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NO COTIDIANO SOBRENATURAL

Quem amanhece com a boca salivosa e amarga é por ter comido papa ou mingau das almas.

Os toalhados e cobertores guardados nos gavetões e encontrados úmidos, foram mijados pelas almas.

As pequenas equimoses arroxeadas ou azuis, vistas na pele ditas blues em França, foram beliscões das almas.

As sandálias deparadas pela manhã em posição diversa em que foram deixadas ao adormecer, serviram às almas durante a noite.

Água inexplicavelmente derramada no aposento, denuncia alma desajeitada e sedenta.

Rede de criança balançando sem motivo é gesto de alma, saudosa dos filhos.

Um clarão brusco, inesperado, rápido, ou simples impressão luminosa, fosfenos, é um aviso das almas amigas, aconselhando evitar o que se está pensando fazer.

As almas escondem objetos que provocariam pecados graves.

Casa ou recanto mal-assombrado, sinais de ouro enterrado, visões confusas ou brancuras indistintas, pavor súbito, inexplicável, dominador, são presença das almas e não dos demônios.

No velho bom tempo em que a família fazia orações reunida ante o oratório, a derradeira reza era dedicada em favor das almas para que tivessem "um bom lugar" no Céu.

Caindo alimento ao chão, dizia-se: - "Para as almas!" Isso evita que o diabo coma.

Durante a noite as quartinhas e bilhas eram tampadas e punha-se testo aos potes e jarras, guardando água de beber. As superfícies expostas atraíam almas vadias e folionas, contaminando o líquido com a baba, viscosa, nauseante.

Entre as orações que podiam ser feitas em decúbito dorsal, excluía-se a oferecida às almas. Exigia-se ficar de joelhos ou de pé. Nem sentado e nem deitado. Toda devota das almas morre muito velha.

Para atravessar caminho afamado pela visita fantástica, dispunha-se os braços no peito em santor, na forma da cruz de Santo André. Os espectros respeitavam o portador do signo mártir.

Alma não atravessa água. Nem os animais fabulosos e seres diabólicos.

Alma não se faz visível a bêbado e menos a quem esteja manejando algum instrumento musical, de cordas ou de sopro.

Uma lâmina de aço, nua, limpa, reluzente, impossibilitará qualquer manisfestação espectral. Nas Ciências Ocultas é objeto indispensável, polarizador da energia defensiva do invocador, que pode obrigar certas "aparições" a jurar veracidade e conduta sobre a folha da espada. Constitui um permanente esconjuro para os maus espíritos. A espada ou espadim desembainhados guardam o sono tranqüilo de qualquer cristão. O brilho do metal afiado dissipa a substância fantástica. Simboliza o gládio flamejante do querubim no Paraíso. Os faunos e sátiros temiam-na.

As exteriorizações do pavor individual reforçam a visibilidade do espectro. Tanto mais amedrontada estiver a criatura quanto mais natural e nítido tornar-se-á o fantasma.

Nem todas as penitências cumpridas na Terra serão visíveis aos olhos humanos. Quando uma alma é vista e desaparece em seguida é porque fora surpreendida na sua secreta mortificação.

As crianças, os cavalos e os cães percebem as almas invisíveis, parece que sem que essas desejassem ser vistas.

A crença jangadeira no nordeste é que a alma dos afogados só aparece aos pescadores.

Os malucos conversam naturalmente com os espíritos.

Pelas praias e barcos alma não aparece aos domingos.

Gente nua não vê alma. O espírito exige decência, decoro, compostura. Refiro-me às almas de tradição antiga.

Alma de quem não teve sepultura "no sagrado", afogado no mar, perdido nos matos, serras e descampados, desaparecido "nas guerras", diz o nome de vivo poque não conserva a fisionomia que possuía no mundo, fazendo-se reconhecer.

O toque dos sinos não afugenta alma do outro mundo mas assusta e repele os demônios semeadores das tempestades, incêndios e pestes.

Espírito de afogado no mar não anda em cima das ondas. Aparece até a cintura ou somente a cabeça de fora. Não é esqueleto mas um corpo inchado, amarelo, balofo, com os olhos brancos. Quem pisa "im riba d’água sem afundar" é santo.

Desapareceu a imagem das almas precedidas pelo rumor metálico das correntes arrastadas.


(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição do Brasil)
 

 

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