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AMULETOS

Figuras de santos

Ao aniversário de cada santo popular, grande número de suas figuras são trocadas na Igreja por dinheiro ou cera, com um lucro médio de mil a dois mil por cento. Eu nunca vi uma imagem entregue antes que o pretendente pusesse um ou mais vintém sobre o prato, ou desse uma vela. Como objetos de arte não têm nada de notável. Comumente, sempre acompanhando seu portador, gastam-se antes que volte a festa do ano seguinte. Além das que são vendidas nas festas, comprei um sortimento de um vendedor de imagens, em que apareciam São João de Malta, Santa Úrsula, São Luís, São Crispim e ainda Nossa Senhora da Imaculada Conceição, copiada de dois quadros revelados pelo céu, e de acordo com a milagrosa medalha de Jesus, Maria e José.

Além de conservá-los em livros, prendê-los em cortinas de cama, ou fazê-los deslizar debaixo de travesseiros, etc., usam-se numa grande quantidade de amuletos chamados "breves". Cada um é dobrado até formar uma pequena almofada quadrada, e costurado numa minúscula bolsa de uma polegada de lado, usada junto do corpo com os bentinhos. Soube que a velha senhora P. tem um de Nossa Senhora da Conceição e outro de Santo Antônio nas costas.

A alguns é acrescentado o seguinte: "Sua Excelência, o Reverendíssimo Bispo, Grande Capelão do Imperador, Dom Manuel do Monte Rodrigues Araújo, visitando a igreja cujo padroeiro é representado por esta imagem, concedeu a todos os que rezavam diante dela um Padre-Nosso, e uma Ave-Maria, quarenta dias de indulgência." Respondendo a uma pergunta, foi dito que as indulgências autorizavam comer carne nos dias de jejum, ser perdoado pelos pequenos pecados que se possa cometer, e se se morrer dentro deste prazo, ir-se-á direto ao céu, escapando-se completamente do purgatório.

Mesmo nesta questão das imagens de suas divindades, os católicos têm dívida para com os pagãos. Assim os pujaris, uma seita de sacerdotes hindus, devotos da deusa Marieta, celebram o seu louvor, com canto, e acompanham os seus cantos com uma sineta, enquanto as suas mulheres marcam o compasso com castanholas. "Eles também levam consigo imagens que representam a deusa em várias situações".


Imagens portáteis

Estas são eventualmente de madeira, mas muitas, senão a maior parte, são de gesso. H. e eu encontramos há poucos dias atrás uma moça com uma máscara preta de ferro, parada diante de uma vitrina de um ferreiro, onde havia algumas à venda. Logo após, nossa atenção foi chamada para um fabricante de outros grilhões, ou seja de imagens sagradas. Sentado no chão, com potes de tinta ao lado, o homenzinho estava rodeado por um regimento de gênios de quinze a dezoito centímetros, a cujas faces, capas e xales estava dando o último retoque. Os Santos Antônios eram os mais numerosos. Na Roma pagã a rua em que estas coisas eram vendidas tinha o nome de Sigilaria.


Medalhas dos santos e do papa

Pequenas placas elípticas de prata, cobre e estanho. Uma de prata, que tenho diante de mim, é tão delgada que o seu valor não deve ir além de dez centavos. À aproximação das festas, os negociantes anunciam-nas. Enquanto não forem bentas, poderão ser postas à venda, mas depois da aspersão podem apenas ser "trocadas".

Por uma disposição judiciosa destas ninharias, o clero fortalece não pouco seu domínio das afeições do povo. Bedini, o novo Núncio, comprou grande porção delas. Uma entre seis, postas por ele à disposição de certo padre, está agora diante de mim. É do tamanho e do valor de uma moeda de cinco centavos e traz a efígie de Gregório XVI. Tendo sido abençoadas pelo Papa, são de valor inestimável. O Núncio é impopular mas é hábil. Na Praia Grande, outro dia, encontrou-se com uma criança que lhe disseram ser o filho do senhor B., um advogado de influência a quem não havia sido apresentado. Pôs em suas mãos uma destas preciosas medalhas, com o que conquistou toda a afeição de seus pais.


Símbolos da cruz

Nada é mais poderoso do que isto: nem feiticeiras nem bruxas podem tolerar a sua vista. Além das figuras ordinárias, uma forma muito popular desta espécie de amuletos é representada à margem. Por ela nós sabemos que toda pessoa, na ausência de uma cruz artificial, tem uma cruz poderosa na extremidade dos dedos. Revela o último movimento no ato de a criatura abençoar a si própria e que consiste de cinco atos distintos que são os seguintes: com a ponta do polegar direito – o esquerdo em nenhuma hipótese deve ser usado – toca-se a fronte, a ponta do nariz, depois a têmpora esquerda, e em seguida a direita (esse é o primeiro ato ou a primeira cruz). Toque-se novamente o nariz, depois o queixo , e depois os lados esquerdo e direito da boca (segunda cruz). Coloque o dedo no queixo, leve-o ao peito, e depois sobre cada ombro (terceira). Com a palma aberta, toque-se a fronte, o coração e ambos os ombros (quarta). Finalmente, ponha-se o indicador atrás do polegar, e comprima-se o ultimo aos lábios.


