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Ir para a página principal AMOLADOR DE FACA

Entre os amoladores de faca que circulam hoje pelos bairros de São Paulo à procura de ferramentas para afiar, há italianos do Sul da Itália e brasileiros do Norte e Nordeste. O amolador Luigi Silvestrini afirma que a profissão de afiador de ferramentas foi introduzida no Brasil pelos espanhóis no início do século; em seguida foi abraçada pelos italianos que chegavam aqui sem qualificação profissional. Constata-se que os italianos que hoje exercem essa atividade, são, na maioria, homens de mais de cinqüenta anos de idade; os brasileiros, em geral, têm entre vinte e cinqüenta anos.

O amolador de ferramentas exerce a profissão em tempo integral e sabe que tal trabalho não lhe permitirá ganhar muito dinheiro, além de não ser reconhecido como profissão. Por isso, muitos se declaram trabalhadores autônomos, pagam INSS como se fossem vendedores de roupa e artigos variados, de modo a garantir a assistência médico-hospitalar à família e aposentadoria.

Esclarecem alguns afiadores que quem quiser ingressar neste campo de trabalho, deverá passar por uma fase de aprendizagem com os profissionais italianos, mais idosos e experientes. Acrescentam que quem já trabalhou ou está trabalhando como amolador de ferramentas a domicílio, estagiou no mínimo dois meses com um amolador mais experimentado.

Guiseppe Russo e Luigi Silvestrini, que trabalharam há mais de vinte anos nos bairros de Santo Amaro, Brooklin e Itaim, informam que cada afiador tem área de trabalho. Portanto, o neófito precisa saber a priori onde deverá vender seus serviços para não prejudicar os colegas.

Os amoladores oferecem seu trabalho em bairros residenciais abastados, de segunda a sexta-feira. Nos fins de semana, percorrem vilas e bairros periféricos. Os moradores dos bairros abastados, nos fins de semana, retiram-se da cidade os dos bairros modestos e das vilas pobres permanecem em casa.

O serviço consiste em afiar faca, tesoura, navalha, canivete, máquina de cortar cabelo, serra, alicate de unha e de cutícula, faca de liquidificador e de moedor de carne, incluindo consertos quando necessário ou solicitado pelos fregueses. Eventualmente, a relação de serviços pode incluir consertos de panelas e de outros objetos de uso caseiro. Os fregueses habituais são donas de casa, cabeleireiro, barbearia, açougue, bar, restaurante, oficina e padaria.

O amolador anuncia a sua presença nos bairros através de um instrumento musical, uma flauta de sete notas, e grita frases como: "Amolador de faca, amola tesoura, alicate". Quando chega a frente de um prédio ou de uma rua com grande densidade de habitações, estaciona o carrinho e começa a tocar instrumento e a gritar até que alguém o chame. Deixa o carrinho e vai até o freguês, apanha as ferramentas, combina o preço e passa a afiá-las. Enquanto afia, passa a gritar ou a chamar pessoas que circulam nas proximidades, indagando se elas têm faca e outros instrumentos domésticos para amolar.


INSTRUMENTOS DE TRABALHO

A gaita ou a flauta destina-se a chamar a atenção dos possíveis fregueses. Chaves de fenda servem para fixar os parafusos nos cabos das facas, das panelas e de outras ferramentas; martelo grande e pequeno para ajeitar as lâminas das facas, as pontas de tesouras e dos alicates; um maço de tiras de pano de todas as cores fica exposto ao lado do carrinho, à guisa de mostruário. Quando termina de afiar uma ferramenta, o afiador corta uma dessas tiras na frente da freguesa, a fim de mostrar que o instrumento ficou em boas condições. É comum ouvi-lo dizer em voz alta: "Veja, senhora, a sua faca ficou como nova. Esta cortando que é uma beleza. Eu disse à senhora que o meu serviço é garantido".


CARRINHO

O carrinho do amolador é confeccionado por ele mesmo, num período de quinze dias. Os materiais usados são: tábuas de caixote em desuso ou novas, uma roda de bicicleta, uma correia de couro, uma pedra esmeril, corrimão (eixo), pregos e tinta.

A altura é de um metro aproximadamente, e a largura tem entre quarenta e cinqüenta centímetros. As cores variam, sendo mais comum a verde-garrafa. Todo amolador tem, dois ou mais carrinhos: um fica em casa, para afiar as ferramentas das vizinhanças, aos sábados, domingos e feriados; o outro é o carrinho de trabalho diário. Muitos desenham na frente do carrinho, flores e as peças que afiam.

Escrevem frases, dependuram latinhas com água e chifres de boi.

Entre as frases, destacam-se as seguintes: "Trabalha honestamente irmão, que Deus te dará em dobro; quem rouba os seus fregueses não é inteligente; mulher é como rosa, é bonita quando jovem".

O chifre serve como reservatório d’água e funciona como amuleto: impede que as coisas ruins atrapalhem a vida e o trabalho do amolador; sobretudo, ajuda a conservar os fregueses, trazer novos. O carrinho comum tem forma de tamborete; o mais sofisticado apresentam formas de uma bicicleta. A frente de ambos os carrinhos é um depósito feito com uma ou duas tábuas inteiras, para guardar pertences do afiador: as ferramentas de trabalho, marmita ou lanche e os documentos. Na parte traseira do carrinho, há encaixada, entre a tampa e o pé, uma roda de bicicleta, cuja função é movimentar o esmeril e permitir o transporte do conjunto de um local de trabalho para outro.

Para afiar ferramentas, o amolador se debruça sobre a tampa do carrinho, movimenta o pedal com o ritmo constante e lento. Passa devagar a ferramenta no esmeril movimentado com o pé.

Ao fim de cada dia de trabalho, o carrinho é guardado em um depósito de ferro velho ou deixado em alguma construção, para ser retirado na manhã do dia seguinte.


(LUBATTI, Maria Rita da Silva. Vendedor Ambulante, profissão folclórica; pesquisas nas ruas, parques e jardins de São Paulo)

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