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CANDEARIA

Luz e querosene ainda é privilégio dos grandes fazendeiros nos lares sertanejos do vale do rio São Francisco. A iluminação do pobre é o azeite de mamona pisada. Eventualmente, costumam alumiar com uma espécie de vela, feita com bagos de mamona descascados, metidos numa tala de buriti ou num espetinho de madeira. Seja qual for a inflamável, utilizam-se de lamparinas e candeias, de tipos os mais variados. Os candeeiros de gás são feitos de vidros com bocas largas convenientemente adaptados, ou de folha de Flandres, grosseiros, de diversos modelos, sendo mais comum o de forma cônica. Há-os também de pé de areia, artísticos e engenhosos, bem trabalhados mesmo. As candeias, ou candeeiros de azeite, podem ser de barro ou de folha de Flandres, destes últimos alguns feitos com esmero. Não raro, improvisam candeias de pires, tampas de lata, pedaços de vasilhas quebradas, neles deitando azeite e puxada. Em vista disto o termo caco, entre os barranqueiros, sinonimiza com candeia.

As torcidas, como disse, são feitas de ceras de abelha, ou de sementes da mamona. Preparam-nas entrançando pavios de algodão ou de trapos, embebidos de cera , os quais vão depois dobrados em rolos, pois têm cerca de dois metros de comprimento. As torcidas da mamona, bem mais curtas que as primeiras, são feitas duma mistura de algodão descaroçado com bagos de mamona, descascados, conjuntamente moídos no pilão. À noite, distribuem os rolos pelos cômodos da casa, quaisquer que sejam eles, de mamona ou cera, geralmente grudados nos portais ou lombadas de enchimentos.

Acreditam que a cera é coisa sagrada, por isso recomendam suas torcidas na iluminação de altares por ocasião de festas religiosas, bem assim durante enterros noturnos, dentro de funis de papel conduzidos por quem acompanha o féretro.

Dada a utilidade que tem, na roça principalmente, atrai a abelha o barranqueiro, que à sua procura nas matas se embrenha carregando machados para sangrar os paus e abrir os ocos, e cabaças para encher de mel, e cumbucas para levar as ceras. Buscam-na também por esporte, mas, no mais das vezes, procuram-na para fins domésticos e econômicos. No primeiro caso nem se preocupam com a variedade e apanham a primeira que encontrar. Quando, no entretanto, tem em vistas necessidades caseiras escolhe a variedade de conformidade com o fim a que teve em mira. Se quer cera, escolhe abelha magra; se mel, apanha a abelha gorda.

Segundo acreditam, os meladores são perseguidos por sacis, por caiporas e outros seres encantados. E a imaginação do melador-barranqueiro é sempre fértil na criação de histórias fantásticas.

A apicultura é quase nula naqueles centros. Temos notícia de uma ou outra pessoa, mesmo assim nas cidades, que, em pequena escala, se dedicam à criação de abelhas. O roceiro, o homem dos gerais, conhece apenas abelha silvestre, que lá exubera em diferentes meios, segundo a variedade a que pertence. Ao escrever estas notas, lembrei-me das que seguem. No entretanto, pode haver outras cujo nomes se tenham escapado à minha memória, mesmo ao meu conhecimento.

Sete-portas: preferentemente sob lajes, esta abelha faz morada com sete entradas, sendo uma principal, que é a maior. Seu mel é saboroso, mas raramente o aproveitam, porque ao ver-se atacada mistura o mel com a sambora. Por essa razão extraem-se visando a cera, que é das melhores para iluminação.

Borá-bravo: abelha valente, que faz seus cortiços no oco dos paus. Antes do mais, o melador que a preferir tem de queimar a colméia com tochas de fogo, pois doutra maneira não consegue dominar a abelha. Dá pouco mel e muita cera.

Borá-manso: também esta variedade de abelha faz seus cortiços no oco dos paus, e não reage, nunca, ao ver sua casa atacada. Dá muito mel e pouca cera.

Arapuá: também é ela conhecida por chilhéim (xi-eim) , onomatopéia nascida do ruído que esta abelha produz embaraçando-se, enraivecida, nos cabelos de seus atacantes. Em vista disto, só conseguem aproximar do cortiço após queimar com fachos ligados às pontas de compridas varas suas casas, ou negras empolas de terra feitas nos mais altos pontos das árvores, em volta de um galho forte. O arapuá fornece mel e cera em abundância.

Mandaçaia: abelhas das matas, muito gorda, habita elas ocos dos paus. Seu mel é deliciosíssimo e é de boa qualidade a sua cera.

Preguiçoso(a): é o nome que dão a uma abelha pequena, que fabrica excelente mel com acentuado gosto de marmelo. No oco dos paus constrói seus cortiços, mas trabalha pouco. Tiram-no apenas para fins medicinais, pois seu mel não enche, nunca, uma garrafa, nem compensa o trabalho de extração de sua cera.

Uruçu: há duas variedades com o mesmo nome, uma das quais habita oco dos paus, enquanto a outra faz sua habitação em locais subterrâneos. Ambas são fartas de mel e cera.

Tataíra: abelha valente, que é tão temida quanto procurada, habita o oco de paus. E só consegue vencê-las após sua morada defumarem com uma mistura de trapos com folhas de certos vegetais. A ferroada dessa abelha produz dores violentas, semelhantes às queimaduras de pimenta, havendo casos em que a picada sucede borbulha. Acredita o barranqueiro que isso acontece quando a abelha urina no lugar da ferroada. Contudo, o mel e a cera desta variedade de abelha são de excelentes qualidades.

Munduri: habita oco de paus e seu mel é procurado, notadamente com intuitos medicinais.

Chupé: também chamada cabeçudo, esta abelha mora em cupins por ela construídos no tronco das árvores, geralmente no começo do primeiro esgalho. Também fornece bom mel e boa cera, mas, como acontece com arapuá, só o extraem depois de queimar a sua casa com tochas de fogo.

Jataí: abelha mansa, de mel fino e delicioso. Tem a cera branca e de excelente valor na iluminação, sendo muito viva a sua luz. O jataí constrói sua colméia no oco dos paus, nas locas de pedras, nas gretas das paredes de velhas igrejas e casas residenciais. Seu mel é empregado principalmente para fins medicinais.

Abelha de sapo: esta é a variedade de abelha que faz seus cortiços no chão, ou no oco de caveiras abandonadas. Não raro, até, no ossuário dos cemitérios, coveiros esbarram com uma família desta abelha habitando uma caveira humana. Aqui é a vez dos macumbeiros, que dão tudo pelo macabro cortiço, naturalmente com intuitos malévolos. Seu mel é de mau paladar, viscoso e repugnante.

Cupineira: conhecida por cupinheira entre os barranqueiros, esta abelha é rara, mansa, muitíssimo procurada dado o valor de sua cera, que, segundo acreditam, evitam malefícios à pessoa que o trouxe consigo. Também os correiros, pescadores e costureiras muito a apreciam na enceração de linhas. Sua cor é vermelho-viva, é muito macia e de excelente valor na iluminação.

(MARTINS, Saul. Artes e ofícios caseiros)

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