Fragmentos da rocha sagrada

Soldados e particularmente os do interior protegem-se com amuletos. Ouvi um oficial contar, com fervor edificante, como um sujeito salvou sua vida com violação direta da lei natural. Ele estava subindo rio da Aldeia Velha no Espírito Santo, com documentos oficiais, numa canoa conduzida por índios. A corrente era forte contra eles. A canoa virou, um ou os dois índios afogaram-se, mas o oficial em questão, que não sabia nadar, depois de flutuar por meia hora, alcançou a praia não sabendo como. Fazendo secar sua roupa, ele encontrou um pacote de papel no bolso do paletó – posto ali à sua revelia pela sua mulher – contendo um pequeno pedaço da Penha, um monte rochoso consagrado à Virgem, sob o nome de Nossa Senhora da Penha. A pedra, diz ele, foi que o salvou.


O cavalo-marinho

Hipocampo – é favorito de muitos. Este peixinho curioso, quando seco, é aplicado à pele, e é poderoso em remover dor de cabeça assim como demônios. Alguns o possuem de ouro e prata.


A figa

Um dia eu desconfiei que Chita, nossa cozinheira negra, não usava nenhum amuleto, pois que entre suas raras roupas não podia vislumbrar onde estivesse algum. Alguém me disse que ela necessariamente trazia um. Para dirimir a questão, chamei-a e para minha surpresa, tirou do seio uma figa de osso. Disse-me que em seu país natal usava um dente para esse mesmo efeito. O primeiro dinheiro que um escravo ganha é gasto na compra de uma figa, que às vezes é feita de raiz de jacarandá.


Cinzas de palmas

Consagradas no Domingo de Palmas, levadas pela pessoa, protegem-na do trovão e do relâmpago. O fumo que se desprende da combustão das folhas expele o mau espírito das residências.


A arruda conserva a sua propriedade antiga de manter a casa livre de bruxas. Brancos e pretos têm muita fé nela como arma contra feitiçaria e sortilégios. Ocasionalmente, podem-se notar pessoas, ajoelhando-se diante de altares em que se colocam um ramo de arruda com o fito de torná-los mais eficazes. Freqüentemente é vista entre o cabelo e a touca de mulheres de cor. Um ramo de sorveria ou freixo dos montes constitui um velho amuleto europeu.


Pós de amor

Um pouco de poeira anódina, principalmente fornecida aos escravos, que secretamente à adicionavam à comida de seus senhores para obterem um tratamento mais brando. Os índios da província do Norte empregam o suco leitoso de ervas visando à obtenção do mesmo efeito.


Peneiras e foices

Usam-se para recobrar objetos perdidos, além do que tornam os apóstolos cúmplices dos feiticeiros. Quando os instrumentos cortantes são postos sobre uma peneira invertida, e o feiticeiro conclui suas imprecações, ele grita:

São Pedro e São Paulo
São Filipe e São Diogo


para descobrir o ladrão e mostrar onde é que estão as coisas roubadas.


Processo de curar os possessos

É uma sorte que velhas em conluio com o perverso não sejam hoje tão numerosas no Rio como já foram. No interior são tidas na conta de mais malignas do que nunca. Quando uma pessoa se imagina possuída, ela comumente procura um padre para fazer o sinal-da-cruz com um ramo de alecrim mergulhado na água benta. Para este objetivo preferem-se os frades; os de Santo Antônio são tidos na conta de melhores. Se possível, as vítimas devem ir ao mosteiro, e entrar na capela com um ou dois monges. Depois de certos ritos, conversarão com ele, e julgarão de suas respostas a respeito do caráter do demônio e do lugar de sua expulsão. Tomarão cuidado para não tirá-lo pela boca, senão a vítima ficará muda; nem pelos ouvidos, nem pelos olhos, senão ficará cega ou surda; nem por um braço, mão ou perna, que ficará paralítica, mas se possível pela planta dos pés.


Feiticeiros negros curam pacientes abandonados pelos frades

Meu amigo, o vigário, tem há muito tempo um rapaz com uma perna ferida, e que vem resistindo a todas as tentativas de tratamento. Como último recurso, ele foi consultar uma feiticeira preta. Esta ergueu uma fumaça de ervas secas, disse qualquer coisa sobre a ferida, fez movimentos como se erguesse os lábios para cima, pôs na chaga uma cataplasma de erva, mandou-o para casa e dentro de uma semana se restabelecia. Outro jovem escravo tinha um pé doente; nada parecia fazer-lhe bem, e, finalmente, seu senhor mandou-o visitar uma feiticeira negra, que falou com ele, fez alguns sinais, ungiu-o com óleo, cobriu-o com uma cataplasma, e poucos dias após curava-o.

Antigas curas – dignas de Plínio – estão ainda em moda. Minhocas fritas vivas em óleo de oliva, e aplicadas quentes com emplastro, removem o
panarício que é muito comum entre negros e brancos. A senhora Peres disse-me que assim curou uma das suas escravas. O mesmo aconteceu na família de J.

Um remédio popular para dor de dentes é preparado assim: um camaleão vivo é posto numa vasilha de barro com uma tampa hermeticamente fechada e reduzido a cinza. Uma porção desta cinza é esfregada entre um dedo e o polegar e aplicada sobre as gengivas e posta na cavidade cariada. O senhor H. L., senador de Santa Catarina, achou eficiente este processo. Sua senhora guardou a cinza restante para algum eventual uso futuro.

Os negros têm muitas receitas semelhantes trazidas da África.


(EWBANK, Thomas. A vida no Brasil)

 

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