|
|
| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
A paisagem amazônica condiciona as atividades humanas de tal modo como não se
verifica em outros pontos do pais, absorvendo o homem com tal rigor, que a sua
determinação de domínio e aproveitamento das riquezas da hiléia se afigura um
atrevimento inútil.
A água é, ali, o fator que gera e impulsiona a vontade do caboclo, sem permitir que
homem e chão se integrem suficientemente, anulando obstáculos que até aqui se oferecem
contra o desbravamento, em maior amplitude, do intricado manto da floresta.
O homem, como que imantado às superfícies espelhantes, soma-se aos outros seres de vida
submersa. Não reage, submete-se ante uma vastidão incomparável de águas margeadas
igualmente pela impenetrável massa verde; água, troncos e folhas, permitindo quase só
um trabalho que se insinua de diferentes modos, mas sem grande ímpeto. O homem tem que
sobreviver. Isto o obriga a contornar os problemas, aproveitando virtualidades que o meio
oferece ao seu avanço contra a imobilidade aparente da mata e do chão.
A grosso modo, é essa a impressão que tem qualquer observador, não obstante a
verificação que faz o adventício ao adentrar-se pelo hinterland selvagem,
descobrindo nos lugares menos suspeitos a pertinência do caboclo na sua faina
civilizadora.
A água rege o comportamento humano, condicionando aos seus regimes qualquer atividade; as
cheias e as vazantes criando formas de adaptação, influindo no pitoresco, mas sem
apresentar considerável importância ao desenvolvimento, pelo menos no que se refere a
uma expressão cultural universalizada.
A palafita é uma dessas modalidades que tem origem no afluxo das águas, e mesmo pela
instabilidade da terra firme, naturalmente solapada pela erosão fluvial sujeita ao
desgaste que os solos fracos não podem evitar.
As margens de igarapés, furos ou paranás, apresentam condição ideal para a
instalação de palafitas, ocorrência que aí se estende com múltiplas vantagens. O
peixe fica ao alcance da mão, a "montaria" atraca no "gurupape" que
dá acesso à cabana sustentada pelos espeques fincados na lama. Aliam-se o útil ao
agradável, da expressão popular, embora a compensação, no caso, relacione apenas à
circunstância inevitável de não dispor o caboclo de outro jeito senão submeter-se ao
que o meio permite.
Como conceito de moradia, e na estrutura predominantemente vegetal, a palafita amazonense
não difere de suas congêneres encontradas em rios e lagos não só do Brasil como de
outros países, entre os quais a África apresenta grupos bastante populosos.
Na bacia amazônica, a variedade de palmáceas contribui para facilitar a construção das
palafitas mais rústicas, de precário acabamento e com um mínimo de comodidade; o ubuçu
e o açaí fornecendo estames e palhas que servem para o assoalho, as vigas, paredes e
coberturas de "meros esqueletos erguidos sobre estacas" segundo observou
Roy Nash. É o tipo de palafita das regiões mais incultas, de acesso mais difícil à
civilização, de confinamento mais absoluto.
Postos sejam escassas as palafitas a montante dos rios, aproveitando os meandros de
remansos mais suaves, as nesgas de praia onde ocorrem pequenas culturas de subsistência,
encontram-se maior cópia delas nos locais de entreposto, nos arruados que despontam vez
por outra nas margens altas; formando aglomerados vamos encontrá-las onde subúrbios de
vilas e cidades confinam com as partes alagadas.
Aí a palafita se compõe de características mais complexas, sempre rudimentar, mas
recebendo maior apuro a sua construção. Acrescentam-lhe varandas cercadas de sarrafos,
escadas de madeira lavrada, paredes e portas de tábuas; a cobertura é, as vezes, de
folhas de zinco; em casos isolados, de telha-vã. Delineia-se um conjunto de atividades
que se afinam e que somam tanto o esforço que se insinua na paisagem como um efetivo
domicílio. Há mais unidade na extensão panorâmica, o sol secando roupa nos varais e
uma tranqüilidade rotineira, o mormaço tornando mais preguiçosa a lentidão de uma
gente para a qual o universo é, literalmente uma canoa.
Mostra-nos a ilustração um típico arruado de palafitas à margem do Rio Negro em época
de vazante. O recesso das águas descobre o terreno firme, permitindo maior sociabilidade
entre moradores, as crianças aproveitam os "rasos", na incipiente mariscagem de
que os mais velhos lhes dão exemplo, ou na prática de jogos preferidos. As
"criações" perambulam livremente, enquanto os homens se locomovem entre as
coordenadas de um penoso tributo.
(in Revista Brasileira de Geografia, ano 31, nº 4)
(Tipos e aspectos do Brasil;
excertos da Revista Brasileira de Geografia. 10ª ed. Rio de Janeiro, Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, 1975, p.43-44) |
|