Retornar para OficinaRetornar para Oficina
Ir para a página principal

 

DOS PEIXES MAIS COMUNS E DO MODO DE PESCÁ-LOS

Começarei dizendo que os selvagens chamam ao peixe, genericamente, pirá dando nomes particulares às diversas espécies. Denominam kyremá e parati certos sargos que, assados ou cozidos, são muito saborosos, principalmente os segundos. Esses peixes andam em geral em cardumes, tal qual ocorre na Europa, onde os vi no Loire e em outros rios de França subirem do mar. Quando os vêem assim em bandos aproximam-se os selvagens de repente e com flechas certeiras em poucos momentos fisgam muitos peixes. Como, feridos, não podem ir ao fundo os flechadores os apanham a nado. A carne desses peixes é muito
friável, por isso costumam os selvagens, quando os pescam em grande quantidade, moqueá-los e reduzi-los a farinha.

O camuroponí-uassu é um peixe muito grande a que os tupinambás fazem menção, em suas danças e cantos, repetindo muitas vezes: pirá-uassú a uéh, camurupuí-uassú, etc., o que quer dizer "bom de comer".

Existem outros peixes, uará e acará-uassu quase do mesmo tamanho, mas bem melhores, não me parecendo que o uará seja menos delicado do que a nossa truta.

Há outro peixe a que chamam acarapeh; é chato e, quando cozido, despreende uma gordura amarela que pode servir de molho. A carne é ótima. Também se encontra oacará-buta, peixe viscoso de cor escura ou avermelhada, muito menos do que os precedentes e menos agradável ao paladar.

Outro peixe, de nome pirá-ypochí, do comprimento da enguia, não vale grande coisa; ypochí na língua indígena quer dizer "ruim".

As arraias, que os selvagens pescam no Rio de Janeiro e nos mares vizinhos, são maiores que as da Normandia, da Bretanha e de outros lugares da Europa. Têm dois chifres compridos, cinco ou seis
gretas que parecem artificais, no ventre, e a cauda longa e fina. São temíveis e venenosas. Um dia apanhamos uma e ao colocá-la na embarcação aconteceu picar um companheiro nosso na perna; esta logo se tornou vermelha e inchada.

Eis em resumo o que me cabe dizer a respeito de alguns peixes de água salgada da América, os quais são entretanto inumeráveis.

Os rios desse país estão cheios de uma infinidade de peixes medianos e pequenos aos quais chamam os selvagens pirá-mirim, de um modo genérico. Entretanto descreverei apenas aqui duas espécies características pela sua deformidade.

A primeira, a que os selvagens denominam tamuatá, mede comumente meio pé de comprimento apenas; tem a cabeça muito grande, monstruosa, em verdade, em relação ao resto do corpo, duas barbatanas debaixo das guelras, dentes mais aguçados que os dos lúcios, espinhais penetrantes, e são armados de escamas tão resistentes que não creio lhes faça
mossa uma cutilada; nisso se assemelha a um tatu, como já disse alhures. A carne é tenra e muito saborosa. Os selvagens dão o nome de paná-paná a outro peixe de tamanho médio; tem corpo e cauda semelhantes aos do precedente e a pele áspera como a do tubarão. A cabeça é chata, sarapintada e mal conformada, a ponto de parecer, fora d’água, separada em duas, o que oferece um aspecto horrendo.

Quanto ao modo de pescar, usam os selvagens flechas como para os sargos. Aliás assim fazem com todos os peixes visíveis dentro d’água. Cabe observar que na América tanto os homens como as mulheres sabem nadar e são capazes de ir buscar a caça ou a pesca dentro d’água como um cão. Também os meninos apenas começam a caminhar já se metem pelos rios e pelas praias, mergulhando como patinhos. Basta dizer que certo domingo pela manhã, quando passeávamos na plataforma de nosso fortim, vimos virar uma canoa que se dirigia para o nosso lado, com mais de trinta selvagens entre homens e meninos.
Pressurosos fomos em socorro dos náufragos com um escaler, mas encontramos todos risonhos nadando. E disse-nos um deles: "para onde ides tão apressados, mair?" (assim chamam os franceses). "Vínhamos salvar-vos e tirar-vis da água", respondemos.

Mas o selvagem replicou: "Agradecemos a vossa boa vontade, mas pensáveis que por termos caído no mar estávamos em perigo de afogar-nos? Ora, sem tomar pé nem chegar à terra ficaríamos oito dias em cima d’água. Temos muito mais medo de sermos pegados por um peixe grande que nos puxe para o fundo do que de afogar-nos".

