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O Bruno, sorveteiro

O Bruno sorveteiro, vendia lá pela década de 1950, sorvetes em carrocinha. De idade entre 30 a 40 anos, provavelmente ítalo-brasileiro, alto, magro, olhos verdes e arregalados, vermelhaço, pomo de Adão e dentes superiores bem salientes, era muito popular e estimado entre a criançada. Uma alma simples e boa.

Parava no meio da rua e esgoelava aquele seu inconfundível:

Sorvete!
Sorvetão!
É quinhentão!
Sorvete bão!

Depois:

- Sorvete! Sorvete! Sorvete!
(ia dizendo muitas vezes até ficar muito rubro e lhe faltar quase o fôlego)

(FERNANDES, Waldemar Iglésias. Lendas e crendices de Piracicada e outros estudos)



MAGINE!

- Se tem sojeito escoído
Pra roncá, é o Joca Leme!
Hôta! É um ronco que num teme
Cumpitição, João Comprido

Quando o damnado se espreme
E sórta aquele rugido
Quem tá meio distraído
Leva um susto, que inté treme

- Quar!… Esse um num vale nada
Perto do Mané Trovoada
Que é um turuna pra roncá

Magine que, ar-vêiz, o peste
Só c’o ronco, nhá Celeste
Tira a cama do lugá!


O SONO

- As dôr que a gente padece
Catuca que nem espinho
Mais, de tudo a gente esquece
Basta drumi um tiquinho

O somno é bença que desce
Do céu e vem, direitinho
Pur riba de quem carece
De aligria e de carinho

O somno é filicidade
Que vem de Deus, nhô Piadade…
- É verdade, nhô Zé Lixo

O somno… É durante o tá
Que a gente pode sonhá
Cuns bão parpite pro bicho

(COSTA, Fontoura. Matutices)




SÁBADO E DOMINGO

Uma vez, disse o Sábado ao Domingo

"Nós somos sete irmãos, e eu não distinguo
Nenhum deles, bem vês! Somos todos iguais
Porém você dos seis é o mais malandro
O mais fino e sagaz!

Trabalhamos seis dias, sem repouso
Para você, no auge do seu gozo
Andar todo cheiroso
A gozar, a gozar
Nos bailes namorando
Pelas ruas flanando
Ou, se lhe apraz, em casa descansando
A dormir, a roncar!"

Depois, pousando a mão nos ombros do domingo
Exclamou: "Eu me vingo!
Isto tem de acabar!

Mas Domingo lhe disse: - Meu irmão,
Pensa e verás que tu não tens razão
Enquanto vocês todos, nos seis dias
Trabalham para mim, não é em vão!
Eu estou igualmente trabalhando
E organizando
Divertimentos, bailes e folias
Circos, teatros, futebol e folias
Cinemas e outras coisas divertidas
Para dar a vocês, na luta insana
Pelo menos um dia na semana
Para vocês descansarem
Nas igrejas, rezarem
Ou pelas grandes farras passearem

* * *

E o sábado, a pensar, vendo o senhor domingo
retirar-se, de vez, meio ofendido
Pela sua severa observação
– ergueu a fronte e disse, convencido:

"Domingo, caro irmão!
Desde que és entre nós o irmão mais divertido,
E de mais distinção,
Eu vou dizer, de fronte sobranceira
Às nossas cinco irmãs -
Dona Segunda
Dona Terça
Dona Quarta
Dona Quinta
E à Excelentíssima senhora dona Sexta-Feira,
Que tens toda a razão"

(CEARENSE, Catulo da Paixão. Fábulas e alegorias)




O escravo coroado

Em uma das suas audiências dos sábados, em que atendia a toda a gente, recebeu dom Pedro II no Paço da Boa Vista um preto velho, que se queixava dos maus tratos de que era vítima.

– Ah, meu senhor grande, - lamentava-se o mísero, - como é duro ser escravo!

O imperador encarou-o, comovido.

