros serão, na hora que passa, os membros
de uma sociedade, culta ou nescia, atilada ou obtusa, que em momento difícil ou aso
inesperado, recuse total e definitivamente a prestabilidade de tão imediatos servidores.
A cura, o alívio, a prevenção, reais ou imaginários, de uma aflição física ou
moral, quantas vezes realizados só pela sugestão ou o medo; o estímulo e o induzimento
de uma criança, acordando-lhe o instinto, agitando-lhe as forças adormecidas ou
inchando-lhe o interesse; a expressão de um desejo de bem ou de mal, ou de uma
aspiração consciente ou abscôndita, - são tantos fins, dentre inúmeros, para os quais
brotam e discorrem as fontes da sabedoria popular. E eis que, sendo elas
praticamente inesgotáveis, ainda por longo, muito longo tempo, as coisas e loisas
do folclore beberão subsídios e acheganças em seu farto manancial.
[novembro de 1960]
(SANTIAGO, Paulino. In Boletim Alagoano de
Folclore. Maceió, 1959, ano 4, números I e II) |