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O Bruno sorveteiro, vendia lá pela década
de 1950, sorvetes em carrocinha. De idade entre 30 a 40 anos, provavelmente
ítalo-brasileiro, alto, magro, olhos verdes e arregalados, vermelhaço, pomo de Adão e
dentes superiores bem salientes, era muito popular e estimado entre a criançada. Uma alma
simples e boa. Sorvete! (FERNANDES, Waldemar Iglésias. Lendas e crendices de Piracicada e outros estudos)
MAGINE! |
A VOZ QUE VEIO DO ALÉM Em Santa Maria do Tabuí há muito tempo atrás, Seu Nicolino era o padeiro. Baixinho, rechonchudo e careca. Um batalhador. De domingo a domingo, saía no lusco-fusco da madrugada para entregar o pão que iria forrar o estômago de muito cidadão tabuiense. Seis horas de uma manhã cinzenta e triste, daquelas que prenunciam tempestade. Lá ia o Nicolino, passando pelo velho cemitério, carregando nas costas um bitelo dum jacá cheio de pães ainda quentinhos. Ninguém pelas redondezas. Nenhuma alma viva a não ser ele. De vez em quando seu Nicolino, como que para espantar algum fantasma, gritava: - Padeiro-ô-ô!... Bem ao lado do cemitério mal cuidado, com os muros caindo, seu Nicolino, meio ressabiado, teve a impressão de ter sido chamado lá de dentro. Arrepiou-se todo. Mas controlou-se, equilibrou o coração e o jacá na cabeça. Ia saindo de fininho quando ouviu uma voz fraquinha, como um sopro de alma sem descanso, perguntar de dentro do cemitério: - Tem pão dormido?... Seu Nicolino empacou. Cortou a respiração enquanto o coração ficava todo descontrolado, a mente queria ganhar mundo e as pernas viravam molambo. Queria andar mas não conseguia. O jacá de pães parecia pesar toneladas. Assim que conseguiu botar em ordem o pensamento e começar a ganhar cor novamente, ouviu a mesma vozinha sem-vergonha: - Tem pão dormido?... Foi a conta para o coitado do padeiro. Pinchou bem longe o jacá de pães e... sebo nas canelas rua abaixo, numa correria despinguelada. Os cabelos que ainda restavam na cabeça lustrosa lembravam um porco espinho. E enquanto corria com as pernas curtas e balançando a pança, uma sonora gargalhada estridente quebrou o silêncio do cemitério deserto. Mais tarde, quando tudo se esclareceu, seu Nicolino queria porque queria dar um tiro no pobre do coveiro que acordara de madrugada para trabalhar, estava com fome e apenas queria comer um pãozinho mais barato, o pão dormido...
A MORTE MANDA MENSAGENS Lá no sertão é crença comum que quando se vai levar um defunto para enterrar, não se pode parar. Pra nada. O morto tem que estar sempre em movimento. Sempre pra frente. Se os carregadores querem fazer mal a alguém é parar com o defunto nas terras desse alguém ou na frente da sua casa. É desgraça na certa para o dito cujo. Por isso donos de terra ficam de butuca quando passa carregamento de defunto. Até tiro dão se há ameaça de parar. Os carregadores têm que ser rapidinhos. Dar sossego depressa à alma do morto pra o distinto não ficar com raiva nem vagando por aí. Pois bem. Num certo dia de janeiro, eis que morre o Deusdete. Homem novo ainda. Cufou por causa do barbeiro. Choro para os parentes e pesar entre os amigos. Defunto tinha que ser enterrado. Xico Vitrola, seu amigão do peito, arruma mais cinco para carregar o corpo do Deusdete até o cemitério de Tabuí. Caminho longo de quatro léguas. Botam o defunto numa rede, onde passam uma vara bem grossa e, dois a dois, vão carregando o amigo até a cidade dos pés juntos. Cansaço muito. Diminuem um pouco a marcha e andam e andam. Tardezinha chegando. Pispiando a noite vêem que não dá para chegar a Tabuí antes do fechamento do cemitério. Negócio é descansar e continuar no rompante da manhã. Cada um se ajeita como pode. Morto fica num canto. Puxam o ronco. Cansaço dos diabos. Só o Xico Vitrola, pesaroso com a morte do amigo e medroso como ele só, não consegue pegar no sono e fica apreciando a lua cheia toda brilhosa no céu. Lá pelas tantas, com os olhos ainda arregalados, vê uma coisa que o deixou de cabelos em pé. O morto parece que se levanta e vem caminhando em direção ao grupo de amigos, no rumo dele. Passa por cima de um, assim meio no ar. Passa pelo outro e mais outro, até passar pelo quinto. Tudo muito de leve, parecendo fantasmado. Quando Deusdete vai passar por cima do Xico, este não se contém e apronta o maior berreiro, soltando os gritos represados na garganta: - Pra cima de mim não, coração! Por amô de Deus, Deusdete! Vai pro seu corpo, diabo! Cruzcredo!... Avemaria!... Creindeuspadre!... Com a gritaria do Xico da Vitrola, companheirama acorda pedindo explicação. Que foi? Que que não foi? Deixa disso, minha gente! Nossa Senhora da Aparecida! Explicado bem explicadinho alguns acharam graça e outros ficaram com a pulga atrás da orelha, preocupados. Um deles foi o Ocride: - Óia, gente! Isso é castigo de Deus. O morto num discansô até agora porque a gente num interrô ele. Deusdete deve tá divera puto da vida cagente! - E o diacho é que ele passô inriba de nóis, né sô? Isso é mau siná. Queira Deus que certas coisa qui o povo fala seja só boataria... Foi o que conseguiu completar João Bentinho, todo cismado, o primeiro que o espírito do Deusdete passou por cima. Daquela hora pra frente ninguém mais dormiu. Só o Juca Morais é que ainda, de madrugadinha, conseguiu tirar uma pestana. Afinal, ele não acreditava nas lorotas que o povo contava. - Uai, sô! Dexa de bobage, gente! Larga de mão disso! Quem morreu, morreu! Num vorta mais. O Xico tava era com sonhação! Na metade da manhã chegaram com o corpo frio e duro do Deusdete no cemitério. Enterraram o amigo. Passaram num boteco para molhar a goela e se mandaram de novo, estrada a fora, rumo do sertão, cada qual pro seu canto. Xico Vitrola, naquele ano, teve que fazer o mesmo trajeto de carregamento de defunto mais cinco vezes. (Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil)
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