– Tem paciência, filho, - tranquilizou-o – Eu também sou escravo… das minhas obrigações, e elas são muito pesadas! As tuas desgraças vão minorar…

E mandou alforriar o preto.

(Taunay. Reminiscências. v. 1, p. 107)


Os bons versos

Em uma roda de literatos, discutia-se, certa vez, metrificação, quando um deles procurou amesquinhar Machado de Assis, observando, leviano:

- Era um péssimo poeta. O último verso dos alexandrinos "A uma criatura" tem onze sílabas; é um verso de pé quebrado.

Emílio de Menezes que se achava no grupo, e sentia uma religiosa admiração pelo mestre, franziu a testa profética e protestou soturno:

- Não pode ser.

E sentencioso:

- Os bons versos não têm pés: têm asas!

(Humberto de campos. Discurso na Academia de Letras, a 8 de maio de 1920)


(CAMPOS, Humberto de. O Brasil anedótico)

A VOZ QUE VEIO DO ALÉM

Em Santa Maria do Tabuí há muito tempo atrás, Seu Nicolino era o padeiro. Baixinho, rechonchudo e careca. Um batalhador. De domingo a domingo, saía no lusco-fusco da madrugada para entregar o pão que iria forrar o estômago de muito cidadão tabuiense.

Seis horas de uma manhã cinzenta e triste, daquelas que prenunciam tempestade. Lá ia o Nicolino, passando pelo velho cemitério, carregando nas costas um bitelo dum jacá cheio de pães ainda quentinhos. Ninguém pelas redondezas. Nenhuma alma viva a não ser ele. De vez em quando seu Nicolino, como que para espantar algum fantasma, gritava:

- Padeiro-ô-ô!...

Bem ao lado do cemitério mal cuidado, com os muros caindo, seu Nicolino, meio ressabiado, teve a impressão de ter sido chamado lá de dentro. Arrepiou-se todo. Mas controlou-se, equilibrou o coração e o jacá na cabeça. Ia saindo de fininho quando ouviu uma voz fraquinha, como um sopro de alma sem descanso, perguntar de dentro do cemitério:

- Tem pão dormido?...

Seu Nicolino empacou. Cortou a respiração enquanto o coração ficava todo descontrolado, a mente queria ganhar mundo e as pernas viravam molambo. Queria andar mas não conseguia. O jacá de pães parecia pesar toneladas.

Assim que conseguiu botar em ordem o pensamento e começar a ganhar cor novamente, ouviu a mesma vozinha sem-vergonha:

- Tem pão dormido?...

Foi a conta para o coitado do padeiro. Pinchou bem longe o jacá de pães e... sebo nas canelas rua abaixo, numa correria despinguelada. Os cabelos que ainda restavam na cabeça lustrosa lembravam um porco espinho.

E enquanto corria com as pernas curtas e balançando a pança, uma sonora gargalhada estridente quebrou o silêncio do cemitério deserto. Mais tarde, quando tudo se esclareceu, seu Nicolino queria porque queria dar um tiro no pobre do coveiro que acordara de madrugada para trabalhar, estava com fome e apenas queria comer um pãozinho mais barato, o pão dormido...

 

A MORTE MANDA MENSAGENS

Lá no sertão é crença comum que quando se vai levar um defunto para enterrar, não se pode parar. Pra nada. O morto tem que estar sempre em movimento. Sempre pra frente. Se os carregadores querem fazer mal a alguém é parar com o defunto nas terras desse alguém ou na frente da sua casa. É desgraça na certa para o dito cujo. Por isso donos de terra ficam de butuca quando passa carregamento de defunto. Até tiro dão se há ameaça de parar. Os carregadores têm que ser rapidinhos. Dar sossego depressa à alma do morto pra o distinto não ficar com raiva nem vagando por aí.

