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FEIRAS DO SERTÃO NORDESTINO

Na vida sertaneja as feiras tem importância fundamental. Diferem flagrantemente das que ocorrem nas capitais, não obstante apresentarem a mesma impressão de aglomerados ruidosos, o vozeiro de criaturas em locomoção desordenada, um dinamismo cheio de contrastes. Concentram elas atividade animada por diferentes fatores, entre os quais alcança evidência o que torna possível a aproximação e o conhecimento do sertanejo perdidos entre as distâncias, ilhado pela precariedade dos meios de transportes.

Entregue ao labor rudimentar de suas lavouras, ao pastoreio de escassos rabanhos, às indústria incipientes de que se faz esteio, principalmente pela carência de condições que lhes propiciassem, em troca de esforço sobre-humano, compensações mais vantajosas, o homem do sertão encontra nas feiras a oportunidade de civilizar-se. Toma conhecimento do mundo que o rodeia através de um contato febricitante e cheio de impactos: alarga horizontes e desdobra visões e consciência, capacitando-se para a noção real dos problemas de sua comunidade.

Uma multidão diversificada e ansiosa se acotovela periodicamente em uma feira e, da continuidade desses encontros forma-se um todo consistente e efetivo, onde sedimentos de civilizações se esboçam e adqüirem nítidos perfis. O dia da feira coincide, via de regra, com um domingo, casando-se então os ofícios religiosos com as conveniências profissionais. Nessa ocasião pode o sertanejo desobrigar-se de sua penitências e, ao mesmo tempo, efetuar transações comerciais, satisfazer compromissos de compadresco ou suprir-se de remédio; prover-se de utilidade as mais diversas, inclusive dos pitorescos romances que constituem farta e ingênua literatura cabocla e têm difusão surpreendente nos meios rústicos.

As feiras sempre apresentam características especiais, encontrando-se numa e noutras não, determinados produtos que distingüem facilmente seus pontos de origem. Isto se verifica, por exemplo, com os punhais de Juazeiro, Ceará, de ricos lavores; com a cerâmica de Caruaru, Pernambuco, já difundida pelos museus populares do país; com gibões e apetrechos de vaqueiro, de bela fatura e expressivos desenhos, encontrados no interior da Paraíba e norte da Bahia; com a rapadura do Cariri, etc., enfim um vasto conjunto de peças executadas por pacientes artesãos que ressalta uma faceta a que se vinculam os melhores empreendimentos dessa gente: o autodidatismo.

Nos pátios contíguos aos mercados, na praça da matriz ou na rua principal de uma cidade do hinterland, as barracas se sucedem na instabilidade de suas instalações provisórias. Espalham-se pelo chão esteiras, pranchas ou panos de aniagem onde se acumulam vasilhas diversas, tais como cestos, sacos ou caixotes, com seus respectivos conteúdos. Banquetas, jiraus e cavaletes suportam tabuleiros, com mostruários de redes, de iguarias confeitadas, lastros de bananas, pilhas de alho ou cebola, laranjas ou abóboras, a oferecem ricos matizes nas cores e nos formatos; um espetáculo surpreendente e feérico, de sons intensos e gestos vigorosos: feixes de músculos agitando-se numa atividade incessante de almas primitivas travando um grande embate.

Desfilam, em vagarosa busca, os compradores, colhendo aqui e ali vantajosas descobertas: peças de rendas primorosa que bilros ágeis entreceram, transferindo o silêncio das persistentes mãos de uma viva anciã para o matiz aveludado dos grifos ou das pestanas, em miraculosa tessitura; tijolos que mestre de engenho dosam com perícia consumada para satisfazer paladares exigentes, em delicada sobremesa; leves chapéus de palha, de fios milimétricos, delineando ritmos de vôo em macios contornos; colares de conchas selvagens; estranhos biscuits de argila queimada que adornam mesas de refeições, crivados de palitos, sela e caronas, rebenques e esporas que ajaezam montarias e emprestam ao cavaleiro preciosa sugestão.

O matuto desprovido de conhecimentos especializados tem maravilhoso poder de intuição, revelando-se um espírito inventivo, disposto; e as feiras são mostruários permanentes que rivalizam na variedade dos aspectos, cada qual oferecendo provas das diferentes atividades exercidas pelo homem nordestino no aproveitamento, embora restrito, das riquezas da terra pela força do espírto.

(Francisco Barboza Leite in Tipos e Aspectos do Brasil)

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