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A CASA TRADICIONAL

Para o pesquisador que chega, o primeiro campo de observação é a cidade, ou pelo menos o núcleo habitacional na beira da estrada.

É evidente que as cidades têm prédios de alvenaria construídos por engenheiros; mas logo que deixamos a praça principal, já aparecem as casas construídas pelos próprios moradores. Deixando de lado, por enquanto, os migrantes chegados do sul, vejamos a maneira de construir dos amazonenses.

O amazonense dá preferência de casa de pau a pique sobre palafitas. A casa é construída não longe de uma mina de água ou na proximidade de um córrego, não muito perto por causa das enchentes. A armação da casa e o madeiramento do telhado são feitos de paus roliços. Nos cantos são fincados os quatro esteios que recebem as vigas do telhado. Entre os esteios são fincados os tocos sobre os quais repousa o baldrame, formado das recebedeiras e dos barrotes, e o assoalho de paxiúba barriguda. A paxiúba é usada da seguinte maneira: a palmeira, depois de derrubada, é batida com uma marreta até rachar de ponta a ponta. Retirando o miolo, a madeira se abre sem quebrar. Uma só palmeira dá pra fazer facilmente 80 cm de assoalho. Do tronco da palmeira, só se aproveita a parte da barriga para baixo. Com quatro ou cinco coqueiros se assoalha a casa toda.

A maioria das casas ficam a cinqüenta centímetros do chão mas há casas cujos tocos se elevam até um metro ou dois. As paredes podem ser de pau a pique, de paxiúba como o assoalho, ou de palha. A amarração toda é feita com enbira (envireda ou embira). A casa de palhas não tem janelas; as outras têm simplesmente um vão aberto, sem nada para tampar.

Os telhados são de tipo oitão, com duas águas ou com outra meia-água no oitão traseiro; ou oitão com alpendre e uma água mais comprida. A cumeeira e os caibros são de pau d’arco roliço (ipê). As ripas são amarradas com envira. A cobertura é de palha de babaçu ou de açaí. A palha, para ser boa, deve ser tirada do olho da palmeira. A tala é aberta com a mão e cada folha da palma ligeiramente cortada, para cair na perpendicular. Cada palma de babaçu é colocada na horizontal, diretamente nos caibros, dispensando as ripas, e amarrada com embira. O telhado de babaçu resiste de quatro a seis anos, mas tem o inconveniente de pegar fogo facilmente.

O interior da casa é muito simples; às vezes um quarto só; outras vezes, uma sala na frente e, atrás de uma divisão de paxiúba, a cozinha de um lado, o quarto de dormir do outro.

Há também casas rodeadas de uma varanda estreita, com parapeito e um jirau na parte de trás. O que chama atenção no interior da casa é a escassez de acessórios: umas redes de dormir vindas do Ceará são amarradas nas vigas do telhado; alguns banquinhos, uma arca ou simples malas de viagem, só. Os índios usam redes de corda de algodão que eles mesmos fazem, mas não as vendem. Às vezes os amazonenses têm um fogão de barro, às vezes não tem e cozinham no chão do quintal. Como utensílios, usam algumas panelas de alumínio, latas e gamelas feitas de madeira. Usam cuias para beber, peneiras de olho de arumã para passar a farinha de macaxeira (mandioca, na linguagem dos amazonenses). Fazem vassouras de cipó titica, paneiros e jamaxis de cipó imbé. Os objetos de borracha, sacos e sapatos ou cartucheiras, são feitos unicamente por aqueles que trabalham no seringal, com o látex da seringueiras.


AS DEPENDÊNCIAS DA CASA E A ALIMENTAÇÃO

O amazonense vive essencialmente da extração da borracha, das castanhas, da caça e da pesca. Não costuma plantar. No seu terreiro só se encontra o jirau e a tina de lavar roupa, além de algum utensílio abandonado. Se tem um quintal ou uma roça, que ele conquistou à floresta invasora, é pouca coisa: alguns pés de macaxeira, de inhame, um mamoeiro, umas bananeiras... Aliás está acostumado a ver o chão alagado no tempo das enchentes, o que não o anima plantar. Os mais espertos, assim mesmo, contornam a dificuldade fazendo canteiros elevados. São simples tablados fincados em quatro paus a um metro de altura, com uns dez a quinze centímetros de terra onde cultivam alguns pezinhos de salsa, de cebolinha, de couve... A poucos metros da casa já começa a floresta.

Vimos que o amazonense, se não tem fogão de barro dentro de casa, cozinha no quintal. A alimentação é muito simples, sempre à base de macaxeira fervida ou de farinha. Caça é que não falta, quando o homem tem tempo de caçar.

Mas como nunca se desfaz de sua espingarda, como aliás do seu facão e da sua sarapilha, não raras as vezes chega em casa trazendo um veado, um porco do mato, um tatu... As frutas são: a banana (a grande é chamada pacovã e a pequena, pacovi); a castanha do Pará (de que se aproveita fruta e o óleo); o mamão. As palmeiras dão palmitos, cocos, pupunhas, óleo e até bebida. As frutas do açaízeiro são esmagadas, dando um suco de cor roxa que serve para refresco (vinho de açaí) e até para sorvetes nas cidades.

Nas praças das cidades, de tardezinha, as mulheres costumam vender as sopas de tacacá. Muita gente não dispensa essa comida do fim de tarde. A sopa, servida numa cuia, é feita à base de polvilho diluído no tucupi ( caldo de macaxeira), juntando-se camarões, um pouco de pimenta malagueta e folhas de jambo.

É também muito apreciado uma espécie de beiju, que comprei no antigo mercado de Porto Velho. As quituteiras põem um punhado de farinha de macaxeira bem peneirada na frigideira. Com o calor, a goma coagula sem grudar no fundo. Cozinha-se dos dois lados; em dois minutos fica pronto. Acrescenta-se à vontade um pouco de margarina, dobra-se em quatro, feito uma panqueca. Comem de manhã, com café. Embora seja um prato típico do Pará, o pato ao tucupi é comum em restaurantes.

(THIÉBLOT, Marcel Jules. Rondônia, um folclore de luta)

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