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Ano V - abril  2003 - nº 56

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 56
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)14 de abril, dia de São Benedito.

setaquad.gif (95 bytes)Armadilhas contra as bruxas.

setaquad.gif (95 bytes)O culto negro popular de São Benedito, por Clóvis Melo.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


SÃO BENEDITO

Nascido em Sanfratello e falecido em Palermo, na Itália, a 4 de abril de 1589, São Benedito, por ser preto, obteve grande prestígio junto aos homens de cor. Analfabeto e humilde, chegou a ser o guardião do convento. Também no Brasil sua devoção é muito difundida. Seu culto, à semelhança do de Nossa Senhora do Rosário e de Santa Ifigênia, foi levado pelos portugueses à África e trazido para o Brasil. Aqui, com registros a partir do século XVIII, as comemorações de São Benedito sempre estiveram, como até hoje, muito entrelaçadas às de Nossa Senhora do Rosário. Às irmandades religiosas dedicadas aos dois santos estão ligados os grupos de dançadores de congada e moçambique. Este último grupo, ainda hoje, abre o seu desfile com o estandarte que traz estampada a imagem do santo.

No estado do Rio de Janeiro, com conotação também místico-religiosa ligada ao culto de São Benedito, sobrevivem os grupos de caxambu e jongo. Os primeiros nos municípios de Bom Jesus de Itabapoana, Cantagalo, Santa Maria Madalena, São Sebastião do Alto, Vassouras, Santo Antônio de Pádua, Valença, Barra do Piraí, Cambuci, Itaocara, Porciúncula, Três Rios e Trajano de Morais. Os segundos, em Bom Jesus do Itabapoana, Santa Maria Madalena, Campos e Araruama.

Comemorado em datas diversas, São Benedito é cultuado no estado do Rio de Janeiro principalmente a 13 de maio, data da abolição da escravatura. São muitos os louvores ao santo.

Em Santo Antônio de Pádua, o grupo de caxambu liderado pela mestra e responsável, que se diz afilhada de São Benedito e afirma ser este chefe dos pretos velhos, realiza tradicional e concorrida festa em seu louvor a 13 de maio. Na sua casa tem presentemente armado um altar com a imagem do santo, onde são acesas velas e colocadas flores naturais neste dia. Ao lado ficam os tambores confeccionados por antigos escravos e que lhe foram transmitidos por uma centenária caxambuzeira que lhe passou também a responsabilidade de continuar a devoção do grupo. Na mesma sala um andor com uma imagem menor de São Benedito, devidamente enfeitado, aguarda a saída da procissão. Ressalte-se que estas imagem são talhadas em madeira por um artesão local.

Às dezoito horas, precedido pela mestra caxambuzeira, o cortejo é iniciado com a participação do grupo e do povo devoto, acompanhando e entoando cantos religiosos puxados pela mestra. Percorrem as ruas próximas e retornam à casa de origem, onde são proferidos vivas a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário. Terminada a procissão, inicia-se a preparação para a dança do caxambu, no terreiro. Nesta fase, homenageiam a princesa Isabel: uma menina de dez anos, filha de algum participante do grupo, representando a princesa — vestido longo, à cabeça coroa de flores de papel de seda — é carregada numa rede por quatro caxambuzeiro, evocando o tempo em que os escravos carregavam a rainha e as princesas.

Novamente, forma-se o cortejo, a mestra à frente seguida da princesa e dos escravos, dos demais caxambuzeiros e do povo. No local da dança, a princesa desce da rede e permanece ao lado dos instrumentistas. A mestra manda formar a roda e vai para o centro. Entoa o pedido de licença, as louvações, iniciando a dança que prossegue com o revezamento de pontos, até à meia-noite. Uma das cantigas reza:

Siá rainha
Fez bem não fez mal
Pegou pena de ouro
Atirô no meio do mar

À meia-noite, prosseguindo a festa, um quadro previamente armado em cima do mastro é ativado pela explosão de fogos, revelando a imagem do santo em meio ao estampido de rojões e de fogos de artifício. A festa é encerrada e todos voltam às suas casas.

Ainda em Santo Antõnio de Pádua, entre as promessas feitas a São Benedito, figuram a oferta, por devotos, de toalhas brancas bordadas e outros tecidos a exemplo da toalha que figura na imagem do santo. Agumas delas são depois doadas à igreja, apesar da festa não ter nenhuma vinculação com as autoridades religiosas locais.

Em Paraty, São Benedito é comemorado a 29 de dezembro pelo povo e pela igreja, junto com Nossa Senhora do Rosário, na festa a que chamam Divino dos Pretos, os participantes convergem para a casa do festeiro da noite, seguindo-se distribuição de comida. Na procissão final, culminância da festa, há séquitos com reis, rainhas e vassalos, precedidos pelo estandarte de São Benedito, participando também, violeiros e banda de música. Em Angra dos Reis, comemora-se São Benedito a 14 de abril, por iniciativa da irmandade religiosa dedicada ao santo, com atividades sacras — missas, procissões — e outras — barracas e brincadeiras comum às festas populares.

Em Mangaratiba, tanto na sede como no distrito de São Piloto, a comemoração a São Benedito é realizada na primeira segunda-feira após a Páscoa. O evento é precedido de rezas nas casas dos devotos, servindo-se em seguida, café com bolo.

Saquarema conta com um hábito curioso em sua festa: as crianças usam roupas brancas e os mais velhos, roupas de cores escuras.

Também os municípios de Cambuci, Itaperuna, Trajano de Morais comemoram o santo com atividades comuns às festas populares e religiosas.



(Folclore fluminense, p.234-236)

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