Pois bem. Num certo dia de janeiro, eis que morre o Deusdete. Homem novo ainda. Cufou por causa do barbeiro. Choro para os parentes e pesar entre os amigos. Defunto tinha que ser enterrado. Xico Vitrola, seu amigão do peito, arruma mais cinco para carregar o corpo do Deusdete até o cemitério de Tabuí. Caminho longo de quatro léguas. Botam o defunto numa rede, onde passam uma vara bem grossa e, dois a dois, vão carregando o amigo até a cidade dos pés juntos. Cansaço muito. Diminuem um pouco a marcha e andam e andam. Tardezinha chegando. Pispiando a noite vêem que não dá para chegar a Tabuí antes do fechamento do cemitério. Negócio é descansar e continuar no rompante da manhã.

Cada um se ajeita como pode. Morto fica num canto. Puxam o ronco. Cansaço dos diabos. Só o Xico Vitrola, pesaroso com a morte do amigo e medroso como ele só, não consegue pegar no sono e fica apreciando a lua cheia toda brilhosa no céu. Lá pelas tantas, com os olhos ainda arregalados, vê uma coisa que o deixou de cabelos em pé. O morto parece que se levanta e vem caminhando em direção ao grupo de amigos, no rumo dele. Passa por cima de um, assim meio no ar. Passa pelo outro e mais outro, até passar pelo quinto. Tudo muito de leve, parecendo fantasmado. Quando Deusdete vai passar por cima do Xico, este não se contém e apronta o maior berreiro, soltando os gritos represados na garganta:

- Pra cima de mim não, coração! Por amô de Deus, Deusdete! Vai pro seu corpo, diabo! Cruzcredo!... Avemaria!... Creindeuspadre!...

Com a gritaria do Xico da Vitrola, companheirama acorda pedindo explicação. Que foi? Que que não foi? Deixa disso, minha gente! Nossa Senhora da Aparecida! Explicado bem explicadinho alguns acharam graça e outros ficaram com a pulga atrás da orelha, preocupados. Um deles foi o Ocride:

- Óia, gente! Isso é castigo de Deus. O morto num discansô até agora porque a gente num interrô ele. Deusdete deve tá divera puto da vida cagente!

- E o diacho é que ele passô inriba de nóis, né sô? Isso é mau siná. Queira Deus que certas coisa qui o povo fala seja só boataria...

Foi o que conseguiu completar João Bentinho, todo cismado, o primeiro que o espírito do Deusdete passou por cima. Daquela hora pra frente ninguém mais dormiu. Só o Juca Morais é que ainda, de madrugadinha, conseguiu tirar uma pestana. Afinal, ele não acreditava nas lorotas que o povo contava.

- Uai, sô! Dexa de bobage, gente! Larga de mão disso! Quem morreu, morreu! Num vorta mais. O Xico tava era com sonhação!

Na metade da manhã chegaram com o corpo frio e duro do Deusdete no cemitério. Enterraram o amigo. Passaram num boteco para molhar a goela e se mandaram de novo, estrada a fora, rumo do sertão, cada qual pro seu canto.

Xico Vitrola, naquele ano, teve que fazer o mesmo trajeto de carregamento de defunto mais cinco vezes.

(Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil)



• Temer a morte é morrer duas vezes
• Tanto mente o velho em sua terra, como o moço fora dela
• Olho viu, a mão buliu
• Onde a galinha tem os pintos, lá se lhe vão os olhos
• Intriga de irmão, intriga de cão
• Cavalo de cachaceiro conhece caminho de bodega
• Quem com cães se deita, com pulgas se levanta
• Quem a um castiga, a cem fustiga
• São quatro os inimigos da gente: mundo, diabo, carne e parente
• Se ao criminoso queres zangar, fala-lhe em crime e deixa-te estar



• Preguiça é o hábito de descansar antes de estar cansado
• Folgado é dente na boca de pobre
• Se ferradura desse sorte, burro não puxava carroça
• Existo porque insisto
• Lutei tanto pela vida que esqueci de viver
• A melhor lua para se plantar a mandioca é a lua de mel
• A solidão é um caminhão na contramão e se não desviar dele é uma cacetada no pára-choque do coração
• Ayrton, você nunca sairá de Senna
• Chicote se não for usado, vira pedaço de couro
• Mulher é como circo, o espetáculo fica por baixo do pano

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