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Ano V - abril  2003 - nº 56

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 56
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)Vida nas floresta, vida nas cidades por Louis e Elizabeth Cary Agassiz.

setaquad.gif (95 bytes)As mulheres de Santa Catarina, por Auguste de Saint-Hilaire.

setaquad.gif (95 bytes)Palafitas na Amazônia, por Francisco Barbosa Leite.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


AS MULHERES DE SANTA CATARINA

Auguste de Saint-Hilaire


As mulheres são muito claras; de um modo geral têm olhos bonitos, os cabelos negros e muitas vezes uma pele rosada. Elas não se escondem à aproximação dos homens e retribuem os cumprimentos que lhes são dirigidos. Já descrevi os modos canhestros das mulheres do interior, que ao saírem à rua caminham com passos lentos umas atrás das outras, sem virarem a cabeça nem para um lado nem para o outro, e sem fazerem o menor movimento. Não acontece o mesmo com as de Santa Catarina. Elas não demonstram o menor embaraço, e às vezes chegam mesmo a ter um certo encanto; freqüentam as lojas tão raramente quanto as mulheres de Minas Gerais (1820), mas quando andam pelas ruas em grupos, colocam-se geralmente ao lado umas das outras; não receiam dar o braço aos homens e muitas vezes chegam a fazer passeios pelo campo. Para sair elas não se envolvem num manto negro ou numa capa grossa, e se vestem com mais decência e bom-gosto do que as mulheres do interior.

As mulheres mais ricas da cidade acompanham a moda do Rio de Janeiro, que por sua vez segue a da França.

As mulheres do campo, que não trabalham fora de casa e em nada se parecem com as nossas camponesas, não se apresentam, como as de Minas, com os ombros e o colo nus; todas elas, sem exceção, usam vestidos de chita ou de musselina e um xale de seda ou de algodão; os cabelos são arrepanhados no alto da cabeça e presos com uma travessa, e muitas vezes enfeitados com flores naturais. Durante a semana elas usam apenas os sapatos, mas aos domingos calçam meias também; nos dias das grandes festas religiosas poucas são as que vão à missa sem estarem calçadas com sapatos forrados de damasco (1820). Esse luxo porém, está longe de significar riqueza ou bem-estar. Na verdade, essas mulheres procuram ganhar algum dinheiro com o seu trabalho. Quem passa diante de suas casas ouve-as batendo o algodão; elas fiam e tecem, mas de um modo geral empregam o que ganham unicamente para satisfazer o seu gosto pelas roupas bonitas. E assim a maioria das famílias dos sitiantes leva uma vida bastante miserável, alimentando-se praticamente de farinha de mandioca, de peixe cozido na água e de laranjas, uma fruta tão comum na ilha que nenhum proprietário reclama quando os passantes apanham algumas em suas árvores.

Os homens mais abastados se veste geralmente bem. Os que vivem no campo não se trajam com tanto apuro quanto suas mulheres,; não obstante, apresentam-se mais bem vestidos do que os habitantes de Guaratuba e São Francisco. Geralmente usam sapatos e um chapéu de feltro, calças de algodão e uma jaqueta, sempre limpa, de chita ou de pano grosso. Os que pertencem à Guarda Nacional deixam crescer o bigode (1820).

As mulheres da ilha de Santa Catarina exercem dentro de suas casas uma autoridade que não desfrutam as do interior do país. Os homens se privam de tudo em favor de suas esposas ou amantes, e em nenhum outro lugar existe, como ali, uma desproporção tão grande entre as roupas das mulheres e as dos homens. Nos domingo e dias santos todas as mulheres do campo se assemelham a damas de alta classe, e a maneira como se acham trajados os seus maridos faz com que eles pareçam seus criados.



(Saint-Hilaire, Auguste de. Viagem à Curitiba e Santa Catarina. Belo Horizonte; Editora Itatiaia, 1978, p.173-174)

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