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Ano V - abril  2003 - nº 56

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 56
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)14 de abril, dia de São Benedito.

setaquad.gif (95 bytes)Armadilhas contra as bruxas.

setaquad.gif (95 bytes)O culto negro popular de São Benedito, por Clóvis Melo.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


O CULTO NEGRO POPULAR DE SÃO BENEDITO

Clóvis Melo


O culto de São Benedito é um dos principais cultos afro-católicos do Brasil. Embora introduzido pela própria igreja serviu, como o de Nossa Senhora do Rosário, para nuclear em torno de si homens que possuíam suas crenças próprias, advindas do próprio meio de que vieram: os escravos africanos. Forçados pelos brancos a aceitar o culto destes buscaram eles reviver, à sombra dos próprios santos católicos os seus "orixás". São Benedito para os católicos é São Benedito, mas para os negros africanos é Friquite, um orixá irmão dos seus Oguns, Xangôs, dos seus espíritos protetores...

Aliás, São Benedito parece ter surgido com a finalidade de facilitar a cristinianização dos negros. Não somos dos que põem em dúvida a existência de frei Benedito, da Ordem de São Francisco, membro do mosteiro de Santa Maria em 1462, cozinheiro que chegou a vigário da sua própria Ordem, "por força dos milagres" — a transformação da água em peixes, em dia de fome no convento, por ter carregado nos ombros uma árvore que dez homens não suportaram, a ressurreição de um cavalo de um lavrador pobre, a luta contra os feitiços, etc. O que pomos em dúvida é a sua cor preta, de vez que sendo bérbere pela sua origem, deveria ser simplesmente moreno. A tradição do "pretinho milagroso", que em Portugal, primeiramente se concentrou no Porto, deve ter sido obra dos próprios religiosos desejosos de cativar os escravos do Reino (a escravatura negra ali só foi abolida ao tempo de Pombal). E que serviu admiravelmente na conversão dos negros das colônias da África e até do Brasil para onde tinham os lusos levado pretos como escravos...

A galeria dos "santos negros" a partir do século XVII vai se tornando vasta: São Benedito, São Elesbão, São Felipe Negro, Santo Antônio de Categeró, falando alguns cronistas na existência na África Portuguesa de uma Nossa Senhora e de um Cristo negros. Viajantes da Ásia e Oceania têm relatado que também por lá apareceram os "santos amarelos" e a própria Sagrada Família usa o quimono e tem os olhos amendoados. O catolicismo deu ao mundo as primeiras lições de adaptabilidade ao meio e não sem razão os jesuítas costumam dizer que se adaptam a todos os climas e a todos os regimes...

No caso de São Benedito chegou a se gerar um verdadeiro lendário. Lendas negras fazem-no filhos de escravos e nascido na Etiópia, onde predomina um ramo cristão — o cripta. Por mais incrível que pareça os príncipes negros da Abissínia tinham (e ainda têm) escravos que fornecem às companhias estrangeiras exploradoras de minérios e donas de plantações de café na África do Norte e Centro. São Benedito teria sido um destes escravos resgatados pela Ordem e que, por gratidão, teria vestido o hábito e se tornado um soldado de Cristo. Os seus próprios biógrafos confessam a existência na Ordem de São Francisco, da discriminação racial, motivo pelo que frei Benedito foi mandado para a cozinha e só se tornou vigário após vinte e sete anos, quando os seus milagres já se haviam espalhado por todo o mundo cristão. Outra lenda faz de São Benedito um príncipe negro que vendeu seus bens ao ouvir o chamado de São Francisco de Assis. Príncipe ou escravo, o lendário não lhe branqueou a pele que era tão "escura" como a um francês do Mediterrâneo ou habitante da Ásia Menor...

Mas o que importa é que a Confraria de São Benedito teve grande importância na vida da sociedade patriarcal e escravista do século XIX. Os próprios retratos de seus passados procuradores e provedores: Rosalino, Deodoro, Faustino, Belmiro, Agapito, Calazans, Antônio Nepomuceno, antigos carregadores, cocheiros e homens do povo, todos negros, demonstram a bem próxima ascendência africana. Tipos étnicos em que facilmente descobriremos o negro do Congo e da Angola, o banto, que devem ter sido os seus pais. Essas confrarias de negros tiveram grande participação na luta contra a escravidão: elas resgatavam escravos, e do seu corpo social, faziam estes parte. Somente após 1871, como se poderá ver pelo Compromisso, da Irmandade, que vigorou até 1888, é que se fez a distinção entre devotos de São Benedito, da condição de livres e escravos. Diz o artigo 4º desse Compromisso: "Dora em diante só poderão ser admitidos a esta Confraria as pessoas de cor preta, livres do cativeiro; podendo, também, ser também admitidas as pessoas livres de cor parda e branca que, por devoção quiserem pertencer à confraria e que por suas qualidades e costumes não delustrem a corporação". Nepomuceno referia o porque desse artigo: os senhores de escravos chegavam a invadir a confraria para de lá arrancar os seus escravos. E tantos aborrecimentos houve, por esse motivo, que resolveram não os aceitar mais, não deixando porém de trabalhar pela alforria dos seus irmãos de cor. Quanto à aceitação de brancos e pardos era uma imposição a dim de que não tomasse a confraria um nítido caráter de associação negra...