E os demais selvagens que, todos, nadavam como verdadeiros peixes, advertidos pelo companheiro da causa de nossa vinda, puseram-se a zombar e tanto riram que nos davam a impressão de um bando de golfinhos a soprar e roncar em cima d’água. E com efeito, embora estivéssemos ainda a mais de um quarto de légua do forte somente quatro ou cinco quiseram entrar no bote, assim mesmo mais para conversar que de temor. Verifiquei que os outros, nadando às vezes mais depressa do que o barco, não só o faziam
galhardamente mas ainda sabiam descansar sobre as águas quando lhes aprazia. Quanto à redes de algodão, víveres e outros objetos que traziam na canoa, sua perda não os incomodava mais do que a nós a de uma maçã; aliás afirmavam que em terra tinham outras coisas iguais.

Não quero omitir a narração que ouvi de um deles de um episódio de pesca. Disse-me ele que, estando certa vez com outros em uma de suas canoas de pau, por tempo calmo em alto mar, surgiu um grande peixe que segurou a embarcação com as garras procurando virá-la ou meter-se dentro dela. Vendo isso, continuou o selvagem, decepei-lhe a mão com uma foice e a mão caiu dentro do barco; e vimos que ela tinha cinco dedos como a de um homem. E o monstro, excitado pela dor pôs a cabeça fora d’água e a cabeça, que era de forma humana, soltou um pequeno gemido. Resolva o leitor sobre se se tratava de um
tritão, de uma sereia ou de um bugio marinho, atendendo a opinião de certos autores que admitem existirem no mar todas as espécies de animais terrestres. Quanto a mim, embora não desminta a existência de tais coisas, direi francamente que durante nove meses de navegação em alto-mar sem pôr o pé em terra senão uma vez, e ainda por ocasião das viagens costeiras que fiz, nada vi semelhante. Entre a infinidade de peixes que apanhamos nunca deparei com nenhum que tivesse fisionomia humana.

Terminando, direi ainda, a respeito do modo de pescar dos tupinambás, que além das flechas usam também espinhas à feição de anzóis, presas a linhas feitas de uma planta chamada tucom a qual se desfia como cânhamo e é muito mais forte. Com esse apetrecho pescam de cima das ribanceiras e à margem dos rios. Também penetram no mar e nos rios em jangadas, a que chamam piperis; são feitas de cinco ou seis paus redondos, mais grossos que o braço de um homem, e bem amarrados com cipós retorcidos. Sentados nessas jangadas, com as pernas estendidas dirigem-nas para onde querem com um bastão chato que lhes serve de remo. Como esses piperis têm apenas uma braça de comprimento, e dois pés mais ou menos de largura, resistem mal às tormentas e mal podem suster um homem. Quando o tempo está bom e os selvagens pescam separadamente, parecem de longe, tão pequenos se vêem, macacos ou melhor rãs, aquecendo-se ao sol em achas de lenha soltas nas águas. Como essas jangadas, feitas à feição de órgãos, flutuam como pranchas grossaas, penso que se as construíssemos em França teríamos um bom meio de atravessar os rios e pântanos, e lagos de águas paradas ou de fraca correnteza, diante dos quais nos vemos muitas vezes embaraçados.

Acrescentarei ainda que quando os selvagens nos viam pescar com as redes que trouxéramos e a que eles chamacam pyissa-uassu, mostravam-se solícitos em ajudar-nos, espantados em ver-nos apanhar tanto peixe de uma só vez. Se porventura os deixávamos manejar as redes, revelavam grande habilidade.

Depois que os franceses começaram a
traficar com o Brasil, os selvagens colheram vantagens das mercadorias que começaram a receber. Por isso louvam os traficantes; pois outrora eram obrigados a se servir de espinhas em vez de anzóis e agora gozam das vantagens dessa bela invenção que é o anzol de ferro. Daí, como já disse, terem os rapazes dessa terra aprendido a dizer aos estrangeiros que encontram: de agotarem amabe pindá, isto é, dá-me anzóis, pois agotarem no seu idioma quer dizer bom, amabe dá-me, e pinda anzol. Se não lhe dão o que pedem, a canalha repete com insistência: de angaipá ajucá, isto é: tu não prestas, devemos matar-te.

Portanto, quem quiser ser amigo, tanto dos velhos como das crianças, nada deve negar-lhes. Verdade é que não são ingratos, principalmente os velhos, pois quando menos pensamos no
obséquio, eles se lembram do donativo e o retribuem com qualquer coisa.

Observei que os selvagens amam as pessoas alegres, galhofeiras e liberais, aborrecendo os
taciturnos, os avaros e os neurastênicos. Posso pois assegurar aos sovinas, e aos avarentos, aos que comem dentro da gaveta, que não serão bem-vindos entre os tupinambás, porquanto detestam tal espécie de gente.


(LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil)

Oficina

Folhinha | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento | Almanaque
Candeeiro | Mural | Expediente
| Busca | Outras Edições