Outra função que as confrarias — e entre elas a de São Benedito — cumpriram, com proveito, foi a da educação associativa. Tiveram nelas origem as primeiras sociedades beneficentes, ligas mutuárias, socorristas, ajudistas, montepios, que conheceu o nosso povo. O Monte Pio da de São Benedito, já existia no século passado, e foi reformado, em 1894, após a República. Na outra circunstância que não deve ser esquecida: a cada confraria estava associado um setor profissional ou corporativo — oficiais mecânicos, artistas liberais, os artesãos. Sob a bandeira de São Jorge formavam os ferreiros; a de São Crispim, os sapateiros; Sâo Miguel, latoeiros; Nossa Senhora da Conceição, correeiros; Nossa Senhora das Mercês, pasteleiros; de Santa Justa e Santa Rufina, oleiros; São José, pedreiros; São Gonçalo, tecelões e vridraceiros; Nossa Senhora da Oliveira, carpinteiros; Nossa Senhora das Candeias, alfaiates; Nossa Senhora da Encarnação, carpinteiros. É o que chamaríamos hoje "padroeiros da classe", em torno dos quais se formaram as primeiras associações profissionais na colônia e império, possibilitando a união em torno da defesa dos mesmos interesses. Eis a raiz dos modernos sindicatos profissionais de trabalhadores.

Mas voltemos à irmandade de São Benedito. Ela foi ereta no convento do Carmo até 1907. Foi então para a Igreja das Fronteiras. Nada mais justo. Igreja fundada pelo herói negro, Henrique Dias, em terras de sua estância militar, de onde sitiou os holandeses no Recife, cabia de direito aos escravos e pardos livres. A capelinha, iniciada em 1648 pelo bravo cabo de guerra, e que logo se arruinou, por ter sido feita de taipa, teve em 1695 de ser restaurada pelo terço dos homens de cor que dela cuidava, o que foi feito através de esmolas. Em 1817 os descendentes de Henrique Dias empolgados com os ideais de liberdade participaram ativamente da rebelião republicana e independentista, de 6 de março. Dissolveram o terço. Mas logo adiante fizeram um batalhão de pardos, em 1822, após a expulsão de Luiz do Rego. À sua frente, o caudilho Pedroso tentou implantar uma "ditadura dos homens de cor" como Touissaint o fizera no Haiti, anos antes, acontecimento que ficou conhecido pelo nome de "Pedrosada". Frei Caneca conta que indo uma vez na capela de Nossa Senhora da Assunção das Fronteiras foi encontrar o coronel Pedroso, que era então comandante das armas do Governo, com um violão no braço e uma mulata escanchada na perna, vendo os negros dançar os seus lundus no pátio da igreja. Ao ver Caneca não se conteve de alegria e mostrando as mulatas que saracoteavam e davam as suas umbigadas, o velho caudilho crioulo exclamou: — Esse é o meu povo!

Da igreja das Fronteiras a Confraria de São Benedito foi também despejada. Hoje vive numa dependência da igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde o seu São Benedito recebe os fiéis que lhe levam muitos ex-votos, cartas e oferendas, como a Santa Quitéria ou São Severino. Perdeu todos os bens, os "brancos" levaram-lhe tudo — as casas, os terrenos. Vive hoje das parcas contribuições dos associados. E só não desapareceu ainda, por causa do seu dinâmico presidente, Joviniano Régis S. Oliveira e sua diretoria. Os arquivos da Ordem, os seus velhos Compromissos, de 1870 e 1888 (este último ainda se encontra em vigor), os seus livros de cobrança e contribuições, emque há curiosidades imensas — aluguéis de casa de 1853, da rua da Jangada, 8 mil réis mensais —, as suas velhas imagens de nossa Senhora das Angústias, São Gonçalo, Nossa Senhora da Saúde das Fronteiras, Nossa Senhora dos Milagres e São Francisco de Assis, os antiquíssimos oratórios e paramentos, poderão se perder, por falta de conservação. Como se perdeu o púlpito de onde frei Caneca pregou em 8 de setembro de 1822, em regozijo pela independência do Brasil, que após a demolição do Corpo Santo foi levado para Madre de Deus e lá jogado para um canto.



(Melo, Clóvis. "O culto negro popular de São Benedito". Folha da Manhã. Recife, 30 de agosto de 1953)

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